• O voto do protesto

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  • 15/10/2016 12:00

    Gosto de ver a irreverência popular. O povo a usa até para demonstrar o seu descontentamento com a situação política. Em período de eleição, é comum ouvir uma piada, um comentário jocoso sobre alguns candidatos. Há também os que aproveitam dessa irreverência para angariar votos. Basta dizer que, em 2014, um deputado federal foi reeleito em São Paulo, com 1.016.796 votos, explorando a imagem de um palhaço, personagem vivido por ele. As tiriricagens, em 2010, deram-lhe mais votos: 1. 353.640. Foi eleito com o seguinte bordão: "Vote no Tiririca, pior do que tá não fica!" 

    Na capital paulista, nas eleições de 1959, um rinoceronte do zoológico da cidade, que recebeu o nome de Cacareco, ganhou 100 mil votos para vereador. Naquela época, como as cédulas de votação eram de papel, os eleitores escreviam o nome do candidato. Para se ter uma ideia da votação expressiva do rinoceronte, é válido mencionar que o partido mais votado recebeu 95.000 votos.

    Na década de 80, o “mal humorado” Macaco Tião, que jogava fezes e lama nos visitantes, foi candidato indicado, pela turma do jornal “O Planeta Diário” e da revista “Casseta Popular”, à Prefeitura da cidade do Rio. Como na época, não havia urnas eletrônicas, os eleitores escreviam o nome na cédula. Estima-se que esse candidato, não oficial, tenha recebido 400 mil votos. Entrou para o Guinnes World Records como o chimpanzé mais votado no mundo. 

    Após a candidatura, Tião virou celebridade. O seu falecimento, em 23 de dezembro de 1996, aos 34 anos, por causa de diabetes, virou notícia. Foi decretado luto oficial de 3 dias na capital carioca. Há um monumento em sua homenagem no zoológico.

    Neste ano de 2016, na cidade de Jati no Ceará, um bode foi lançado como candidato em forma de protesto, pois lá só havia uma candidata à prefeitura. Entre 6.243 eleitores, 1.533 votaram nulo, 229 em brancos. Houve 8,50% de abstenção, o que vem a corresponder uma média 530 eleitores. A campanha do Bode 90 totalizou 2.292 votos contra a prefeita, candidata à reeleição.

    No Rio de Janeiro, no primeiro turno deste ano, 204.110 votos foram brancos (5,50%); 473.324 foram nulos (12,76%) e 24,28% não compareceram para votar. Em síntese, nesta eleição, 1.866.612 eleitores não votaram em candidato nenhum. No segundo turno, há uma tendência desse número aumentar. 

    Essa realidade pode ser vista pela ótica da ironia, da irreverência, mas a situação é séria. Alguém tem que ocupar a cadeira do executivo, alguém tem que legislar.

     O protesto manifesta a indignação, a rejeição do povo em relação aos candidatos que se apresentam. Porém é preciso que se escolha alguém para ocupar esses lugares, porque nem os municípios, nem os estados, nem o país podem ficar sem um comando político. No momento, a sociedade ainda não tem condições de viver sem governo. Necessariamente a população tem que escolher um para ocupar a cadeira do poder executivo. Este é o dilema: se os candidatos que se apresentam não atendem aos interesses da população, em quem votar? 

    Quando me deparo com uma situação como essa, penso que devo votar naquele menos distante dos interesses do povo, embora o candidato não esteja no perfil que considero necessário para exercer o cargo. Sei que, em um estado democrático, até a omissão deve ser respeitada. Mas nesse momento, a preocupação de Martin Luther King deve ser lembrada: “O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética… O que me preocupa é o silêncio dos bons.

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