11/jul 08:00
Por Ataualpa Filho

O bem se faz sem olhar a quem. Aquém do bem esteja sempre toda maldade, porque a verdade, cedo ou tarde, há de vencer. Ser solidário é plantar a semente da bondade em toda parte. Essa é a arte do bem viver. Para ver crescer o que se planta, tem que regar, cultivar, cativar, às vezes, até navegar contra a maré, sem deixar a chama da vela-esperança apagar. E quem tem lamparina que trate de economizar querosene, para não chorar no escuro.

 O que hoje vou lhe contar é para desintoxicar das desavenças políticas que revelam uma insensibilidade humana inacreditável, banalizam a morte de mais 530 mil brasileiros afetados pela Covi-19.

Trata-se de umasimples história de uma amiga que estava a ponto de vender a casa por causa dos ratos:

Num final de tarde de inverno, quando voltava do trabalho, na porta da garagem, viu um gato. Para não o atropelar, aproximou dele antes de abri-la. Pegou-o. Percebeu que tremia de frio. Colocou ao lado, na calçada. Abriu a garagem e entrou.

Porém falou mais alto o dó. A dor do gato, o coração dela ouviu. Voltou, pegou-o, levou-o até a varanda. Foi à cozinha, trouxe, para ele, um pouco d’água. Avido, o felino bebeu. Além da fome, do frio, tinha sede:

– Coitado! – Falou baixinho.

Pegou uma toalha velha que transformaria em pano de chão, colocou-a no canto da varanda, improvisou uma cama.

– O que vou dar pra ele comer? – Pensou.

 Não tinha a menor pretensão de adotá-lo, apenas queria aliviar a consciência. Se o abandonasse, não ficaria bem. Por alguns segundos, tentou acariciá-lo. Mas ele parecia indiferente. A carícia não lhe era familiar.

Ela o deixou na varanda. Antes de voltar à cozinha, foi ao banheiro, lavou as mãos. Afinal, não sabia a procedência dele. Mas a pergunta continuava:

– O que vou dar pra ele comer?

Na cozinha, abriu a geladeira. Olhou; a princípio, não viu nada que pudesse dar ao gato. Ficou pensando com a porta aberta. Nada. Aqui não tem nada pra ele. Voltou à varanda. O gato já estava com outra aparência, menos arrepiado. A consciência ficou um pouco aliviada. Voltou à cozinha, pensou em fazer um lanche antes de preparar o jantar. Foi assim que se lembrou do presunto que havia na geladeira. Levou umas fatias para ele. Mas não lhe pareceu apetecido.

Ela resolvera deixá-lo ali. No dia seguinte, levaria para adoção, procuraria a associação de proteção dos animais. Dava assim por encerrada a sua cota de caridade. Dormiu sem peso na consciência.

No outro dia, levantou cedo e foi direto à varanda. Não viu o gato no local em que o deixara, pensou que ele já tivesse ido embora. Sentiu certo alívio. Mas ao olhar para o carro na garagem, viu algumas marcas de sangue, aproximou-se, encontrou o rabo de um rato que o gato havia comido. Espantada exclamou:

– Não acredito! – Veio o sabor da vingança ao ver os restos mortais do roedor. Nesse instante, decidiu adotar o gato, que dormia perto da roda traseira do carro. Deu-lhe o nome de Mocinho. Livrá-la-ia dos ratos.

Nesse mesmo dia, levou-o ao veterinário, vacinou-o, comprou uma caminha, colocou-a no canto da varanda. Esta, ele pouco usa.  

A verdade é que os ratos sumiram.  Mas um dia, ao chegar a casa, ela levou um choque: encontrou, no jardim, várias penas pelo chão. O Mocinho havia comido um pássaro. Porém, tristeza maior lhe bateu, quando o gato devorou um esquilo. Saltou um lampejo de arrependimento por tê-lo adotado. Ela o castrou, contudo isso não mudou a natureza felina, apenas engordou e ficou mais sonolento. Os animais irracionais adestram-se; os racionais educam-se. Só que estes, pela ânsia do poder, são ferinos, piores do que os felinos. Trazem na língua os piores venenos.

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