Inconsistência de dados sobre a covid-19 revela a fragilidade na tomada de decisões pelo município

06/abr 21:33
Por Luana Motta

Nas últimas 48 horas, Petrópolis registrou mais uma tragédia: foram 40 novas notificações de mortes por covid-19. Nesta terça-feira (6), foram confirmadas 27 mortes. Na contramão do que especialistas da ciência e área médica recomendam – isolamento social e medidas de distanciamento – o município prevê a retomada das atividades econômicas não essenciais para a próxima sexta-feira (9).

Se forem observados os mesmos parâmetros epidemiológicos que eram adotados pelo gabinete de crise da covid-19, criado no início da pandemia, Petrópolis vai precisar de um milagre para reduzir, em dois dias, as taxas de mortes e internações para que o setor econômico possa voltar ao “normal”.

A Prefeitura esclareceu que as 27 mortes confirmadas hoje são relativas aos últimos 17 dias – fruto do atraso na confirmação dos exames que atestam a morte por covid e ao consequente acúmulo dos números. Há dados represados também com relação aos casos suspeitos.

Além disso, o painel com as informações relacionadas ao coronavírus é arcaico, atualizado de forma manual e no mínimo confuso. Um exemplo aconteceu nesta terça-feira (6): a equipe da Tribuna consultou os dados do Painel Covid-19 da Secretaria Municipal de Saúde às 18h57, que mostram a notificação de 27 novos óbitos por covid-19 nas últimas 24 horas, totalizando 740 mortes.

Às 18h57, o sistema de informações da Prefeitura havia sido atualizado, com o registro de 27 óbitos

No entanto, às 19h15, o painel foi novamente atualizado e omitindo as novas notificações de mortes, mostrando os 713 óbitos notificados, como no dia anterior.

Às 19h15, no entanto, os dados foram alterados, e o número de mortes voltou a ser de 713

A Tribuna questionou o governo interino sobre um posicionamento em relação as novas mortes, às 19h24. Uma hora depois, às 20h31, a Prefeitura divulgou o boletim epidemiológico com os dados sobre os óbitos atualizados, em 740 mortes.

Às 20h31, a Prefeitura divulgou o boletim epidemiológico para a imprensa, confirmando 27 mortes nos últimos 17 dias

A inconsistência nos dados sobre o número de casos é só a ponta do iceberg em relação à falta de planejamento para a tomada de decisões. Os dados são inseridos manualmente, item por item. À pedido do Ministério Público Federal e Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, a Prefeitura vem desde janeiro, fazendo até mutirões na Secretaria de Saúde para tentar atualizar o resultado dos testes no sistema.

Plano criado ano passado diz que, para volta de atividade econômica, ocupação de UTI deve estar abaixo de 80%

O Plano de Retomada das Atividades Socioeconômicas de Petrópolis, criado pela Prefeitura no ano passado, estabelece que, para as atividades serem flexibilizadas, é necessário que a taxa de ocupação dos leitos de UTI por covid-19 esteja abaixo de 80% da capacidade disponível.

Também deve levar em consideração ainda a avaliação epidemiológica diária de números de casos e números de óbitos e o número de leitos de UTI e clínico/dia. A Tribuna questionou a Prefeitura na tarde de segunda-feira (5) sobre quais critérios são adotados para definir as medidas de abertura e fechamento das atividades em Petrópolis, mas o governo interino não respondeu até a noite desta terça-feira (6).

Gabinete que instituiu medidas já contava com participação do prefeito interino, então presidente da Câmara, desde o ano passado

O gabinete de crise criado em março do ano passado tinha integrantes de todas as secretarias de governo e membros da Câmara Municipal, inclusive com a participação do atual prefeito interino Hingo Hammes que, na época, como vereador, ocupava a função de presidente da Câmara. O gabinete foi responsável por discutir as medidas de retomada das atividades socioeconômicas que, apoiadas nas Notas Técnicas Vigilância Sanitária e Epidemiológica e Secretaria de Saúde, criaram o Plano de Retomada das Atividades Socioeconômicas de Petrópolis.

Neste planejamento, as atividades econômicas foram divididas em grupos que foram sendo autorizados a reabrirem de forma gradual. O documento tem 93 páginas e norteou as decisões de flexibilizações até o ano passado.

O Plano foi tema de discussão até mesmo com o Ministério Público, que entrou com uma ação civil pública exigindo que a Prefeitura só retomasse as atividades observando os parâmetros epidemiológicos e de vigilância em saúde, assim como a ampliação da testagem em massa da população, para garantir que as atividades fossem retomadas com o quadro epidemiológico apresentando baixo risco de contaminação. Neste ano, não houve novas solicitações na ação.

Petrópolis segue com alto risco de contágio e risco muito alto com relação a internações em UTI e óbitos

Atualmente, Petrópolis encontra-se na bandeira vermelha – risco alto de contágio, de acordo com o Mapa de Risco da Covid-19, da Secretaria de Estado de Saúde. Nos indicadores de óbitos e internações em leitos de UTI, o município chegou na bandeira roxa – risco muito alto. Isso indica que o município está na sua capacidade máxima na rede de saúde e contaminação pelo novo coronavírus.

No último domingo, o prefeito interino Hingo Hammes publicou um novo decreto prorrogando as medidas de restrição vigentes por mais três dias, e autorizou a abertura de parte das atividades não essenciais na próxima sexta-feira. Pelo novo decreto, casas de festas, boates e pistas de dança, assim como pontos turísticos públicos e privados, cinemas, clubes, parques e áreas de recreação infantil, vão poder reabrir na próxima segunda-feira, dia 12 de abril.

A Tribuna questionou a Prefeitura se as medidas determinadas no decreto serão revistas, tendo em vista a alto índice de mortes e internações por covid-19. O município respondeu que “segue monitorando os dados que compõem a matriz de risco e os números de atendimento nos pontos de apoio”.

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