12/set 08:00
Por Ataualpa Filho

O leitor é um ser raro. E, se tiver um senso crítico, torna-se coautor do que ler, pois acrescenta a sua parcela de conhecimento e amplia a discussão iniciada pela inquietação do escritor.

Quem tem o hábito de escrever, com o tempo na prática do oficio, perde o medo de ser alvo de críticas, censuras. Aprende a ouvir mais aqueles que lhe dão atenção, que leem o que escreve, mesmo sem concordarcom o ponto de vista expresso. Contudo, só o ato de ser lido já revela uma consideração. E, diante desse fato, sente-se lisonjeado. 

 Contentamo-nos com pouco, basta ouvir um comentário sobre um ou outro texto para que haja uma satisfação interior.

Quem vive assim exposto ao fio da linguagem, sabe que ninguém é lido impunemente, está sujeito ao “gostei”, ao “não gostei”; ao “concordo”, ao “não concordo”. Até a indiferença consiste em um posicionamento diante do que se escreve.

Não há dúvida que o leitor é que completa o ciclo literário, consiste em um elemento imprescindível nesse processo. Nenhum escritor ganha notoriedade sem o leitor, pois este é que, ao se identificar com o texto, propaga-o, dissemina-o, fertiliza-o. O texto sai do controle do autor e ganha o mundo. Temos que admitir a verdade que dissera o personagem Mário do filme “O Carteiro e o Poeta”: “a poesia não é de quem a escreve. Mas de quem precisa dela”.

Para tornar-se um bom escritor, é preciso nutrir-se de boas leituras.  Se alguém pretende seguir por este caminho da linguagem escrita precisa mergulhar nos livros. Neste campo, a prática conta mais do que a teoria. Não basta ter conhecimento teórico das técnicas de composição, é necessário exercitar e enfrentar a autonomia que o texto adquire à medida que vai se construindo, porque nesse processo, a coerência ganha força e cobra do autor uma conduta dialética tendo como referência a realidade. Diante do real é que há o ponto de convergência e de divergência. A verossimilhança e a inverossimilhança interferem na opinião do leitor.

Quando me propus a escrever, tinha o propósito de chocar pelo absurdo. Hoje tento me aproximar do que se vive para mostrar o absurdo que se encontra na realidade. Basta usar a palavra “honestidade” para deparar-se com as restrições impostas a ela pelos que desejam consolidar a prática da corrupção como algo natural.

“Não querer ser dono da verdade” foi a primeira lição que aprendi. O que aqui está expresso é apenas um ponto de vista. O prolongamento dessa discussão cabe a você, leitor. Podemos até comungar da mesma opinião. Mas isso não nos dá o direito de patenteá-la como A Verdade e assim, ignorar a opinião dos outros.

 Não se consolidam os princípios da democracia castrando o pensamento divergente.  É fácil constatar o que afirmara Ezra Pound no livro “ABC da Literatura”: “a preguiça está na origem de muitos erros de opinião”. Isso ocorre, porque muitos não se dão o trabalho de ler, estudar para aprimorar os seus conhecimentos. E ficam pautados somente pelo senso comum, sem aprofundar seus argumentos. “O achismo” gira em torno da conveniência pessoal.

E, no livro citado do autor americano nascido em Hailey, a relação entre a leitura com respaldo da realidade está nítida no seguinte parágrafo:

“Os homens não alcançam compreender os livros enquanto não chegam a ter a certa dose de experiência de vida. Ou, de qualquer modo, homem algum consegue compreender um livro profundo enquanto não tenha visto e vivido pelo menos parte de seu conteúdo. O preconceito contra os livros surgiu da observação da obtusidade de homens que se limitam a meramente ler.” Refletir é fundamental…

E é válido dizer que a razão e a emoção não são incompatíveis no universo literário.

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