“Fenômeno social”: infectologista analisa agravamento da pandemia em Petrópolis

19/abr 20:06
Por Luana Motta

Entre março e abril, os números de óbitos e taxa de internação por covid-19 dispararam em Petrópolis. A média de dias entre a entrada do paciente de covid-19 nas unidades de saúde e o óbito não tem ultrapassado 25 dias. A taxa de internação em leitos de UTI do SUS está há semanas acima de 80%. O médico pediatra e infectologista Paulo Cesar Guimarães, diretor da Faculdade de Medicina de Petrópolis, acredita que, neste momento, apenas a vacinação não vai conseguir controlar a doença: é necessário que a população adote as medidas de distanciamento social.

Não é apenas em Petrópolis: cidades vizinhas têm registrado aumento no número de vítimas da covid-19 com menos de 50 anos. Esses casos, segundo o infectologista, estão ligado a diversos fatores, especialmente os de caráter social.

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“Jovens começaram a ser expor achando que nada aconteceria com eles, por que veio a vacina. A vacina é fundamental, é básica. Mas sozinha não vai resolver totalmente. Temos que ver quando ela vai ser ampliada a toda a população. O Brasil começou a vacinação muito tarde, um problema de ordem infecciosa virou um problema de ordem politica”, disse o médico.

Petrópolis adotou medidas restritivas, como o toque de recolher, que é válido entre 22h e 5h; o fechamento de bares e restaurantes; e o fechamento do comércio não essencial por uma semana. Mas parece que nada estimulou as pessoas, que já se “acostumaram” com a pandemia, na adoção com mais rigidez das medidas de distanciamento social.

“Esses jovens ainda não pensaram na gravidade do problema. Será que não pode deixar de ir em uma festa? Não pode deixar de ir em uma aglomeração? Não é só um processo infeccioso, é um processo social. O Brasil vai gastar fábulas em dinheiro e as pessoas continuam sem um distanciamento social adequado”, disse. O médico defende que os governos adotem medidas punitivas para as pessoas que desrespeitam as regras de distanciamento.

Nesta segunda-feira (19), há 155 pessoas internadas em leitos de UTI covid, na rede pública e privada. A taxa de ocupação dos leitos de UTI do SUS está em 83,87%. Há ainda o temor de que faltem kits de intubação e insumos para internações, tanto em Petrópolis como para os municípios vizinhos. Além disso, como noticiado pela Tribuna neste domingo (18), há a dificuldade na contratação de mais médicos para compor as equipes, o que dificulta a abertura de novos leitos.

Em muitos casos, os leitos de UTI vagam rápido, porque os pacientes internados vão a óbito tão rápido quanto. Para o infectologista, a gravidade dos pacientes se dá pela vulnerabilidade do seu estado de saúde, pelas novas variantes do coronavírus, mas também porque a população está receosa em procurar as unidades de saúde, e quando procuram o quadro médico já se agravou.

“Essa mutação do vírus também contribui, mas não é uma coisa que só a mutação gere a morte. Muitas pessoas estão receosas de ir para os hospitais. Porque o hospital é pintado como se fosse: entrou morreu. Mas não é assim. Muita gente que não sabia o que era intubação descobriu agora o que é. A intubação não é um procedimento simples”, disse o infectologista. “Não é um fato, são vários fatos. O distanciamento social é fundamental, é difícil ter vários fatores frente a um problema só, a covid”, completa.

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