• Jesus no Trono da Cruz

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  • 20/11/2022 08:00
    Por Mons. José Maria

    A Solenidade de Cristo Rei do Universo é o coroamento do Ano Litúrgico. No próximo domingo, dia 27 de novembro, será o primeiro domingo do Advento, um novo Ano Litúrgico, início da preparação para o Natal. Ainda que as festas da Epifania, Páscoa e Ascensão sejam também festas de Cristo Rei e Senhor de todas as coisas criadas, a festa de hoje foi especialmente instituída para nos mostrar Jesus como único soberano de uma sociedade que parece querer viver de costas para Deus.

    Jesus veio ao mundo para buscar e salvar o que estava perdido; veio em busca dos homens dispersos e afastados de Deus pelo pecado. E como estavam feridos e doentes, curou-os e vendou-lhes as feridas. Tanto os amou que deu a vida por eles. Como Rei, vem para revelar o amor de Deus, para ser o Mediador da Nova Aliança, o Redentor do homem. No Prefácio da Missa fala-se de Jesus que ofereceu ao Pai “um reino de verdade e de vida, de santidade e de graça, de justiça, de amor e de paz”.

    Assim é o Reino de Cristo, do qual somos chamados a participar e que somos convidados a dilatar mediante um apostolado fecundo. O Senhor deve estar presente nos nossos familiares, amigos, vizinhos companheiros de trabalho… “Perante os que reduzem a religião a um cúmulo de negações, ou se conformam com um catolicismo de meias-tintas; perante os que querem pôr o Senhor de cara contra a parede, ou colocá-Lo num canto da alma…, temos de afirmar, com as nossas palavras e com as nossas obras, que aspiramos a fazer de Cristo um autêntico Rei de todos os corações…, também dos deles” (São Josemaria Escrivá, Sulco, nº 608).

    Disse  São João Paulo II: “A Igreja tem necessidade sobretudo de grandes correntes, movimentos e testemunhos de santidade entre os fiéis, porque é da santidade que nasce toda a autêntica renovação da Igreja, todo o enriquecimento da fé e do seguimento cristão, uma   reatualização vital e fecunda do cristianismo com as necessidades dos homens, uma renovada forma de presença no coração da existência humana e da cultura das nações”.

    A atitude do cristão não pode ser de mera passividade em relação ao reinado de Cristo no mundo. Nós desejamos ardentemente esse reinado. É necessário que Cristo reine em primeiro lugar na nossa inteligência, mediante o conhecimento da sua doutrina e o acatamento amoroso dessas verdades reveladas. É necessário que reine na nossa vontade, para que se identifique cada vez mais plenamente com a vontade divina. É necessário que reine no nosso coração, para que nenhum amor se anteponha ao amor de Deus. É necessário que reine no nosso corpo, templo do Espírito Santo; no nosso trabalho profissional, caminho de santidade… Convém que Ele reine!” (Papa Pio XI).

    Cristo é um Rei que recebeu todo o poder no Céu e na terra, e governa sendo manso e humilde de coração, servindo a todos, porque não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para a redenção de muitos.

    O Evangelho (Lc 23, 35-43) apresenta o Rei no trono da Cruz; Cristo não aparece sentado num trono de ouro, mas pregado numa Cruz, com uma coroa de espinhos na cabeça, com uma irônica inscrição pregada na Cruz: “Jesus Nazareno Rei dos Judeus”.

    A Cruz é o trono, em que se manifesta plenamente a realeza de Jesus, que é perdão e vida plena para todos. A Cruz é a expressão máxima de uma vida feita Amor e entrega.

    A Cruz é o acontecimento central! Aqui Cristo manifesta a sua singular realeza. No Calvário confrontam-se duas atitudes opostas. Algumas personagens aos pés da Cruz, e também um dos dois ladrões, dirigem-se com desprezo ao Crucificado: “Se tu és o Cristo, o Rei Messias” – dizem eles – “salva-te a ti mesmo e desce da Cruz!”. Ao contrário, Jesus revela a própria glória permanecendo ali, na Cruz como Cordeiro imolado. Com ele declara-se imediatamente o outro ladrão, que implicitamente confessa a realeza do justo inocente e implora: “Recorda-te de mim, quando estiveres no teu reino” (Lc23, 42). São Cirilo de Alexandria comenta: “Vê-lo crucifixo e chamá-lo rei. Crês que aquele que suporta escárnio e sofrimento chegará à glória divina” (Comentário a Lucas, Homilia 153). Segundo o evangelista São João, a Glória divina já está presente, mesmo se escondida pelo desfiguramento da Cruz. Mas também na linguagem de São Lucas o futuro é antecipado para o presente quando Jesus promete ao bom ladrão: “Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 43). Santo Ambrósio observa: “Ele pedia ao Senhor para que se recordasse dele, quando estivesse no seu Reino, mas o Senhor respondeu-lhe: Em verdade, em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso. A vida é estar com Cristo, porque onde está Cristo ali está o Reino” (Exposição do Evangelho segundo Lucas, 10, 121). A acusação: “Este é o Rei dos Judeus”, escrita numa tábua pregada no alto da Cruz, torna-se assim a proclamação da verdade. Observa ainda Santo Ambrósio: “Justamente a inscrição está no cimo da Cruz, porque mesmo estando o Senhor Jesus na Cruz, contudo resplandecia do alto da Cruz com uma majestade real” (idem, Santo Ambrósio, 10, 113).  O drama que se desenvolve aos pés da Cruz de Jesus é um drama universal; diz respeito a todos os homens diante de Deus que se revela por aquilo que é, ou seja, Amor.

    Vale meditar cada vez mais, contemplar Cristo na Cruz e suas palavras: “Na verdade digo-te: hoje estarás comigo no Paraíso”. Com estas palavras Jesus, do Trono da Cruz, recebe cada homem com misericórdia infinita. Ainda Santo Ambrósio que comenta que se trata de “um bonito exemplo da conversão pela qual é necessário aspirar: depressa ao ladrão é concedido o perdão, e a Graça é mais abundante do que o pedido; com efeito, o Senhor — diz Santo Ambrósio – concede sempre mais do que o que se lhe pede”.

    Na oração do Pai Nosso Jesus nos ensina a pedir: “Venha a nós o vosso Reino”.

    Jesus nos convida a fazer parte desse Reino e a trabalhar para que esse Reino chegue ao coração de todos.

    Um ladrão foi o primeiro a reconhecer a sua realeza: “Senhor, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino” (Lc 23, 42).

    Hoje ouvimos o Senhor dizer-nos na intimidade do nosso coração: “Eu tenho sobre ti desígnios de paz e não de aflição” (Jr 29, 11). E fazemos o propósito de corrigir no nosso coração o que não estiver de acordo com o querer de Cristo.

    Ao mesmo tempo, pedimos-lhe que nos reforce a vontade de colaborar na tarefa de estender o seu reinado ao nosso redor e em tantos lugares em que ainda não o conhecem.

    “Venha a nós o vosso Reino”.

    Que esse Reino venha de fato ao nosso coração e ao coração de todos os homens: Reino de Verdade e de Vida; Reino de Santidade e de Graça; Reino de Justiça, de Amor e de Paz…

    Sejamos mensageiros desse Reino, na família, na rua, na sociedade, no ambiente de trabalho… E, que Maria, a Mãe Santa do nosso Rei, Rainha da Paz, Rainha do nosso coração, cuide de nós como só Ela o sabe fazer!

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