Nasce uma estrela II

  • 20/05/2020 00:01

    Em sequência ao artigo anterior, de mesmo título, no qual relembramos a situação dos espaços cênicos petropolitanos na década de 1950 e, mais precisamente, o ano de 1956, quando um grupo de diletantes da arte teatral criou o TEP – Teatro Experimental Petropolitano, apreciaremos a continuidade e sedimentação do grupo, como um divisor de águas da atividade e a proposta de ocupação do Teatro Santa Cecilia com expressivas montagens, contínuas e sequenciais, para inibir e afastar as propostas que surgiam para a ocupação do teatro como mais um cinema no Centro Histórico, que já contava com os cinemas Capitólio, Petrópolis e D. Pedro, já terminada a fase do Glória e ainda não existindo os mini cinemas em espaços mais acanhados e até em “shoppings”. Dos três grandes cinemas um deles estava estruturado para o teatro, o D. Pedro. Os outros dois não possuíam palcos, senão tablados sem a necessária profundidade para a cenarização de um espetáculo cênico e mínimo equipamento técnico exigido pela atividade.

    Sedimentado o grupo, diante do sucesso das 10 representações de “A Canção dos Indigentes”, movimentando o Teatro Santa Cecilia, o TEP ensaiou e montou peças da dramaturgia brasileira dos anos 40/50, repertório constituído por comédias e dramas que focalizavam o dia-a-dia da sociedade brasileira, principalmente a circunscrita ao espaço mais importante da cultura e da política nacional, o Distrito Federal, na cidade estado do Rio de Janeiro. Sob puro amadorismo com atores e atrizes recrutados junto à sociedade petropolitana, todos profissionais de diversas áreas e de horários restritos às noites para os ensaios, o rendimento artístico, conquanto excelente, só era atingido em plenitude durante alguns meses de preparação. Assim, as estreias eram muito espaçadas no avançar dos meses e somente, em média, era montada uma peça teatral em cada ano. Grupos cênicos surgiram, no caudal do entusiasmo tepiano, todos de vida efêmera, mantendo o TEP sua proposta e instalando-se legalmente como organização de fins culturais, sob estatutos, registro público e demais obrigações legais.

    No decorrer dos cinco primeiros anos de sua existência, a atividade dobrou, ocorrendo um baque para o grupo, diante do arrendamento do teatro à empresa carioca de Gastone Sorrentino, que nele instalou no cinema Art. Palácio. Perdendo seu espaço para ensaios e representações dos espetáculos prontos, felizmente o grupo passou a utilizar as dependências do Sindicato dos Têxteis, um casarão antigo, onde hoje encontra-se o Edifício Monte Castelo, em frente ao Teatro Santa Cecilia, na rua Marechal Deodoro, no início da rua Aureliano Coutinho.

    A estrela nascera e necessitava firmar seu prestígio, conseguindo com heroísmo manter-se na vanguarda da arte teatral no município, enfrentando um grave problema fundamental ao propósito da entidade; a falta de uma casa especializada para as artes cênicas, precisamente: um teatro!

    E, assim, uma bandeira foi hasteada no mastro da cultura petropolitana: a campanha por um teatro, uma casa teatral, um espaço cênico aberto para todas as artes inerentes à coxia, ao palco, ao proscênio teatral, enfim, objetivo lançado e perseguido pelo TEP, enquanto representava seus trabalhos em inusitados espaços, sob comovente teimosia e improvisações múltiplas como: salas de aulas em educandários, clubes sociais e esportivos, refeitórios de fábricas, praças públicas e em coretos, espaços circenses, ginásios, enfim, verdadeiras maratonas que exigiam dobrado empenho, criatividade ilimitada e, obviamente, ocasionando, em algumas oportunidades, queda de qualidade nas encenações, estas amenizadas por um entusiasmo que vencia a precariedade das inevitáveis improvisações.

    Na continuidade do tema, versaremos sobre a grande campanha “Petrópolis precisa de um teatro!”, criada e defendida pelo valente Teatro Experimental Petropolitano. (Jeds).

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