• ‘Nossa ideia é treinar uma nova geração de policiais’

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  • 25/02/2021 13:02
    Por Thaís Ferraz / Estadão

    O ano de 2020 foi marcado por críticas à polícia americana, principalmente após a morte de George Floyd, negro assassinado por um policial branco durante abordagem em Minneapolis. Formado na Academia Nacional do FBI, Jacques Gilbert trabalhou por 29 anos no Departamento de Polícia de Apex, cidade de 53 mil habitantes da Carolina do Norte. É um caso raro de policial negro que se tornou prefeito e uma voz importante em defesa dos direitos civis.

    Em 2017, ele fundou a Blue Lights College, academia que oferece a aspirantes módulos sobre resolução de conflitos, diversidade cultural e policiamento comunitário. Gilbert participa hoje do evento digital Diálogos Brasil-EUA: A questão racial em debate, promovido pelo Estadão em parceria com a embaixada e os consulados dos EUA, projeto que marca o Black History Month (Mês da História Negra).

    Como surgiu o Blue Lights College?

    Infelizmente, há uma cultura estabelecida em departamentos de polícia que prioriza a lealdade – mantendo a nossa “lavagem de roupa suja” para nós mesmos, criando uma perspectiva de nós contra eles. Infelizmente, ela muda você. A gente se torna cínico, tudo é sobre números, sobre quantas prisões você consegue fazer. Queremos eliminar isso. Nossa ideia é treinar uma nova geração de policiais que saibam abordar conflitos com compaixão. Ao lidar com pessoas, independentemente de classe social ou qualquer outra característica, policiais precisam entender que estão lidando com uma mãe, um pai, um filho. É o modelo que nós tratamos em nossa escola.

    Houve resistência?

    Quando eu quis lançá-lo, meus subordinados foram contra a ideia, porque o Blue Lights era um chamado à comunidade e dizia que não importava como você era, qual era o seu background. Nós queríamos que você considerasse a ideia de se tornar um policial. Era um chamado à ação: “Venha ser parte da mudança que você quer ver na comunidade”. Nos EUA, menos de 17% dos policiais são negros. Isso levanta questões sobre se a polícia deveria refletir nossa comunidade. Então, tentamos aumentar esses números. O que o colégio tentava fazer é atrair pessoas, não com foco em fazer parte da polícia, mas em fazer parte da mudança. E foi incrível. Eles se graduaram em dois anos e agora servem como policiais.

    Os protestos do Black Lives Matter mudaram a forma como racismo e polícia são vistos nos EUA?

    Eu sou um grande apoiador do Black Lives Matter – e poucos prefeitos diriam isso. É um posicionamento forte, principalmente para um policial aposentado, mas eu acredito na mensagem do Black Lives Matter por uma mudança positiva. O que quero dizer é que tem de haver uma mudança, e algumas vezes tem de haver pressão para conseguir a atenção das pessoas, para que elas te ouçam. Não estou falando de violência. Uma das decisões mais controvertidas que tomei como prefeito foi receber dois membros da comunidade que vieram ao meu escritório para facilitar um protesto pacífico do BLM na cidade. Em Apex, 73% da população é branca, enquanto 7% é negra. Era um grande pedido, e eu senti que era necessário. Temos de estar confortáveis estando desconfortáveis, é assim que a mudança acontece. Não só tivemos um protesto pacífico, como a polícia participou dele, e tivemos uma caminhada depois do evento. O que nos mostrou várias coisas: que temos sim preconceito e racismo em nossa cidade. Mas marchar com policiais à minha esquerda, minha família no meio e manifestantes à minha direita foi um símbolo de como podemos não concordar em tudo, mas podemos andar juntos, tentar entender uns aos outros. Os que mais resistiram a isso, infelizmente, foram pessoas com quem trabalhei por mais de 20 anos: policiais. Eles ficaram chateados comigo por essa decisão. Minha resposta foi: “Não me arrependo”.

    Um slogan muito popular durante as manifestações do ano passado foi “Defund the Police” (um pedido para redirecionamento de recursos da polícia para outras agências governamentais). Como você se posiciona em relação a essa demanda?

    Talvez “defund” não seja a palavra certa para usar quando você está tentando trabalhar com outras pessoas. Eu acho que podemos mudar, realocar recursos para certas áreas. Mas precisamos seguir o modelo de resolução de problemas, analisar o que está causando os problemas e resolvê-los. Temos de romper a tradição e entender que o que foi permitido por tantos anos não pode continuar, porque não está funcionando.

    Qual a mudança mais urgente para a polícia hoje?

    A de cultura. Há um problema com a cultura policial. Eu vejo isso o tempo todo em entrevistas nos EUA. Quando trazem especialistas, são sempre chefes ou executivos. Eu tenho sérias objeções quanto a isso. Essas pessoas são veteranos que estão acostumados a um sistema com o qual conviveram por um período de tempo, por 30 anos ou mais. Eles sempre darão uma perspectiva de que aquilo deve ser assim, porque é o que eles sabem. Se entrevistassem jovens policiais que estão na corporação a menos de dois anos, eles diriam outra coisa. O que estamos fazendo para mudar isso em Apex é trabalhar com um consultor de diversidade que fez uma avaliação da cultura do nosso departamento de polícia. Isso envolveu entrevistar cada membro do departamento. Não em grupos, mas um a um. E é aí que você encontra as respostas. O que veio no relatório foi muito perturbador, mas também deu uma boa base do que somos agora. Isso nos mostrou com o que queremos trabalhar, e contra o que trabalharemos. Mas isso exige comprometimento total.

    As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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