Macunaíma, Grande Otelo e Paulo José

16/ago 14:15
Por Ataualpa Filho

“Eu menti”. Foi essa a afirmativa feita por Macunaíma quando pego em contradição, pois havia dito que tinha matado “dois veados mateiros”; mas na verdade, foram “dois ratos chamuscados”. Porém quando assumiu a mentira, “todos os vizinhos ficaram com cara de André e cada um foi saindo na maciota. E André era um vizinho que andava sempre encalistrado.”Esse episódio em “Macunaíma, o herói sem nenhum caráter”,de Mário de Andrade, quando o li pela primeira vez, achei engraçado, pois nunca tinha visto, em livro, a expressão popular “cara de André”, geralmente empregada para designar alguém sem iniciativa diante de situações em que não encontra saída.

 A obra citada, que marcou o Modernismo Brasileiro, é rica em expressões populares, em alusões à cultura folclórica. Mário de Andrade fez um belo trabalho de pesquisa. Viajou por várias regiões do País e deu ao protagonista um perfil que não está vinculado a estereótipos de herói convencional, defensor da moral e dos bons costumes.

A expressão “o herói sem nenhum caráter” nunca me agradou. Embora não tenha conhecimento de Psicologia para analisá-la, no entanto, considero que toda pessoa tenha uma maneira de ser. Para mim, Macunaíma é um personagem coletivo que traz consigo as influências das etnias que participaram da nossa formação cultural: “nasceu no fundo do mato-virgem”, “era preto retinto e filho do medo da noite”, mas tornou-se branco louro e de olhos azuis, depois que tomou banho na água encantada que estava no “buraco na lapa que era a marca do pezão do Sumé, do tempo em que andava pregando o evangelho de Jesus pra indiada brasileira.”

E por essas peraltices do herói, que fogem do convencionalismo épico, a obra passou a ser classificada como rapsódia. A verdade é que, didaticamente, ela é caracterizada pelo que se denominou “realismo fantástico”. O herói “já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar exclamava: – Ai! Que preguiça!…”

Esse personagem foi interpretado por Grande Otelo (Sebastião Bernardes de Souza Prata) e Paulo José Goméz de Souza no filme dirigido por Joaquim Pedro de Andrade em 1969. Na listagem dos 100 melhores filmes nacionais da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), encontra-se “Macunaíma”. Grande Otelo vive o Macunaíma menino que decepava cabeça de saúva. Paulo José dá vida a Macunaíma branco que deixa de ser “preto retinto” e segue, em saga épica, pela cidade grande, desafiando as máquinas.

O “herói de nossa gente”reuniu o trabalho desses dois grandes atores que hoje se encontram lá no alto, no mundo das estrelas. Grande Otelo partiu primeiro, com 78 anos, em 26 de novembro de 1993. Paulo José foi na quarta-feira (11/08/ 2021), com 84 anos. A Ursa Maior agora aumentou seu brilho com a subida de mais um grande astro…

E aqui eu lhe digo sem medo de intriga: o destino vive de estripulia,junta e separa, quem quiser que entenda o que não tem lógica. A morte é só para os vivos. Não há exclusividade, tudo vira pó: preto, branco, amarelo, pobre, rico, bonito, feio, velho, menino, macho, fêmea…

Contudo, a arte exibe o talento para imortalizar quem o porta e não se importa de abrir a porta para o eterno. O fantástico da realidade está na ficção e na lógica em que a razão não encontra pé, por isso precisa nadar ou boiar no leito do rio Viver.

Paulo José também foi protagonista em “Policarpo Quaresma, Herói do Brasil”, filme dirigido, em 1998, por Paulo Thiago, baseado na obra de Lima Barreto, “Triste Fim de Policarpo Quaresma”.O mestre Mário já afirmara no “Prefácio Interessantíssimo”: “Não fujo do ridículo. Tenho companheiros ilustres.”

“Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil”, respaldado cientificamente nessa frase do naturalista francês August Saint- Hilaire, o “herói de nossa gente” bradou: “Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são”. O Policarpo Quaresma, que teve um triste fim, nutria um grande amor pela Pátria.  Mas,mesmo assim, declarou:“A nação anda mendiga de heróis.” Esse personagem do Lima Barreto continua com razão. Também não me desiludo com facilidade…

Paulo José veio e colocou vivo, entre nós, Macunaíma e Policarpo Quaresma como uma aventura lúdica de “Shazan, Xerife & Cia”. A “camicleta” do tempo não acelera. O pêndulo das horas, no qual estamos pendurados, um dia marca a nossa partida.Nas horas paridas, só as crianças consertam corações.

Últimas