Pandemia fez aumentar em 36,9% os deslocamentos com bicicleta, indica pesquisa

  • 13/mar 10:29
    Por Vinícius Ferreira

    A pandemia da covid-19 mudou os hábitos da população no Brasil e em diferentes locais do mundo. Seja no uso de máscara em locais fechados, seja na higienização das mãos com álcool em gel ou na nova rotina de higiene ao chegar em casa, é fato que muita gente teve que se adaptar à convivência com o novo coronavírus. Mais especificamente no caso do Brasil, a prevenção contra aglomerações e a busca por atividade física, em especial no momento em que academias e parques fecharam, teve ainda um impacto direto no trânsito das cidades de diferentes portes. Segundo o levantamento do Perfil do Ciclista Brasileiro que, pela primeira vez, foi realizado em Petrópolis, por meio da Associação dos Ciclistas de Petrópolis – Acipe, a pandemia fez crescer em 36,9% a utilização da bicicleta como meio de deslocamento.

    “A bicicleta acabou sendo, para muita gente, a representação de uma função que ela sempre teve: uma alternativa de transporte mais saudável. Em um cenário onde as aglomerações precisavam e ainda precisam ser evitadas, especialmente no transporte público, ela acabou ganhando mais força com a necessidade de se evitar a contaminação, enquanto se realiza uma atividade saudável”, avalia a presidente da Acipe, Isabella Guedes, que organizou a equipe de voluntários que foi às ruas de Petrópolis entrevistar os ciclistas entre os meses de agosto e setembro do ano passado.

    “Aqui, foram 717 respostas ao questionário, que buscou saber, entre outras coisas, a quantidade de deslocamentos que a pessoa fazia na semana, a finalidade do uso – se era para lazer, ir ao trabalho ou para escola e universidade. Ouvimos adolescentes, idosos, homens em sua maioria, mas também muitas mulheres, alguns tendo a bicicleta como o único veículo que utilizam”, informa Isabella. Apesar de ter apenas uma infraestrutura cicloviária dedicada na cidade, Petrópolis se destacou por ser uma das cidades que mais conseguiu ciclistas entrevistados, realizando o dobro de pesquisas necessárias para obter resultados estatisticamente relevantes.

    Mais petropolitanos adotaram o uso da bicicleta durante a pandemia

    O perfil geral dos ciclistas entrevistados em Petrópolis indica que a maior parte das pessoas entrevistadas passou a utilizar ainda mais a bicicleta na pandemia, em um cenário em que 53% têm idades entre 25 e 34 anos, 72,5% utilizam a bicicleta cinco ou mais dias na semana e realizam percursos curtos, levando menos de 30 minutos de deslocamento em 68,9% dos casos. Apesar do crescimento na procura da bicicleta como transporte alternativo na pandemia, 51,2% dos entrevistados já fazem esse uso há pelo menos 5 anos. A maior parte dos entrevistados (26,7%) têm renda entre um e dois salários mínimos e combina, em 28% dos casos, o uso da bicicleta com outros modais (há cidades que já permitem, por exemplo, o transporte da bicicleta no metrô ou no ônibus).

    “Entender o perfil do ciclista brasileiro e, no nosso caso em especial, do petropolitano, nos ajuda a pensar as políticas públicas que precisam ser executadas no curto, médio e longo prazos para tornar o uso da bicicleta ainda mais viável e permitir que mais e mais pessoas possam utilizar esse meio. Existem várias opções de trajetos curtos que chegam ao Centro Histórico, por exemplo, e que possuem baixa altimetria, indicando que o uso da bicicleta pode contribuir bastante com a redução dos engarrafamentos em vários pontos da cidade. Além disso, já é bem consolidado em cidades do Brasil e do mundo que o transporte por bicicleta favorece muito o comércio local, principalmente nos bairros, por ser fácil estacionar e ocupar pouco espaço, ser silenciosa e não bloquear visualmente as vitrines das lojas. Estudos já provaram também que a bicicleta é a melhor alternativa para os deslocamentos curtos, porque ela faz ganhar tempo diante dos congestionamentos e ajuda, como já demonstrou a OMS (Organização Mundial da Saúde) no ganho de saúde por meio da atividade física, reduzindo os gastos públicos com saúde da população”, ressalta a presidente da Acipe, que pontua ainda que, apesar do crescimento do uso da bicicleta por muitas pessoas na cidade, a maioria das pessoas ouvidas sente necessidade de mais infraestrutura dedicada, como ciclovias e ciclofaixas.

    Pesquisa percorreu toda a cidade

    Em quase dois meses de levantamento, a Acipe ouviu ciclistas em todos os distritos nas principais vias de circulação da cidade. “Conseguimos reunir e formar uma equipe com bom número de voluntários, que atuaram em diferentes frentes. Estivemos no primeiro distrito, ouvindo os ciclistas no Quitandinha, Alto da Serra, Mosela e Centro Histórico, por exemplo, e nos demais distritos como Cascatinha, Itaipava, Pedro do Rio e Posse. Houve levantamento de dados em bairros como Secretário, Nogueira e Correas. Foi um grande esforço para a coleta de dados, que agora integra essa pesquisa nacional.

    Os dados brutos já foram compartilhados com a Companhia Petropolitana de Trânsito e Transportes – CPTrans, que também atuou na pesquisa em conjunto com a Acipe, e essas informações também foram incluídas na Comissão Especial em Mobilidade Cicloviária criada na Câmara dos Vereadores que, desde 2019, vem debatendo a ciclomobilidade em Petrópolis. “Agora, temos dados que podem ser fundamentais para se pensar as rotas onde é necessária a adequação de infraestrutura cicloviária (como ciclorrotas, ciclofaixas e ciclovias), além de novas pesquisas específicas”, pontua Isabella.

    Sobre a Pesquisa Perfil do Ciclista

    A pesquisa foi organizada nacionalmente pela Transporte Ativo e pelo LABMOB-UFRJ e localmente pela Acipe. Um levantamento que contou com uma extensa rede de organizações colaboradoras que levaram a campo, entre setembro e dezembro de 2021 mais de 180 pesquisadores para realizar 10.767 entrevistas. As entrevistas foram feitas com pessoas que pedalam pelo menos uma vez por semana como meio de transporte, abordadas pedalando, empurrando ou estacionando a bicicleta.

    Além disso, as entrevistas foram distribuídas no tecido urbano pelas áreas centrais, intermediárias e periféricas das cidades. Áreas que foram definidas pela organização local envolvida e realizadas apenas em dias úteis, exceto em Ilhabela e Petrópolis, em que foram considerados todos os dias da semana por serem cidades turísticas.

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