04/abr 08:00
Por Ataualpa Filho

Amar para ressuscitar o humano em si. Crer e crescer na fé. Nutrir esperanças. Fraternizar-se, acaridar-se, por inteiro, não por metade. Perdoar para pacificar o coração. Libertar-se do ódio. Em ressurreição, remover as pedras dentro de si. Renascer antes de voltar ao pó.

Neste período pascal, sempre temos a oportunidade de refletir sobre os nossos atos para exercitar o perdão.E assim,reconhecer a gratidão. Palavra esta que vem sendo pronunciada com mais frequência neste período pandêmico. Acho que estamos reconhecendo a importância nas relações humanas em um ambiente pacífico.

A espiritualidade alcança uma dimensão capaz de trazer uma resignação que permite compreender as ações que estão fora do nosso controle, principalmente no que tange à saúde. A religiosidade tem contribuído muito para a paz interior, uma vez que se fortalece por confiar na misericórdia divina. E aqui é preciso estabelecer a diferença entre resignação e conformismo. Por isso é preciso ter discernimento para reconhecer o que não pode ser mudado por não estar ao nosso alcance. Contudo, empenhar-se inteiramente para mudar aquilo que é possível e que possa beneficiar não somente a si, mas a todos. E, quando estamos unidos, as chances do desespero são menores.

As ações solidárias têm aliviado muitas dores. As palavras de conforto no momento de perda de um ente querido também servem como bálsamo. A nossa impotência diante da morte traduz a efemeridade da vida humana. Por isso que a humildade precisa ser exercitada, pois comprova que não precisamos do ódio para viver.

Inegavelmente, “há mais felicidade em dar do que em receber”. A caridade é portadora de uma adrenalina que produz um bem-estar interior imenso. Por essa razão, é possível servir sem pensar em retribuição.

Vejo com muita tristeza a propagação da política do “bateu levou”, da ostentação de armas e músculos com a intenção de persuadir pela força, na exaltação da violência para solucionar problemas que dependem mais de medidas socioeducativas do que da imposição do medo.  Pode até parecer utopia, mas ainda prefiro seguir o Mestre que disse: “Ouvistes que foi dito: olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra.”

Se for levado, ao pé da letra, a Lei de Talião, “olho por olho dente por dente”, vamos acabar cegos e desdentados. Sei que, até pelo instinto de defesa, sempre que somos agredidos, tendemos ao revide. Porém não se constata o mesmo impulso diante das ações fraternas. Há muitos que, pela índole da esperteza, só querem receber sem dar nada em troca.  A retribuição até pode ser manifestada por uma atitude mecânica, mas o agradecimento “de coração” requer humildade. Às vezes, só o brilho dos olhos, o abraço apertado que a sinceridade transmite deixam transparecer a gratidão.

A ferida provocada pela ingratidão leva mais tempo para cicatrizar. Por isso, é bom seguir o dito popular: “fazer o bem sem olhar a quem”. A caridade é despretensiosa. Aqui cabe lembrar a passagem bíblica que relata a gratidão do samaritano ao ser curado da lepra:

“Indo para Jerusalém, Jesus atravessava a Samaria e a Galileia. Quando ia entrar no povoado, vieram-lhe ao encontro dez leprosos. Pararam ao longe e gritaram: ‘Jesus, Mestre, tem piedade de nós’. Ao vê-los, Jesus lhes disse: ‘Ide apresentar-vos aos sacerdotes.” E aconteceu que, no caminho, ficaram limpos. Um deles, vendo-se curado, voltou glorificando a Deus em voz alta. Caiu aos pés de Jesus e, com o rosto em terra, agradeceu-lhe. E este era um samaritano. Tomando a palavra, Jesus disse: ‘não eram dez os que ficaram limpos? Onde estão ou outros nove? Não houve quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro?’”

Retribuir o bem é gerar gentileza. O “doar a vida pelo irmão” é um ato de amor infinito. Por isso temos que reverenciar Aquele deu avida por nós.

– Feliz Páscoa!

Últimas