• Petrópolis em perspectiva: “lugares de memória”

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  • 16/03/2023 08:01
    Por Aghata Paredes

    Quem caminha pelas ruas de Petrópolis com o olhar atento tem a oportunidade diária de voltar ao passado e descobrir joias raras sobre a sua própria história. Como assinala Pierre Nora, historiador francês, uma das questões mais significativas da cultura está no entrecruzamento entre o respeito ao passado – seja ele real ou imaginário –, e o sentimento de pertencimento a um grupo; entre a consciência coletiva e a preocupação com a individualidade; entre a memória e a identidade. 

    Não é difícil pensar em lugares significativos na cidade, especialmente na ocasião em que Petrópolis celebra seus 180 anos. De alguma maneira, cada um deles representa algo muito maior, principalmente àqueles que nasceram ou escolheram viver aqui. 

    Museu Imperial

    Petrópolis e o Museu Imperial, uma das instituições museológicas mais importantes do Brasil, têm uma relação bastante especial. A começar pela data em que ambos “nasceram”.

    No dia 16 de março de 1843, o Imperador Dom Pedro II assinou um decreto que arrendava as terras da fazenda do Córrego Seco ao Major Koeler para a fundação do Palácio de Petrópolis. O decreto, em questão, previa a elaboração do projeto e da construção do Palácio Imperial; a urbanização de uma Vila Imperial com quarteirões; a edificação de uma igreja em homenagem a São Pedro de Alcântara, além da construção de um cemitério.

    Foto: Xand Moreira

    Cem anos depois, no dia 16 de março de 1943, junto aos festejos do centenário de Petrópolis, foi inaugurado o inestimável Museu Imperial. Com uma cerimônia à altura de sua importância, na atual Sala de Música, estiveram presentes ilustres figuras da história do Brasil, como Getúlio Vargas. Este ano, portanto, o Museu Imperial celebra 80 anos. A ideia da criação do espaço foi de Alcindo Sodré, o primeiro diretor do Museu Imperial. 

    Construído com recursos do Imperador Dom Pedro II, que ali passava longas temporadas com sua família, até 1889, quando houve a Proclamação da República, o Museu Imperial é a joia mais preciosa de Petrópolis. No local, petropolitanos, visitantes e pesquisadores encontram um significativo acervo de peças relativas ao período imperial brasileiro. Ao longo das últimas décadas, o espaço acumulou inúmeros documentos e objetos, totalizando um acervo de quase 400 mil itens. Todos eles mostram como era a vida em sociedade, as relações políticas, econômicas e familiares da época, servindo de fontes para a pesquisa histórica e propiciando reflexões pertinentes sobre a história consolidada da cidade. 

    Foto: Divulgação

    Catedral de São Pedro de Alcântara

    Preciosa herança de seus benfeitores, Dom Pedro II e  Princesa Isabel, a Catedral de São Pedro de Alcântara é mais um dos “lugares de memória” da cidade. A belíssima construção, em estilo neogótico francês, foi  inaugurada em 29 de novembro de 1925. Foram 93 anos até que o projeto, finalmente, saísse do papel. Tarefa que a Princesa Isabel, mesmo em exílio, garantiu que fosse executada. 

    Até que a Catedral fosse levantada, algumas mudanças em relação ao projeto foram realizadas. Uma delas diz respeito à direção da fachada, inicialmente prevista para a Rua da Imperatriz. Na ocasião, a Igreja teve sua direção alterada para a Avenida Koeler, bem em frente à residência de verão da Princesa Isabel. Essa alteração possui uma explicação curiosa. Segundo informações do Instituto Histórico de Petrópolis (IHP), através do artigo do saudoso professor e historiador petropolitano, Jeronymo Ferreira Alves Netto, a orientação das Catedrais possuía um profundo significado: “a fachada principal dirige-se para oeste, para o pôr do Sol, a fim de haurir a última luz do dia. O sacerdote, defrontando o altar, dirigia-se para Leste, isto é, para o nascente. O pórtico Norte e Sul, frio e quente, eram mais ou menos simbólicos do Velho Testamento e do Novo: ao sul cabia simbolizar a vinda de Cristo.”

    Foto: Arquivo/Tribuna

    Imponente e rica em detalhes, a Catedral de São Pedro de Alcântara desperta diversas sensações em quem a visita. A cada nova ida ao espaço, o visitante é capaz de novas descobertas, ao mesmo tempo em que não captura ou apreende tudo aquilo que vê. Nada ilustra melhor este exemplo do que os vitrais espalhados pela igreja. Adquiridos entre 1928 e 1938, cada um deles possui não apenas uma, mas diversas simbologias. 

    Fotos: Marco Oddone – Em alguns dos vitrais é possível ver cenas e símbolos fantásticos, como a Rosa de Ouro, presente de Papa Leão XIII à Princesa Isabel por ter libertado os escravos do Brasil, em 1888; o Brasão de Petrópolis; e cenas bíblicas importantes, como a ascensão, o nascimento de Jesus e a paixão de Cristo. Além destas cenas há muitas outras que vale a pena conferir. 

    Casa da Princesa Isabel

    Em frente à Catedral de São Pedro de Alcântara está uma das construções históricas mais charmosas de Petrópolis. Mais um “lugar de memória”; em especial, para aqueles que admiram a figura da Princesa Isabel e sua significativa importância para a história da cidade. 

    Foto: Museu Imperial/Ibram/MTur – Fotografia mostrando a Família Imperial reunida na varanda da residência da Princesa Isabel e do Conde d’Eu, hoje Casa da Princesa Isabel. Da esquerda para a direita: D. Pedro Augusto em pé; D. Teresa Cristina sentada; Princesa Isabel de braços dados com D. Pedro II, apoiado em uma bengala ,e D. Pedro, Príncipe do Grão Pará, de mãos dadas com o Conde d’Eu. Sentado no primeiro degrau da escada, D. Luiz com as mãos sobre as pernas, em frente ao avô, e no terceiro degrau, D. Antônio logo abaixo da avó.

    A casa da Princesa foi construída por volta de 1853 por seu primeiro proprietário, o Barão de Pilar. Em 1874, foi alugada pelo Conde D’Eu, marido de Isabel. Em 1876, a residência acabou adquirida pelo casal e, no local, nasceram seus dois primeiros filhos.

    Em 1889, a residência passou a ser ocupada por delegações diplomáticas de diversos países e pela Nunciatura Apostólica. Mais tarde, abrigou estabelecimentos de ensino. Atualmente é sede da Cia Imobiliária de Petrópolis, de propriedade da Família Imperial, onde também está aberta ao público, até outubro, a exposição “Coragem e Fé”.

    Visitar a construção, rica em detalhes – como todo casarão do Centro Histórico – é uma forma de manter viva a memória daquela que o povo brasileiro apelidou de Redentora da História do Brasil. 

    Foto: Arquivo Grão-Pará 

    Palácio de Cristal

    Encomendado pelo Conde d’Eu, marido da Princesa Isabel, o Palácio foi um presente à sociedade hortícola petropolitana, da qual sua esposa fazia parte. O objetivo era construir um local que pudesse servir como pavilhão para as exposições de flores e produtos agrícolas que já vinham acontecendo desde 1875.

    Foto: Museu Imperial/Ibram/MTur

    A 1ª Exposição de Horticultura aconteceu em um pavilhão em 1875. Este pavilhão foi, mais tarde, substituído pelo Palácio de Cristal. 

    Sobre a primeira exposição de horticultura do país, a Princesa Isabel e seu marido, o Conde d’Eu, ajudaram a organizar o evento. A finalidade da festa era evidenciar o potencial da produção agrícola das terras imperiais.

    O evento, que buscava salientar toda a riqueza natural do solo das terras imperiais, e até mesmo fora do município, tinha a preocupação de reunir figuras ilustres que pudessem estar presentes na exposição e verificar a alta qualidade dos produtos naturais. O evento ganhou até medalha comemorativa.

    Você sabia que a estrutura do Palácio de Cristal foi a primeira estrutura pré-fabricada do Brasil? Construída nas oficinas de St. Sauver-les-Arras, na França, sua arquitetura foi inspirada no Palácio de Cristal de Londres, tanto pela técnica construtiva, quanto pelos materiais empregados (ferro e vidro). 

    Fotos: Marco Oddone

    Sua arquitetura é um retrato vivo de seu tempo, o século XIX.  A estrutura pré-fabricada em ferro e vidro, com laterais retangulares e frente e fundos em hemiciclo, além do extenso uso da iluminação natural, marcaram uma nova era para os arquitetos. 

    Fotos: Marco Oddone

    Sua arquitetura é um retrato vivo de seu tempo, o século XIX.  A estrutura pré-fabricada em ferro e vidro, com laterais retangulares e frente e fundos em hemiciclo, além do extenso uso da iluminação natural, marcaram uma nova era para os arquitetos. 

    Foto: Museu Imperial/Ibram/MTur – Fotografia mostrando vista do Palácio de Cristal e do seu jardim na época de sua inauguração, em 1884. 

    Em Abril do mesmo ano, foi realizada a IX Exposição – promovida pela Sociedade Agrícola e Hortícola de Petrópolis. As exposições aconteceram anualmente até 1886. 

    Fotos: Museu Imperial/Ibram/MTur – Fotografia à esquerda mostra o interior do Palácio de Cristal por ocasião da IV Exposição Hortícola de Petrópolis, quando foi inaugurado o pavilhão, em 1884. À direita, orquídea premiada pelo júri da Exposição no mesmo ano. 

    Em 1938, o Palácio de Cristal foi sede para o Museu Histórico de Petrópolis. Anos mais tarde, em 1957, durante as comemorações centenárias da cidade de Petrópolis, o espaço voltou a receber eventos – com a realização de uma exposição histórica e uma exposição industrial de Petrópolis. Em 1970, foram realizadas diversas restaurações, incluindo os jardins.

    Foto: Museu Imperial/Ibram/MTur – Impresso mostrando o Palácio de Cristal e parte de seu jardim após a reforma, por volta de 1976.

    Palácio Rio Negro

    Foto: Arquivo/Tribuna

    Construído em 1889, por encomenda de Manoel Gomes de Carvalho, conhecido como Barão do Rio Negro, a construção já foi residência de diversos presidentes do Brasil. Pelo casarão já passaram Rodrigues Alves, Afonso Pena, Nilo Peçanha, Hermes da Fonseca, Wenceslau Braz, Epitácio Pessoa, Artur Bernardes, Washington Luiz, Getúlio Vargas, Eurico Gaspar Dutra, Juscelino Kubitscheck, João Goulart e Costa e Silva. 

    Foto: Reprodução

    Vinculado ao Museu da República/Ibram, o trabalho de restauração no andar térreo do Palácio revelou a decoração original do piso de madeira, onde podem ser vistos os pés de café, símbolo da riqueza do Barão do Rio Negro. Aliás, parte da experiência da visita está na descoberta dos pisos, com desenhos em marchetaria, uma técnica que combina diferentes tipos de madeira para criar desenhos e padrões. 

    Foto: Divulgação

    Casa de Santos Dumont

    Aquele que “deu asas ao mundo” e elevou o nome do Brasil no exterior, Santos Dumont, escolheu Petrópolis para fixar residência. Em 1918, iniciou a construção de sua curiosa casa –  “A Encantada”. O aproveitamento dos espaços internos e as curiosidades inventivas do local chamam a atenção de seus visitantes, como o famoso chuveiro, feito com um balde perfurado, com entradas para água fria e quente (aquecida pelo álcool), e com duas correntes laterais para a dosagem da temperatura, e as escadas na entrada da casa, que devem ser iniciadas com o pé direito. 

    Um fato curioso é que, segundo as crônicas da época, alguns aviadores que conheciam Petrópolis atiravam flores e mensagens sobre a construção, homenageando Santos Dumont.

    Foto: PMP

    Museu Casa do Colono

    Para além da herança material, já que deixaram sua marca no rendilhado em madeira nas varandas de diversos chalés e até no modelo do calçamento em paralelepípedos das ruas da cidade, os colonos alemães deixaram uma herança imaterial a Petrópolis e a seus moradores: o estilo de vida simples. Com capricho, eles desempenharam suas funções, como tecelões, operários e proprietários de indústrias, com dedicação e boa vontade, e também sabiam aproveitar os momentos de lazer com qualidade e alegria. Estes eram marcados por danças, bailes e festas. Além disso, algumas famílias possuíam um item especial em casa, o gramofone, que ajudava a animar os eventos de aniversário, batizados e casamentos.  

    Foto: PMP

    Mais um “lugar de memória” da cidade de Petrópolis, que hoje celebra 180 anos, o Museu Casa do Colono possui utensílios de uso doméstico e de trabalho dos colonos alemães na lavoura, fotografias, quadros e objetos de uso pessoal. Construída em 1847, por Johan Gottlieb Kaiser, a casa possui diversas características da antiga Simern, cidade da Alemanha que inspirou a denominação do bairro Siméria em Petrópolis, além de aldeias às margens do Rio Mosel, também na Alemanha. Nada ilustra melhor o estilo de vida simples que os colonos alemães possuíam do que os materiais, pau-a-pique (paredes) e zinco (teto), utilizados na construção da casa.

    Casa de Petrópolis

    A residência de José Tavares Guerra, financista, filho de um próspero exportador de café e afilhado do Barão de Mauá, é uma das três últimas mansões do século XIX que permanece em seu estado original.

    Foto: Marco Oddone  – José Tavares Guerra

    Mesmo sem restauro, as pinturas de pó de ouro nos tetos dos cômodos e paredes parecem ter sido realizadas num passado recente pelos pincéis de Carl Schäffer, pintor austríaco. 

    Fotos: Marco Oddone

    Parando os olhos por alguns minutos no lustre da sala de jantar, o visitante observa resquícios de diferentes tipos de iluminação: a vela, o gás e a energia elétrica. Sobre isso, tudo indica que a Casa de Petrópolis tenha sido a primeira  residência a receber energia elétrica em Petrópolis. 

    Foto: Marco Oddone

    Mais um dos “lugares de memória” de Petrópolis, a construção é permeada de histórias. Uma delas está ligada à “fama” de mal-assombrada. 

    Entenda

    José Tavares Guerra, proprietário da casa, casou-se com Júlia Fonseca Guimarães em 1887. Júlia passou a juventude em Paris e era uma mulher muito reservada, pouco falava sobre a sua vida ou a de sua família. O casal teve cinco filhos, mas foi graças à filha mais nova, Maria Lysia, conhecida como Tia Loca, que a casa permaneceu em bom estado de conservação. Já adulta, a caçula não deixava nem os sobrinhos entrarem na parte mais decorada da casa, que era acessada apenas uma vez por mês para limpeza do local. 

    Foi em 1937 que Maria Lysia recebeu a casa como herança e virou a proprietária. No entanto, devido ao voto de pobreza e castidade, ela viveu acompanhada apenas da dama de companhia. E por causa do luto pela morte do pai, só vestia roupas pretas. Além disso, no final da tarde, ela costumava ficar olhando pela janela de seu quarto com uma vela acesa na mão. Isso tudo fez com que a casa recebesse a fama de mal-assombrada. Em contrapartida, ao entrar na casa fica claro que o último adjetivo possível atribuído a ela seria este. 

    Neste dia em que Petrópolis celebra 180 anos de história, qual o seu “lugar de memória” favorito?

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