Quilombo da Tapera: a memória do povo africano em Petrópolis

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  • 26/12/2018 08:45

    Cercado por montanhas e com um cenário exuberante, o Quilombo da Tapera completou sete anos do reconhecimento oficial dado pela Fundação Palmares, instituto vinculado ao Ministério da Cultura. A comunidade é a única remanescente de escravos da Região Serrana do Rio de Janeiro a ter esse reconhecimento. Localizada em um condomínio no Vale da Boa Esperança, em Itaipava, o quilombo é a memória do povo africano, descendente de escravos, em Petrópolis. 

    "Ninguém olhava para nós. Hoje a vida está bem melhor, temos parceiros e amigos que ajudam a gente", disse o líder do quilombo, Amarildo André, de 54 anos. Nascido nas terras doadas para a sua bisavó, a escrava Sebastiana da Fazenda Santo Antônio, há pelo menos 100 anos, Amarildo comemora as conquistas da comunidade, que no momento luta pelo título de posse das terras junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

    As famílias estão arrecadando dinheiro para a construção de uma igreja. Bruno Avellar/Tribuna de Petrópolis.

    No quilombo moram 14 famílias. A área (a perder de vista) está sendo demarcada com a ajuda de parceiros para conseguir o documento de posse. No local, os quilombolas cultivam feijão, milho e aipim; cuidam de uma estufa de plantas medicinais em um projeto desenvolvido em parceria com a Fiocruz; fazem artesanato; montaram uma biblioteca comunitária e em fevereiro do ano que vem vão finalizar um projeto de receptividade em turismo. 

    "Estamos com muitos projetos para manter a nossa cultura, contar a nossa história. Até para nós muita coisa é nova, muita coisa da nossa própria origem nós não sabemos. Estamos fazendo este resgate", disse Eva Lúcia Casciano, de 34 anos. Ela também nasceu no quilombo e junto com outras mulheres ajuda a manter viva a história da comunidade. "Aqui é a nossa terra, nossa casa", ressaltou.

    Para 2019, a comunidade também pretende inaugurar a sede e reformar a capela. Eles contam que promovem eventos, como feijoadas e festas juninas, para arrecadar dinheiro. "Já temos o projeto da igrejinha, agora vamos começar a fazer almoços e eventos para conseguir a verba para a obra. Vamos fazer mutirão para a obra, só precisamos do dinheiro", disse Eva. Enquanto a igreja não é reformada, as missas acontecem na sede improvisada (um galpão de pau a pique) onde também fica a cozinha e a biblioteca.

    Galpão de pau a pique onde são realizadas as missas e que também abriga a cozinha e a biblioteca. Bruno Avellar/Tribuna de Petrópolis.

    A comunidade também busca apoio da prefeitura para asfaltar o acesso ao quilombo, cerca de dois quilômetros de estrada de chão. "Temos luz elétrica, internet e telefone em alguns pontos. O ônibus escolar busca as crianças, mas precisamos de um acesso melhor. Quando chove fica impossível subir, até o ônibus das crianças tem dificuldade", comentou Amarildo. 

    Para tentar amenizar o problema, os próprios moradores fazem mutirões para tapar os buracos. "Se não fizermos isso, os carros não passam, nem o ônibus escolar. O que mais queremos agora é que o asfalto chegue em nossa comunidade", ressaltou o líder do quilombo.

    O reconhecimento como comunidade quilombola

    O processo de reconhecimento junto à Fundação Palmares começou em 2010, depois que o procurador da república Charles Estevan da Motta conheceu a comunidade. "Ele foi em uma festa na comunidade do Jacó, que fica aqui perto. Lá falaram sobre a gente e ele veio nos conhecer. Depois disso, começamos todo o processo que terminou em maio de 2011, quando recebemos o documento", contou Amarildo André.

    O presidente da Palmares, Eloi Ferreira de Araujo, foi quem entregou pessoalmente o documento em solenidade realizada na sede da prefeitura. Ao serem reconhecidas como remanescentes de quilombo, essas comunidades passam a ter direito a programas como o Minha Casa Minha Vida Rural, o Luz para Todos, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e o Programa de Bolsa Permanência. Além disso, também podem solicitar ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária da titularidade das terras em que estão localizadas.

    Levantamento da Fundação Cultural Palmares mapeou 3.524 comunidades remanescentes de quilombolas. Mas estima-se que existam mais de cinco mil quilombos em todo o território nacional.

    O Quilombo da Tapera

    O reconhecimento como comunidade quilombola foi concluído há sete anos. Bruno Avelar/Tribuna de Petrópolis

    O Quilombo da Tapera é composto por 14 famílias descendentes de escravos da antiga Fazenda Santo Antônio. A comunidade fica localizada na Estrada da Tapera, entre os municípios de Petrópolis e Teresópolis, e existe há mais de 100 anos. O terreno foi doado pelo fazendeiro Agostinho Corrêa da Silva Goulão aos seus escravos libertos. Em seu testamento, consta a doação da área e estipulava também o uso e gozo vitalício aos antigos escravos e seus descendentes.

    Acredita-se que a área tenha sido ocupada após a morte do fazendeiro, em 1852, porém, existe uma escritura do terreno datada de 1935. Mesmo existindo há mais de cem anos, a Comunidade Quilombo da Tapera só foi reconhecida oficialmente em 2011. 

    Temporal de 2011 quase destruiu a história do quilombo

    O Quilombo da Tapera foi parcialmente destruído pela chuva de janeiro de 2011. A enxurrada destruiu três das 12 moradias e levou parte do terreno. Na época, as famílias foram para um abrigo onde permaneceram por dois anos, até a entrega das casas que estavam sendo construídas pela prefeitura.

    O local escolhido para a instalação das novas moradias fica próximo ao terreno destruído pelas chuvas de janeiro. Toda a área passou por uma limpeza, recebeu intervenções das concessionárias Águas do Imperador e Enel, que instalaram a rede elétrica e o encanamento.

    "Foram dois anos vivendo em uma cocheira improvisada. Parecia um pesadelo. Antes da chuva, a minha casa era de pau a pique e chão de terra, mas era meu lar. No dia que nos ligaram dizendo que poderia fazer a mudança para a nova casa, não consegui dormir de felicidade. Deixar aquela cocheira e poder voltar para a nossa terra era felicidade demais", lembrou Eva Casciano.

    Na noite da chuva, ela estava em casa com o marido e o filho, que na época tinha apenas seis meses. "Ficamos ilhados. Foram dois dias até os bombeiros conseguirem chegar e nos resgatar. Nunca tínhamos visto nada igual", disse. Atualmente, o local atingido pelo temporal está desocupado. Algumas casas foram demolidas e o terreno está sendo preparado para virar uma plantação.

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