Réquiem para a gestão ambiental

  • 28/03/2016 10:30

    Um mal invisível está transtornando o dia a dia nas cidades. Seres humanos ficam irritadiços, animais mudam o comportamento e tantos outros problemas ocorrem devido ao ruído urbano, que fica cada vez mais intenso à medida que a vida moderna avança. É o barulho dos motores dos veículos, de aparelhos de som, de sirenes, britadeiras, buzinas, celulares, escapamentos de motocicletas e tráfego aéreo. A situação é grave e, como tal, reconhecida mundialmente: a Organização das Nações Unidas caracteriza a poluição sonora como uma das mais danosas, ao lado do ar e da água por produtos químicos. 

    A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera o Rio de Janeiro e São Paulo cidades classificadas como as mais barulhentas do mundo, juntamente com Nova York, Tóquio e San Francisco. Embora ignorado pela maioria da população, o impacto da poluição sonora sobre a saúde é perverso, pois o ruído atua de forma traiçoeira e a exposição acumulada provoca estresse, distúrbios de sono, problemas cardiovasculares, reduz a concentração e altera o comportamento psicossocial, entre outros problemas, segundo reconhece a OMS. O organismo humano começa a sofrer o efeito do ruído quando ele ultrapassa 50 dB, nível do limite estabelecido na lei para regiões residenciais. De 55 a 65 dB, equivalente ao barulho normalmente presente em um escritório de uma grande empresa, a pessoa começa a ficar em estado de alerta constante, não relaxa, e a concentração necessária para um trabalho intelectual começa a ficar comprometida. De 65 a 70 dB (nível de ruído encontrado em um terminal rodoviário, por exemplo), o organismo começa reagir para se adaptar ao ambiente – o nível de cortisona no sangue aumenta, reduzindo as defesas imunológicas, e há uma indução à liberação de endorfinas, tornando o organismo dependente (como no caso de pessoas que só conseguem dormir com o rádio ou a TV ligados). Acima de 70 dB – nível usualmente encontrado em ruas de tráfego intenso –, a pessoa fica sujeita a um estresse degenerativo, com aumento de risco de enfarte e infecções, entre outras doenças, e o equilíbrio emocional é abalado. 

    O ruído excessivo pode também causar perda auditiva e por essa razão é fundamental levar em conta a intensidade da exposição. Uma pessoa não pode ficar exposta a um ruído acima de 85 dB por mais de oito horas; indivíduos que trabalham em ambientes assim devem ter uma jornada de trabalho menor. Quando o ruído é muito intenso, pode até mesmo provocar um trauma que resulta imediatamente em surdez permanente. Podemos citar, ainda, exemplos importantes de fontes de ruídos intensos como um martelete pneumático, usado em construção civil, que faz barulho acima de 100 dB, e uma moto potente chega a 95 dB quando alcança a velocidade de 80 quilômetros por hora. 

    Em uma discoteca, por exemplo, o normal é um ruído de 90 a 95 decibéis, por isso, os jovens saem dali falando alto e com uma perda auditiva temporária, mas no dia seguinte já estão recuperados. O mesmo não se pode dizer em relação ao DJ, que poderá estar trabalhando em outro evento no dia seguinte e não terá tempo para essa recuperação. Em cerca de cinco anos esse indivíduo poderá  apresentar uma perda auditiva irreversível. Esta é apenas uma variável que compõe o modelo de atuação sob o qual são implantados em uma cidade o Programa de Gestão Ambiental (PGA) e o Sistema de Gestão Ambiental (SGA). Atreladas às ações necessárias à implantação, estão a conscientização e a fiscalização.

    Este réquiem é o terceiro de uma série de cinco. Cabe como uma cooperação e alerta para as autoridades de Petrópolis. Os leitores que quiserem participar dos temas para os réquiens, podem mandar sugestões sobre os dois últimos que serão definidos para próximos artigos.

     achugueney@gmail.com  

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