Karnal, o livro e a redenção de Isabel

03/jul 08:00
Por Gastão Reis

No artigo “A Memória da Princesa”, o historiador e articulista do Estadão, Leandro Karnal, em 23.06.2021, em boa hora, nos fala sobre o livro de Bruno da Silva Antunes de Cerqueira e Maria de Fátima Moraes Argon, intitulado “Alegrias e Tristezas – Estudos sobre a Autobiografia de D. Isabel do Brasil”, lançado pela Editora Linotipo Digital. O livro e Isabel merecem. A obra é um marco na historiografia nacional e faz justiça à nossa Isabel. Digo nossa porque, em pesquisa de poucos anos atrás, a Princesa Isabel está entre as du-as personalidades mais queridas e respeitadas pelo povo brasileiro ainda hoje.

O articulista elogia a qualidade do livro em que os autores citam os trabalhos mais atualizados no campo teórico, fazendo jus a Heródoto, o pai dos historiadores. O formato do livro, capa dura, quadros e fotografias, inclusive coloridas, ornam o texto claro, informativo e bem fundamentado. É leitura obrigatória para quem quiser ir além da injusta vulgata  sobre Isabel.

Karnal ressalta a luta do movimento negro pelo fortalecimento da data de 20 de novembro, que nos relembra a luta e a morte de Zumbi dos Palmares. E nos fala da Redentora acusada por vezes de dar força a um golpe conservador para esvaziar a intensa luta e fuga dos escravos das fazendas no final do século XIX. Mas ele não vai bem por aí. Reconhece o papel fundamental dela, ao longo de décadas, na luta contra a escravidão, sem esquecer a relevância de Zumbi.

Ele nos fala ainda da tendência incorreta de estabelecer uma visão do passado segundo nossa aversão atual sobre o problema da escravidão. O olhar mais técnico, factual, nos revela a importância de Isabel e de Zumbi. Mas não menciona o ponto central entre os dois que tive a oportunidade de abordar em artigo meu, “Palmares e o Movimento Negro”, publicado no Diário de Petrópolis e na Tribuna, em 13.02.2021. Poucos nos damos conta de que Zumbi nasceu e morreu em pleno século XVII (1655-1695) em que a escravidão ainda era vista como um fato normal da vida. Na história escrita, quatro mil anos A.C., com a escrita cuneiforme e os hieroglifos egípcios, e mais quase dois mil anos D.C., a escravidão sobreviveu por longos 59 séculos.

         Nesse meu artigo, mostro que a visão ideológica de Décio de Freitas, jornalista e historiador gaúcho, ligado ao Partidão (PCB), que apresenta Palmares como uma república igualitária, fraternal e livre, não está baseada em fatos, mas em propaganda política. Menos ainda, haveria igualdade civil e política entre os palmarinos. “Na verdade”, escrevi no artigo, “a vida tribal africana era povoada por régulos. E aqui no Brasil, ela se reproduziu da mesma forma com o mando autoritário de Ganga Zumba, concentrador de poderes de monarca absolutista. Portanto, nem república, nem igualitária, nem fraternal, pois afinal havia escravos em Palmares. E livre em termos, pois a liberdade não era para todos”. Ganga Zumba e Zumbi tiveram escravos.

         Não pretendo aqui diminuir a importância histórica de Zumbi por uma razão que Karnal não chega a abordar. Zumbi, mas não só ele, desmonta a vi-são do negro submisso. Inúmeros quilombos continuaram a existir Brasil afora mesmo após o fim trágico de Palmares. Esse fato ressalta o negro como agente histórico em busca da própria liberdade. Mas nem sempre de acordo com o que temos em mente hoje. Ter seus próprios escravos era o desejo de muitos deles.

A diferença em relação à Isabel foi que a luta dela era para que todos fossem livres. E foi uma postura que a acompanhou desde mocinha. Além disso, foi educada pela Condessa de Barral, mulher independente, muito rica, que falava francês, inglês e alemão. E que teve um salão em Paris em que recebia personalidades da aristocracia e da vida intelectual europeia. Também era abolicionista, além de ser uma hábil e dura negociadora. Por oito anos, foi tutora de Isabel. Portanto, como afirma a Profa. Lucia Maria Paschoal Guimarães, titular da Teoria da História e Historiografia da UERJ: “Nem alienada, carola e romântica, nem esposa obediente ao marido estrangeiro.” Ela inclusive discordava por vezes do Conde em reuniões do Conselho de Estado.

Mas o depoimento mais importante que presenciei foi o de Regina Echeverria, autora de “A história da Princesa Isabel” (Versal Editores), no Salão Nobre da UCP – Universidade Católica de Petrópolis, em maio de 2015. Após 2 anos de pesquisa cuidadosa, com o apoio de três professores com PhD em História, ela afirmou, diante do público da noite de autógrafos, que sua visão da Princesa Isabel havia mudado da água para o vinho. E foi em direção ao que afirmou a Profa. Lucia Maria Paschoal Guimarães. Regina Echeverria, ex-jornalista do Estadão, acabou confirmando o que eu já havia notado quanto à desinformação prevalecente sobre a real Isabel também entre pessoas bem informadas e que eu respeitava intelectualmente.

Karnal reconhece, em suas próprias palavras, que “A baixa qualidade média dos governantes pós 1889 destaca a formação exemplar Pedro II e Isabel”. As Instruções do Marquês de Itanhaém aos preceptores de Dom Pedro II deveriam ser debatidas nas escolas secundárias, e conhecidas por todos os brasileiros se a boa memória nacional tivesse sido preservada. E, ainda, as duas Cartas que Dom Pedro II dirigiu à Princesa Isabel, preparando-a para as regências. É importante que pessoas como Regina Echeverria e Leandro Karnal reconheçam publicamente a ladeira abaixo dos políticos que a república formou. Ou melhor, deformou.

Karnal se espantaria, por certo, se tomasse conhecimento do fato que relato no meu terceiro livro a sair, “História da Autoestima Nacional – Uma reflexão sobre monarquia, república e interesse público no Brasil”. No capítulo final, “O legado da herança luso-afro-indígena até 1889”, objeto de uma palestra minha, eu arrolo 12 indica-dores de qualidade político-institucional em que  Império se sai bem em 80% deles e a república, hoje, mal atinge 20%. Patético, não é mesmo, caro leitor?

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