“Me colocaram com dois caras brancos e, como sou preto, acabei passando como o criminoso”: homem preso injustamente pede justiça

08/set 18:25
Por Janaina do Carmo

Medo de sair de casa, de ficar perto das pessoas, crises de pânico e ansiedade são alguns dos reflexos que o homem preso injustamente pela polícia passou a enfrentar depois de ficar um ano e três meses detido por um crime que não cometeu. Ele foi preso por um roubo ocorrido em 2019, mas no dia do crime ele estava na igreja e as testemunhas, que poderiam confirmar sua versão, nunca foram ouvidas nem pela polícia e nem pela justiça. Bruno (nome fictício) conversou com exclusividade com a Tribuna e relatou os dias de angústia, solidão e revolta que passou dentro da penitenciária.

“Quando você é preto e pobre a vida é muito difícil. Foi uma covardia e injustiça o que fizeram comigo”, disse Bruno. “Em Benfica fiquei 10 dias no chão molhado. Passei mal porque eu comecei a tremer de frio porque era muito gelado. Rato passava perto da gente, tinha comida no chão e o buraco no chão que é o vaso, estava entupido. O cheiro era horrível”, contou.

Bruno, que é feirante, foi preso por policiais militares à paisana na tarde do dia 23 de agosto de 2019 na Praça da Inconfidência, no Centro de Petrópolis, quase um mês depois do crime. Ele contou que estava procurando por um homem que trabalhava como pedreiro e estaria no Mercadão. “Assim que cheguei lá vieram os policiais e me abordaram. Falaram que tinha um mandado de prisão. Eu pedi várias vezes o mandado e queria saber qual era o crime que estavam falando, mas eles não me respondiam”, lembra.

O feirante foi levado para a delegacia onde passou por um reconhecimento ao lado de dois homens brancos, mesmo a vítima tendo dito que o autor do crime era negro. Bruno ficou seis dias na delegacia e depois foi encaminhado para a penitenciária. Primeiro foi para Benfica e em seguida foi transferido para a Cadeia Pública Juíza Patrícia Acioli.

“Na delegacia eu perguntei a delegada para ver o mandado, mas ela não falou. Nem o crime que estavam me acusando eu sabia o que era. Fui xingado de safado e disseram que não era para eu ficar chorando”, disse Bruno. “Eu disse para os policiais que não precisava roubar, que mesmo passando dificuldade conseguia me manter. Meu pai me ensinou a trabalhar, não precisava roubar”, acrescentou.

Bruno só tomou conhecimento sobre o crime ao qual estava sendo acusado dias depois de estar preso na Cadeia Juíza Patrícia Acioli. “Foi quando me deram um papel que falava que eu tinha roubado um celular, uma mochila e cartões de crédito. Nunca me mostraram o mandado de prisão. Além disso, nesse papel disseram que os policiais me prenderam com o material roubado. Mas isso não é verdade. Eles (os policiais) foram na minha casa, mas viram que não tinha nada lá”, contou.

O feirante só teve a primeira audiência um ano e três meses depois de ser preso. Foi quando o juiz decidiu pela soltura dele por falta de provas. “A vítima falou que a pessoa tinha uma cicatriz no rosto do lado esquerdo, eu não tenho nenhuma cicatriz. Foi então que o juiz me mandou soltar. Mesmo assim ainda fiquei umas semanas na cadeia até que o papel saísse e eu pudesse ir pra casa”, lembra Bruno. Ele saiu da penitenciária no dia 23 de novembro de 2020.

Nesse período todo em que ficou preso – 15 meses – Bruno recebeu apenas a visita da esposa. “Ela ia me ver e levava as coisas para mim. A comida que tinha lá não dava para comer, era azeda”, contou. Quando veio a pandemia, Bruno ficou praticamente sozinho, sem poder receber a visita de ninguém. “Eu fiquei lá sem poder ver ninguém. E o que era mais revoltante era ver que alguns conseguiam sair mesmo dizendo que eram culpados, enquanto eu estava lá, pagando por um crime que não cometi”.

Quando voltou para casa, a vida de Bruno mudou completamente. Além de conviver com a desconfiança das pessoas, hoje ele faz acompanhamento no CAPS e conta que não consegue mais dormir sem acordar no meio da noite lembrando dos dias na prisão. “Eu tomo remédio controlado porque não consigo dormir direito. Acordo com barulho achando quem os policiais estão vindo me prender de novo. Também tenho medo de estar perto das pessoas e sumir alguma coisa e me acusarem de ter roubado”, disse.

“Eu penso muito nas coisas que eu vi. Passa um filme na minha cabeça toda noite. Ficou tudo na minha mente. Vi gente morrendo doente, vi gente se matando. Eu mesmo tentei me matar, porque dá uma revolta”, contou. “Quem errou tem que pagar, mas eu não fiz nada. Sou inocente. Foi uma covardia”, concluiu.

Para a esposa de Bruno o que aconteceu com seu marido foi um erro grave. “Foi muita humilhação passar por essas coisas. Foi uma falha muito grande o que aconteceu. Tudo o que fizeram ele passar por muito triste e humilhante”, ressaltou a esposa.

A história de Bruno foi divulgada na semana passada pela Defensoria Pública, que considerou a prisão um ato de racismo estrutural e institucional. A entidade entrou com pedido para que o Estado indenize o feirante por danos morais ocasionados por erros na investigação, no julgamento e na acusação.

“Em 2019, os negros representaram 66,7% da população carcerária. Esse número enaltece a presunção de culpa que o negro vivencia no seu dia a dia, de não poder entrar numa loja ou mercado, pois podem pensar tratar-se de assalto, não fazer movimentos bruscos com a mão na cintura ou na bolsa, pois podem pensar que ele vai sacar uma arma”, ressaltou o defensor público Marcílio Dias.

O defensor público, em parceria com a estagiária Brenda de Sousa e com o residente jurídico Simão Bernardo, entrou com o pedido de indenização levando em consideração os 15 meses de prisão, devendo o Estado pagar um salário mínimo por mês; as dificuldades para a obtenção de novo emprego após sair da prisão, calculada em cima de 24 meses, onde o Estado também deve pagar remuneração mínima mensal; e os danos morais equivalentes a 300 salários mínimos, somados a 50% (150) pedidos em dano bifásico, baseado no racismo implícito e período de encarceramento, totalizando 489 salários mínimos.

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