Pela janela de Overton

14/jun 15:44
Por Ataualpa Filho

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades./ Muda-se o ser, muda-se a confiança;/Todo o mundo é composto de mudança,/Tomando sempre novas qualidades./Continuamente vemos novidades,/ Diferentes em tudo da esperança;/ Do mal ficam as mágoas na lembrança,/E do bem, se algum houve, a saudade.”

Por esses versos de Camões, é possível iniciar uma reflexão sobre o que se convencionou chamar de “janela de Overton” ou janela do discurso.

 Em virtude do agressivo processo midiático em que se vive, acho oportuna essa reflexão com base nos conceitos de Joseph P. Overton ao analisar as mudanças da opinião pública para atender a interesses de determinados grupos. Essa mudança vai do radicalmente contra ao radicalmente a favor, ou o contrário; do radicalmente a favor ao radicalmente contra, passando pelas etapas do tolerável, do aceitável até a assimilação total, estágio em que o fato é concebido naturalmente ou rejeitado totalmente.

Para exemplificar tal fato, cito o caso do cigarro. Antes, fumar era considerado um “charme”, um ato elegante, havia propaganda no horário nobre da tv. Cinzeiro, na sala de visita, era peça decorativa. Hoje não há espaço para fumante em ambiente fechado.  Antes se vendia escravo em praça pública, até se anunciava em jornais. Hoje é inadmissível o trabalho escravo. Mas, ainda se vende e se compra passe de jogador de futebol por vultosas cifras,algo considerado normal.

De acordo com as leis trabalhistas, um profissional pode pedir demissão de uma empresa e ir trabalhar em outra de acordo com seus interesses. O que nem sempre é permitido aos atletas do futebol.Pela janela de Overton, é possível enxergar essas variações da opinião pública e da realidade vivida.

Em 2003, foi elaborado o Estatuto do Desarmamento. E, por meio de campanhas, com apoio do Exército e da Polícia Federal, segundo dados do Ministério da Justiça, foram recolhidas 443.719 armas de fogo. A meta era recolher 80 mil, depois essa meta foi ampliada para 200 mil até dezembro de 2004.

Hoje há uma corrente de pensamento que defende a flexibilização a posse de arma de fogo. Esse é “o primeiro passo”, depois, certamente, virá outra campanha pelo porte de arma, até que seja comum andar armado na cidade e no campo. Não é isso que desejo. Quero ter o direito de andar desarmado. Tenho a sanidade mental necessária para não portar arma. Sou católico.  Tento seguir os ensinamentos de Jesus.  Sei o quanto é difícil dar a outra face a quem nos agride.

“A quem te bater numa face, oferece também a outra; e a quem tomar o teu manto, não impeças de levar também a túnica. Dá a todo aquele que te pedir e não reclames de quem tirar o que é teu”(Lc 6, 29-30). Tais versículos vão ao encontro das orientações das autoridades policiais: “não reagir a assaltos”.

O próprio Cristo, no momento em que foi traído e entregue aos sumos sacerdotes, pediu a seus discípulos que não reagissem. Sei que muitos irão considerar esse meu posicionamento ingênuo por estar pautado em convicção religiosa.

 É dever do Estado garantir o direito do cidadão de andar desarmado. Ninguém pode fazer justiça com as próprias mãos. O direito de defesa se exerce até mesmo por ato instintivo para proteger a própria vida. Temos as forças armadas para proteger as nossas fronteiras territoriais, combatendo o contrabando de armas, de munições e drogas. Temos as forças policiais para proteger a sociedade e a Justiça para garantir o Estado de Direito. A violência cresce quando o Estado deixa de exercer as suas funções, principalmente no âmbito social. A vida é o bem mais precioso.

Nesta pandemia, o uso de máscara, com certeza, já salvou muitas vidas. O discurso contra as medidas sanitárias que evitam a propagação da doença é uma irresponsabilidade, um desrespeito à vida.

Últimas