Nas ruas e nas redes, a festa dos ipês

04/set 08:00
Por Priscila Mengue / Estadão

Você já viu algum ipê hoje? Não é preciso nem ter saído de casa para responder “sim”. Basta abrir uma rede social para avistá-los repletos de flores amarelas. Essas árvores, típicas do Cerrado, desabrocharam de forma ainda mais evidente neste ano, em parte pelo frio intenso seguido da baixa umidade registrado em algumas partes do País, incluindo São Paulo.

“Um inverno com temperaturas muito baixas, combinado com a seca, sincroniza a floração. As árvores florescem todas ao mesmo tempo, gerando esta maravilha que vemos na nossa cidade”, explica Marcos Buckeridge, diretor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP). Outra característica é que, pelos ipês não terem folhas nesta época do ano, as flores chamam mais a atenção dos polinizadores.

Por ter se destacado mais na segunda metade de agosto, a florada deve continuar por mais alguns dias. “As flores duram uma ou duas semanas e, depois da polinização, caem e dão lugar ao desenvolvimento dos frutos e das sementes”, afirma o professor.

Nas redes sociais, os registros estão aos milhares. São fotografias de ruas e parques com ipês frondosos, pessoas sentadas no meio de flores caídas no chão. O assunto ganhou tanto espaço nas postagens que alguns até brincam ao publicar imagens de um detergente amarelo de uma marca que leva o nome da árvore.

Somente no Instagram, a hashtag #IpeAmarelo (e assemelhadas com acentuação e no plural) reúne mais de 172,6 mil postagens de diversas partes do País. Uma das mais recentes foi da influenciadora Priscila Hygino Baptista, de 46 anos, que mantém a página Atibaia Para Crianças. O post teve o dobro de alcance do padrão dos que costuma publicar.

“Neste ano, a gente reparou que está além da conta. Na Serra de Itapetininga, a gente consegue ver os pontos amarelos. Isso eu nunca tinha reparado antes”, comenta. Ela costuma contar o número de ipês coloridos com a filha Nina, de 8 anos, de casa até a escola. São cerca de 40 no trajeto. “Estão lindos, lindos, lindos. Minha filha chama de ‘esplendorosos’.”

Para a corretora de imóveis paulistana Girlene de Souza, de 45 anos, as flores alegram o dia a dia paulistano. “Acalma a cidade agitada. Quando observamos os edifícios e as avenidas, com o seu intenso tráfego de veículos e pessoas, o ipê amarelo suaviza um certo estresse.”

Novo olhar

Ela chegou a tirar uma foto de uma árvore florida refletida em um prédio espelhado na Rua da Consolação, enquanto estava parada no trânsito. “A pandemia despertou muito medo nas pessoas, mas também um novo olhar sobre a cidade e a importância e a beleza dos recursos naturais que temos e, no dia a dia, passam despercebidos.”

O florescimento dos ipês até inspirou a escritora Suelen Fernanda Machado, de 38 anos, a compor um poema, no qual fala sobre as belas flores amarelas caídas no chão. No trajeto do trabalho para casa, na paranaense Campo Mourão, ela parou uns minutos para observar como o vento derrubava as pétalas da árvore. “Eu parecia escutar o seu convite: ‘Ei, para um pouco, respira, me nota'”, relata.

Aqueles minutos até motivaram uma reflexão sobre pequenos momentos belos da rotina. “Sempre que passava por eles, eu pensava que deveria escrever algo sobre”, comenta. Para ela, não tem como passar sem reparar nas árvores coloridas em contraste com a urbanização. “Digo que os ipês são transgressores da urbanização e do concreto.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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