Olimpíada divide a cidade de Tóquio: liberdade para uns e restrições para outros

29/jul 03:00
Por Raphael Ramos / Estadão

A realização dos Jogos Olímpicos Tóquio-2020 em meio à pandemia fez com que se criasse dois tipos de cidadãos em Tóquio: aqueles que estão há pelo menos 14 dias no Japão e aqueles que desembarcaram no país há menos de duas semanas.

O que isso significa? Que uns podem comer em restaurantes pela cidade, frequentar bares, fazer compras em supermercados, usar transporte público, pedir um Uber… Já para aqueles que ainda não cumpriram toda a quarentena estabelecida pelo governo japonês (como é o caso da reportagem do Estadão) tudo isso está proibido.

Em todos os cantos da capital japonesa há placas com avisos de quem pode ou não pode fazer determinada coisa. Há distinção de elevadores para uso exclusivo daqueles que chegaram há mais tempo no Japão e até em corredores são feitas separações: lado esquerdo para uns e lado direito para outros, tudo dividido por cordas.

Esse “sistema de bolha” foi criado para isolar todos os envolvidos com a Olimpíada, para que eles não tenham qualquer tipo de contato com outras pessoas no Japão. Fora de suas acomodações, as delegações, autoridades, oficiais dos Jogos e membros da imprensa só podem ir aos locais de prova, devendo sempre utilizar veículos da organização para se locomover.

Essas determinações constam em um código de conduta elaborado pelo Comitê Organizador, com diretrizes a serem seguidas por todos os participantes dos Jogos Olímpicos. E mais: é obrigatório fazer o download de um aplicativo no celular que monitora o seu estado de saúde e rastreia a sua localização. Sintomas como febre, tosse e dores no corpo e temperatura devem ser relatados diariamente às autoridades por meio deste aplicativo. Quem violar as regras pode ser multado ou excluído da Olimpíada e, inclusive, a permissão de estada no Japão pode ser revogada.

A vacinação não é obrigatória, mas recomendada a todos que estão participando dos Jogos. Mesmo quem já foi imunizado tem de seguir à risca todos os protocolos.

Nos três primeiros dias após o desembarque no Japão, todos têm de ser testados para a covid-19 diariamente. Depois, a conferência passa a ser feita com um intervalo maior, a cada quatro dias.

O uso de máscara é obrigatório em todos os locais. E, a cada porta onde é feito o controle de acesso, um funcionário dos Jogos exige que as mãos sejam limpas com álcool em spray.

O Comitê Olímpico do Brasil (COB) também tem adotado protocolos rígidos para proteger o Time Brasil. Para entrar em qualquer uma das bases montadas pelo órgão no Japão, é obrigatório que os visitantes usem máscaras dos tipos N95 ou PFF2 (consideradas mais seguras), retire os calçados e mantenha o distanciamento mínimo de dois metros para as entrevistas. Até agora, as medidas têm dado certo e ninguém da delegação brasileira testou positivo para a covid-19.

Com essa extensa lista de restrições aos estrangeiros que estão participando da Olimpíada, um dos objetivos dos organizadores do Jogos foi também frear a rejeição ao evento entre os moradores da capital japonesa, já que muitos temem que os visitantes possam trazer ao país variantes do novo coronavírus.

Ao todo, mais de 50 mil estrangeiros desembarcaram no Japão nos últimos dias para trabalhar nos Jogos. O número pode parecer grande, mas corresponde a apenas um terço do programado inicialmente. A determinação dos organizadores foi de que somente pessoas estritamente ligadas à Olimpíada poderiam fazer parte das delegações, sem permissão para incluir familiares e convidados, por exemplo.

De acordo com balanço divulgado pelos organizadores da Olimpíada nesta terça-feira, 155 pessoas ligadas aos Jogos testaram positivo para a covid-19 desde o início do mês. O comitê não considera o número elevado porque foram realizados mais de 90 mil em atletas e estafe das delegações. Assim, os casos positivos representam somente 0,02% do total.

Tóquio, no entanto, vive o seu pior momento desde o início da pandemia, com o registro recorde de 2.848 novas infecções nesta terça-feira. Antes, o maior número de casos já registrados na capital japonesa era de 2.520, no dia 7 de janeiro.

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