Réplica à Mary del Piore

11/set 08:00
Por Gastão Reis

Não, caro(a) leitor(a), não escrevi errado no título o sobrenome da historiadora Mary del Priore. Apenas retirei o primeiro “r” pelas razões que passo a expor.

A entrevista dada por ela ao jornalista Bruno Alfano, em O Globo, de domingo, 5.9.2021, é lamentável desde o introito. Ali é dito que a atuação da Princesa Isabel como libertadora é “recalibrada por uma nova geração de historiadores. Os novos estudos a descrevem como uma dona de casa. (…) A especialista em Brasil Imperial conta a dimensão exata da aristocrata na Lei Áurea, seus interesses concentrados em religião e na família.”    

A historiadora não se envergonha de afirmar que o papel de Isabel na abolição foi muito pequeno (sic). E ainda consegue citar André Rebouças, fora de contexto. Em seu diário, teria escrito que Isabel, “em fevereiro de 1888, faz seu primeiro gesto em favor da abolição”. Pior, a dita e infiel historiadora consegue difamar a Princesa: “Ou seja, podemos dizer que ela só se torna abolicionista três meses antes de 13 de maio.”

Isabel teve como tutora a Condessa de Barral, mulher culta, preparada, abolicionista, rica, durona nas negociações, com quem conviveu por quase uma década ao longo de seus anos de formação. Falava várias línguas e teve um salão em Paris onde recebia a nobreza europeia. Como é possível que uma pessoa com este perfil pudesse ter educado uma futura monarca preocupada apenas com religião e família? Na verdade, Isabel era abolicionista desde muito jovem. Não só preocupada com a questão, mas tomando iniciativas a favor.

Outra resposta da entrevistada compõe a dupla categoria de vergonhosa e desinformada. Transcrevo: “Nunca teve participação política em nada porque o pai dela não gostava. Não a chamava para participar das reuniões ministeriais. Nunca ajudou a princesa a ter um conhecimento maior da vida política no Brasil.” Aqui, o desprezo pelos fatos atinge seu ponto alto. Insulta Pedro II e Isabel. A Princesa era membro nato do Conselho de Estado, órgão político máximo do Império, em que o Conde D’Eu tinha assento. Ela não só frequentava essas reuniões como chegava mesmo a discordar do marido como na data de 13 de maio em que ele preferia setembro, após a colheita do café.

Quanto a Pedro II, reproduzo a seguir um trecho de um parágrafo do meu livro a sair, “História da Autoestima Nacional”, em relação à Princesa: “Sua preparação para ser Chefe de Estado foi preocupação constante de seu pai. Além de ter conhecimento de economia e de teorias políticas, recebeu dele por escrito uma espécie de manual, intitulado Conselhos à Regente (escritos em 1871). Nesse lado prático, Pedro II foi fundo: por três períodos, totalizando quase quatro anos, o equivalente a um mandato presidencial atual, ele viajou deixando-a como Regente para que dominasse o ofício na prática tanto quanto possível. Nos Conselhos, afirma claramente que o papel de seu marido deveria ser igual ao do príncipe consorte alemão Alberto, esposo da rainha Vitória, da Inglaterra. A imperatriz seria ela e somente ela”. E ajudar não é direcionar.

Cabe lembrar ainda a resposta enfática dada por ela numa reunião social no Passo Isabel, atual Palácio Guanabara, a um senador do Império que queria saber se ela era a favor ou contra o voto feminino: “Se podem reinar, por que não votar?” Melhor ainda, e aqui volto citar meu livro a sair: “D. Pedro II deu-lhe total liberdade para exercer suas funções, como podemos aferir nos Conselhos à Regente. E assim o foi.  Sua batuta e sanção imperiais estiveram presentes no nosso primeiro – e tecnicamente competente – recenseamento de 1872; no desenvolvimento da rede ferroviária; na promulgação da Lei do Ventre Livre; na solução de questões de fronteira com vizinhos; e acordos comerciais internacionais. Ou seja, muito além de se restringir a ser apenas quem assinou a Lei Áurea, por mais importante que esta fosse”.

Na Lei do Ventre Livre, de 1871, quase 20 anos antes da Áurea, Isabel libertou os filhos dos escravos, instituiu um Fundo de Alforrias e a autorização para que escravos abrissem conta de poupança na Caixa Econômica. As alforrias, compradas ou concedidas, deram um salto ente 1871 e 1887.

A entrevistada sequer menciona o fato de as alforrias serem uma tradição muito antiga portuguesa, confirmada por Laurentino Gomes, no volume II, de sua nova trilogia “Escravidão”. Quando a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea, 80% dos descendentes de africanos no Brasil já eram libertos. Nos demais países que tiveram escravos, as alforrias eram raras e dificultadas por lei.  Como é possível que a Princesa com este histórico de vida, sempre ativa no processo da abolição, só se tornasse abolicionista apenas três meses antes do 13 de Maio?

Quanto à nova geração de historiadores (desinformados), cito três obras oriundas de pesquisas sérias e que respeitam os fatos. A primeira é de autoria de Regina Echeverria, ex-jornalista do Estadão, “História da Princesa Isabel”, cujo depoimento no lançamento do livro em Petrópolis primou pela humildade e honestidade. Após dois anos de pesquisas, assessorada por três historiadores com PhD em História, confessou que foi-se surpreendendo, aos poucos, ao tomar conhecimento de quem foi, de fato, a Princesa Isabel. E que sua visão distorcida sobre ela mudou da água para o vinho.

A segunda é o excelente livro “Alegrias e Tristezas – Estudos sobre a auto-biografia de D. Isabel do Brasil”, de Bruno da Silva Antunes de Cerqueira e Maria de Fátima Moraes Argon, editado pela Linotipo Digital (2019). Os autores simplesmente desmontam a tese de que a Princesa Isabel não estava preparada para assumir o trono.

A terceira dirime quaisquer dúvidas sobre as inverdades e erros factuais da sra. Mary del Priore.  Basta consultar o artigo do historiador carioca Gabriel A. L. C. Carvalho, de 31/01/2018, intitulado “Mary del Priore, uma agente da desinformação”. Capítulo por capítulo, ele desmonta O Castelo de Cartas, “obra” de pé-quebrado da sra. Priore.

A entrevistada ajudou a piorar muito (daí o Piore) a imagem da Princesa Isabel ao encobrir fatos incontestes sobre ela. Imperdoável numa historiadora.

NOTA: As últimas doideiras do Patropi ficam para o próximo artigo.

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