Sindicatos dizem que Hingo Hammes ignorou plano de retomada das aulas presenciais

29/abr 19:26
Por Luana Motta

Sindicatos da educação afirmam que o prefeito interino Hingo Hammes ignorou o Plano de Retomada das Aulas Presenciais, construído deste o ano passado para nortear a retomada das atividades nas escolas quando chegasse o momento mais seguro em relação quadro epidemiológico da pandemia.

Nesta quarta-feira (28), o prefeito interino autorizou a retomada das aulas presenciais a partir do dia 3 de maio e, mais uma vez, ainda não apresentou quais foram os critérios epidemiológicos levados em consideração para a tomada dessa nova decisão.

Para o Sindicato dos Professores de Petrópolis e Região (Sinpro), o Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (Sepe) em Petrópolis e a Comissão de Educação da Câmara Municipal, a decisão do governo interino coloca em risco a vida de estudantes, professores e profissionais da educação.

Decreto ainda não foi publicado

De acordo com o material divulgado pela Assessoria de Comunicação do governo interino às 21h13 desta quarta-feira, o decreto com o detalhamento sobre a retomada das aulas seria publicado ainda ontem. O documento só foi publicado no início da noite desta quinta-feira.

A decisão foi tomada após uma manifestação de pais e representantes de escolas particulares pressionando o governo interino a antecipação retomada das aulas presenciais.

O Sinpro, o Sepe e a Comissão da Educação da Câmara Municipal que representam os profissionais da educação no município são contrários a retomada neste momento.

“O Sinpro é totalmente contrário ao retorno das aulas presenciais neste momento por várias razões. A primeira delas é que a pandemia não está controlada na nossa cidade, ainda estamos na bandeira vermelha. A segunda coisa é a vacinação dos professores e trabalhadores da educação que já foi comunicada pela prefeitura no dia 6 de maio, e entre uma dose e outra, só em junho os professores poderiam retornar às aulas com segurança”, disse Frederico Fadini, diretor geral do Sinpro.

Retorno das aulas sem vacina é chacina”

Na noite desta quarta-feira, o Sepe promoveu uma live pelo Facebook com a participação de representantes dos dois sindicatos, em que foi expostos vários argumentos técnicos e pedagógicos que justificam o porquê de serem contrários a decisão do prefeito interino.

“Não foi observada condição sanitária que preceda um eventual retorno seguro”, disse Daniel Salomão, coordenador geral do Sepe, sobre a retomada das aulas. Segundo ele, a condição sanitária para o planejamento da data de retorno deveria levar em consideração o número de leitos disponíveis e a condição epidemiológica do município, que deveria estar em um patamar inferior à bandeira vermelha.

Além disso, ele ressalta que a data de início da vacinação dos profissionais da educação (06 de maio) é posterior a data de retomada das aulas, na próxima segunda-feira.

Os sindicatos afirmam que o Plano de Retomada às Atividades Presenciais Pós Covid-19, elaborado pelo Grupo de Trabalho desde o ano passado foi ignorado pelo governo provisório.

“A impressão é que dá, é que vão pegar todos os cuidados que foram tomados nos meses anteriores, colocar num pacote e jogar fora”, disse o diretor do Sinpro, Frederico Fadini. Durante a live, o professor afirmou que não vê nenhuma razão sanitária, pedagógica e psicológica em relação aos profissionais da educação e alunos para a retomada das aulas.

Fadini ressaltou, ainda, que há atraso na vacinação dos profissionais da educação em Petrópolis, e deu como exemplo o município vizinho, Teresópolis, que já está vacinando profissionais da educação. “Mas essa não foi a prioridade. A prioridade foi reabrir as escolas particulares para o retorno, onde a pressão financeira era maior”, disse o diretor.

Protocolo foi criado para nortear a tomada de decisões

O Grupo de Trabalho que foi formado no ano passado, teve a participação de 44 entidades ligadas à educação, como os próprios sindicatos, a Secretaria de Educação, o Conselho Municipal de Educação (Comed), o Conselho Tutelar, a Promotoria de Justiça do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, Vigilância Epidemiológica, entre outros.

Várias reuniões foram realizadas desde a metade do ano passado, os encontros resultaram no Plano de Retomada às Atividades Presenciais Pós Covid-19, documento com 256 páginas que detalha todas as ações que devem ser adotadas pelas unidades de educação e grupos envolvidos no antes e durante a retomada das aulas.

Sem previsão de data, o documento detalha, inclusive, os critérios epidemiológicos que devem ser observados, para nortear a decisão de retomadas das atividades presenciais quando for o momento.

O documento é assinado pelo prefeito interino Hingo Hammes e pela secretaria de educação Márcia Palma, que também acompanhou a elaboração do plano no ano passado, quando já ocupava o cargo de secretária, no governo do ex-prefeito Bernardo Rossi.

Prefeitura continua sem informar quais escolas receberam selo Escola Segura

Já em janeiro deste ano, quando foi proposta a retomada das aulas no modelo híbrido, foi condicionado que, para que as escolas reabrissem, deveriam obter o Selo Escola Segura, concedido por um grupo de trabalho que foi formado para vistoriar as unidades públicas e particulares.

As escolas que apresentarem todos os critérios exigidos pelo check list elaborado pelo grupo de trabalho, poderão reabrir a partir da autorização de reabertura. Até o momento, apenas 26 escolas foram vistoriadas. A Tribuna pediu a Secretaria de Educação por três vezes, uma pelas pela Lei de Acesso à Informação (LAI), a lista com o nome de todas as escolas que receberam o Selo, mas não obteve resposta até o fechamento desta reportagem.

Sindicalistas cobram os critérios epidemiológicos observados para retomada

O diretor do Sepe, Luciano Matias, que faz parte do grupo de trabalho que vistoria as escolas, disse durante a live que, em duas escolas particulares, foi questionado qual o percentual de pais e responsáveis de alunos são favoráveis a retomada das aulas neste momento: em uma, o índice foi de 15%; na segunda, de 11%.

Luciano disse ainda que “as decisões do governo vêm sendo tomadas paralelamente ao Grupo de Trabalho (formado no ano passado), paralela à Secretaria de Educação, paralelo ao Comed (Conselho Municipal de Educação), que são instituições que, nesse momento, debatem, discutem, planejam uma possibilidade de retorno”, disse.

Luciano ainda acrescentou que o grupo vem sendo baseado na ciência e em dados divulgados pela própria Prefeitura no Painel Covid-19 e pela Secretaria de Estado de Saúde, no Mapa de Risco da Covid-19.

Rose do Sepe critica duramente prefeito interino

Durante a live, Rose Silveira, diretora do Sepe, pede que o prefeito interino venha a público explicar o que motivou a decisão de reabertura. “O que tem dia 3, dia 3 é a cura? Ou é só: ‘eu sou o prefeito, resolvi que é dia 3 e acabou, eu que mando, eu que bato pé e é assim que vai ser’?. Porque é o que está parecendo. Porque dia 3 não tem nada de diferente. Gente, hoje estamos no dia 28, eu não sei quantas pessoas morreram hoje, mas ontem foram 22, anteontem foram 19. Então não tem nada normal. Não tem nada que motive essa mudança de atitude para colocar mais gente na rua, não tem porquê”, disse.

“Uma decisão dessas o secretário de saúde do município tem que vir a público e dizer que está assumindo que é seguro abrir escolas nesse momento. Em bandeira vermelha, vinte pessoas morrendo por dia em média. O secretário de saúde está se responsabilizando por essa medida? Essa é uma medida que tem que vir da saúde? O secretário Aloíso está assumindo esse risco? Hingo Hammes está assumindo esse risco? Porque isso tem que ser colocado em publico”, disse a representante do Sepe.

Comissão de Educação da Câmara também é contra retomada agora

O vereador Yuri Moura (Psol), presidente da Comissão de Educação da Câmara Municipal, também se posicionou contra a retomada das aulas presenciais neste momento.

Post publicado no perfil do vereador Yuri Moura (Psol) no Instagram. (Foto: Reprodução Instagram)

“Sigo contrário ao retorno das aulas presenciais. O quadro da pandemia em Petrópolis é delicado e precisamos ter responsabilidade com o momento em que estamos vivendo. Me coloco ao lado dos especialistas, profissionais de educação, mães e pais de alunos na mobilização contra a decisão. A manifestação de mais cedo na prefeitura não representa os anseios da população”, disse Moura, nas redes sociais.

A Tribuna questionou a Prefeitura sobre a publicação do decreto, que estava previsto para esta quarta-feira, solicitou mais uma vez a lista das escolas que receberam o Selo Escola Segura, solicitou informações sobre a licitação para a compra de itens de higienização para as escolas, e pediu ao prefeito interino Hingo Hammes que esclarece os critérios que foram adotados para a autorização de funcionamento das escolas, e aguarda resposta.

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