Perfeição

  • 30/03/2016 12:00

    Romualdão para os amigos e Romualdo no registro civil, era categórico quando a conversa descambava para mulher.

    “ – Mulher, para mim, deve ser especial!”

    “ – Como, especial, Romualdão?! Mulher é mulher…”, diziam para ele – completando “– só muda o invólucro!”

    “ – Primeiro, eu não sei o que é essa palavra ai e, segundo, vou morrer solteiro se não encontrar uma deusa!” – Romualdão cortava a conversa por ai.

    “ – Deusa, Romualdão?! Para com isso! Não existe mulher perfeita…” – argumentava Clodoaldo..

    “ – Te cuida e arruma uma logo porque você vai morrer sozinho e querendo…” –encerrava o papo o Tancredo.

    Romualdão bem que procurava, mas era exigente demais: essa muito alta; aquela baixinha; outra parecendo um homem; a Marieta, que conhecera na infância, era mal educada, desbocada, mal-amada e por ai afora. Ele assinava a revista “Play Boy” para encontrar um estereótipo para o seu gosto, porém achava as modelos fora do padrão da normalidade que apreciava na mulher; demais aqui, faltando ali, máscaras faciais parecendo arco-íris com cores de diversos tons pela cara toda, cinturas estranhas, quadris medonhos, seios competindo com jacas, cabelos coloridos demais, tudo em tamanhos despropositados…

    “- Não são mulheres e sim árvores de natal onde tudo está pendurado!” – dizia.

    Um dia, aconteceu. Em uma estação rodoviária viu a sua deusa.

    “ – Que mulher! Perfeita! É ela!”

    Romualdão deixou a cautela de lado; ensarilhou-se de coragem; abordou a desconhecida:

    “ – Com licença…. princesa…” – encostou-se pelo lado em sussurro melodioso . “– Posso falar com você?”

    “ – O quê? Falar comigo?! Você?!” , disse ela com uma voz dosada de sensualidade, mirando-o da cabeça aos pés.

    “ – Eu mesmo, Romualdo Pereira da Silva!”

    “ – Hum… Vejamos… Agradável, bonito… Gostei da sua abordagem sincera e objetiva. Mariana, prazer… Meu nome é Mariana.”

    “ – Lindo nome! Mariana!”, já estava comprometido o Romualdão e ela aceitara a paquera com doçura.

    Namoraram à moda antiga porque Romualdão era conservador; avanços mínimos; toques de raspadelas sem pressão; beijos só de bitoquinha.

    O casamento foi contratado, marcado, como de direito em todos os condimentos.

    Fim de tarde festivo, convidados, padrinhos, igreja enfeitada, padre e o casal transbordando de alegria.

    Após os comes-e-bebes com baile e tudo o mais, a lua-de-mel em um hotel de boa qualidade, requintado em gosto e atendimento.

    A clássica entrada do marido carregando nos braços a feliz esposa.

    Vou privar a todos dos detalhes do que veio em seguida. Foi perfeita a conjunção e Romualdão e Mariana viveram uma noite de encantamento.

    Pela manhã, dormindo cansados e com sorrisos perdidos no sonhar quimeras, antecipou-se Romualdão, acordando para olhar a sua deusa sob os raios da alvorada que iluminava o ambiente.

    Chegou-se à amada, por detrás, enlaçando-a e beijando suas costas, quando chamou sua atenção uma pequena inscrição um pouco acima do suave cofrinho. Leu:

    “ – Made in China.”

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