Tri da F-1 há 30 anos, Ayrton Senna consagrou as manhãs de domingo no Brasil

20/out 22:00
Por Toni Assis, especial para a AE / Estadão

Segunda metade dos anos 1980. Em meio à inflação galopante da época e um cenário político em que casos de corrupção vinham à tona com frequência no Brasil, as manhãs de domingo surgiam como um refúgio para o sofrido povo brasileiro. Como em um ritual, as famílias se reuniam geralmente na sala de casa para acompanhar na televisão, um jovem piloto, de nome Ayrton Senna, desafiar e também desbancar nomes como Alain Prost, Nigel Mansell e o próprio compatriota Nelson Piquet na Fórmula 1.

Da sua estreia na Toleman, em 1984, ao tricampeonato mundial conquistado em 1991, pela McLaren, Ayrton Senna foi mais do que um vitorioso nas pistas. Seus títulos e o estilo arrojado o transformaram em ídolo nacional. E mais. Amplificou a popularidade e o interesse do cidadão comum em acompanhar as corridas de Fórmula 1.

Na esteira do bi mundial de Emerson Fittipaldi (campeão em 72 e 74) e contemporâneo nas pistas do já tricampeão Nelson Piquet (81, 83 e 87), Senna ganhou o status de ídolo nacional. Intuitivo, emocional, dedicado, intenso, resiliente e talentoso, ele se identificou com os torcedores e caiu no gosto popular.

O dia 20 de outubro marca os 30 anos do tricampeonato mundial de Ayrton Senna. Os dois primeiros títulos vieram em uma árdua disputa com o francês Alain Prost em 88 e 90. No ano seguinte, a conquista teve como principal rival o inglês Nigel Mansell.

Assessor de imprensa de Ayrton Senna por quase dez anos, Charles Marzanasco, 67, o acompanhou em sua fase mais vitoriosa tanto no Brasil como na Europa. Ao Estadão, ele comentou a importância que título de 91 teve na trajetória do piloto brasileiro.

“O título de 91 veio em um momento muito aguardado. Teve a questão do problema com o Prost em 89, quando lhe tiraram o campeonato por causa do incidente provocado pelo francês. Em 90, no bicampeonato, o Senna deu o troco no Prost. No ano do seu tricampeonato, a Williams era muito melhor e o Mansell tinha muito mais carro. Mesmo assim, ele conseguiu fazer a diferença na pista e vibrou demais”, comentou Marzanasco, que atualmente assessora Bruno Batista na Stock Car.

Apesar de o favoritismo pender para o lado do inglês, Ayrton iniciou a temporada de forma implacável. Venceu as quatro primeiras provas do calendário sendo que uma delas teve um sabor de título: o GP Brasil. Foi o seu primeiro triunfo correndo em casa.

“Foi uma corrida muito emocionante. A preparação para conseguir a primeira vitória dentro de casa teve muita dedicação enorme. Fez a pole, conseguiu uma boa largada e ditava o ritmo da corrida com Mansell em segundo”, relembrou Marzanasco.

Mas foram quando as falhas mecânicas surgiram é que Senna mostrou o seu algo mais. Com problemas no câmbio, ele chegou ao final só com a sexta marcha para receber a bandeirada final. De acordo com o então assessor do piloto brasileiro, um outro fator acabou ajudando no resultado final: a chuva.

“O seu grande diferencial, além de ser um piloto sensacional, era a capacidade de guiar na chuva e também em circuitos de rua. Nessas provas, aí é que se destacava mesmo. No Grande Prêmio do Brasil de 91, choveu no final da prova e isso o beneficiou, pois o Patrese (que vinha em segundo lugar) diminuiu o ritmo. O Senna era como um relógio. Errava muito pouco e sempre andava rápido. Isso inspirava tanto pilotos consagrados, como o Prost, como os que estavam começando, como Schumacher (estreou naquele ano)”.

TÍTULO NO JAPÃO E PRESENTE PARA BERGER – O título viria em Suzuka, na penúltima corrida da temporada. À frente de Mansell na classificação, o brasileiro seguiu a estratégia definida pela McLaren. Como os dois carros largaram na primeira fila, Gerhard Berger disparou em primeiro enquanto Senna se encarregaria de frear o ímpeto do rival inglês.

Mansell, no entanto, facilitou as coisas ao parar na caixa de brita ainda no início da disputa. Com o título assegurado, bastou ao brasileiro, tocar o seu ritmo. Na conclusão das paradas nos boxes para a troca de pneus, Senna retornou à pista em primeiro lugar. E quanto tudo indicaria mais uma vitória nacional veio o inusitado. Uma ordem de Ron Dennis, então chefe da equipe, ordenou que Senna tirasse o pé para que Berger terminasse a prova em primeiro lugar.

A intenção do dirigente era premiar o piloto austríaco pela sua contribuição em ajudar o time durante toda a temporada. Senna cedeu a liderança somente na última volta.

Profundo conhecedor do perfil de Ayrton Senna, Marzanasco entende que a decisão acabou sendo tomada no calor da disputa. “O Senna sempre foi um piloto que correu por vitórias para ser campeão. Não era muito de buscar regularidade de pontuação. Sempre foi muito intuitivo, de ações rápidas. A decisão de dar a vitória ao Berger foi mesmo coisa de momento. Não acredito que estava previamente combinado antes da corrida.”

Na segunda metade dos anos 1980, período em que Nelson Piquet e Ayrton Senna criaram uma rivalidade que chegou a extrapolar o campo das corridas na Fórmula 1, Emerson Fittipaldi se aventurava na Fórmula Indy, onde também foi campeão. O desbravador considera essa época, como o auge do Brasil na mais badalada categoria do automobilismo mundial. “Eles foram sensacionais. O Brasil emendou uma sequência muito importante com dois tricampeões. O Ayrton Senna era fantástico. Tinha um estilo diferente do Piquet. Era muito arrojado, se cobrava demais. Era um obstinado por vitórias”, disse Fittipaldi.

MORTE E VAZIO NA FÓRMULA 1 – Considerado um dos maiores pilotos de todos os tempos, a sua morte no Grande Prêmio de San Marino, no dia 1º de maio de 1994, trouxe, além de transformações em relação à segurança dos pilotos, também um imenso vazio para a categoria. Com Piquet já aposentado da F-1, as esperanças de um novo ídolo no esporte ficaram concentradas nos iniciantes Rubens Barrichello e Christian Fittipaldi.

Sem poder mais contar com Senna na pista, o Brasil viu o prestígio de seus pilotos cair vertiginosamente. Foram sete anos sem comemorar sequer uma vitória. Esse jejum só foi interrompido em 2000 com Rubens Barrichello à frente de uma Ferrari.

Para Viviane Senna, presidente do Instituto Ayrton Senna, e irmã do piloto, o que fica de Ayrton é um legado de comprometimento com o povo brasileiro.

“Ayrton representou o lado luminoso do Brasil. Um Brasil vencedor em condições adversas. Como brasileiro, ele conseguiu brilhar num cenário de Fórmula 1, totalmente europeu. Então, ele teve que lutar em dobro para se impor. Ele foi um guerreiro assim como a imensa maioria da população brasileira precisa ser “, afirmou em entrevista ao Estadão.

Viviane disse ainda que o maior legado de Senna em sua trajetória nas pistas foi o seu exemplo. “O Senna competiu contra os grandes da Europa e mostrou era possível vencer pela garra, determinação, competência e dedicação. São valores e atitudes que estão por trás de qualquer pessoa vitoriosa, seja piloto ou não”, completou.

EXPOSIÇÃO MOSTRA TRAJETÓRIA DE SENNA – Para comemorar essa marca de 30 anos do tricampeonato mundial de Fórmula 1, a exposição “Eu, Ayrton Senna da Silva” em São Paulo conta um pouco da trajetória do piloto que morreu aos 34 anos após sofrer acidente no GP de San Marino em 1994.

Aberta ao público até o dia 15 de novembro, no shopping Villa Lobos, o evento está dividido em diferentes temas. Durante a visitação, um holograma em 3D com tecnologia de última geração e inteligência artificial é uma atração à parte.

Os amantes da velocidade podem conhecer cada detalhe da vida do ídolo. Detalhes que vão desde a sua infância, seus gostos musicais, seu início no automobilismo internacional até aos títulos mundiais que o consagraram como piloto de Fórmula 1.

A exposição lembra ainda detalhes de um piloto fora de série e retrata, por exemplo, seu desempenho na pista molhada. Durante sua trajetória, 13 das 41 vitórias que obteve na F-1 foram na chuva.

Cercado pelos protocolos sanitários em função da pandemia, as visitações são feitas obedecendo um limite de visitantes. As sessões são gratuitas e os organizadores estimam que, até o final do evento, cerca de 50 mil pessoas possam ver a exposição.

Para Viviane Senna, a exposição é a chance de aproximar um pouco mais o Ayrton de seus fãs mostrando também como ele era fora das pistas. “Mais do que campeonatos, vitórias, recordes de pista ou poles, Ayrton deixou um legado de valores que são atemporais e inspiram milhares de pessoas ao redor do mundo até hoje.

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