Guerra pela vida: combate ao coronavírus leva profissionais da saúde à exaustão

11/abr 10:21
Por Victor Carneiro

A pandemia tem exigido muito dos profissionais de saúde que atuam na linha de frente no enfrentamento à Covid-19. O aumento desenfreado no número de atendimentos diários; a falta de recursos e equipamentos diante da superlotação das unidades de saúde; a perda de familiares, amigos e companheiros de trabalho e a rotina de trabalhar em uma das maiores tragédias sanitárias do mundo são fatores que levam parte dessas pessoas ao esgotamento profissional.

A Tribuna ouviu o relato de um médico da rede pública de saúde, sobre a rotina de trabalho durante esse período de pandemia. O profissional, que preferiu não se identificar, contou que é contratado como pessoa jurídica (PJ) e que a atual carga horária de trabalho é de 12 horas por plantão, cinco dias da semana (segunda, terça, quinta, sexta e domingo).

Porém, devido à alta demanda e a falta de médicos, já chegou a fazer plantões de 48 horas. “Eu já cheguei a pegar plantões no sábado de 12h no período da noite,
depois fiz 24h no sábado e mais 12h no período diurno do domingo. Só que não aguentei por muito tempo. Cheguei em um nível absurdo de esgotamento, devido a esse excesso de plantões”, disse.

O profissional também fala da falta de conscientização, empatia e solidariedade da população, que continua não respeitando as medidas de isolamento. “A população precisa se conscientizar. São muitos atendimentos que fazemos por dia. Em média, devo fazer cerca de 80 por plantão de 12 horas, mas já atendi 105”, disse. “Nem sempre a população entende a alta demanda de atendimentos e a falta de profissionais. Muitos ficam irritados, ameaçam. Já precisei chamar o apoio dos seguranças e até da polícia para que nada acontecesse”, relatou.

Síndrome de Burnout atinge pelo menos um em cada seis profissionais da saúde

Esses sinais de cansaço e esgotamento são sintomas da Síndrome de Burnout. Também chamada de síndrome do esgotamento profissional, é conceituada como resultado do estresse crônico no local de trabalho, que não foi gerenciado com êxito. Pode acarretar em sentimentos de exaustão ou esgotamento de energia, redução da eficácia no trabalho e falta de realização pessoal e profissional.

Uma pesquisa realizada no mês de março pelo Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino apontou que ao menos um em cada seis profissionais da saúde apresentam sinais de burnout. A pesquisa foi feita com 715 profissionais – médicos, enfermeiras, técnicos
de enfermagem e fisioterapeutas – de 36 hospitais públicos e privados do Brasil. Todos trabalham em UTIs, por pelo menos, 20 horas semanais.

De acordo com a enfermeira Viviane Camargo, integrante do Comitê Gestor de Crise do Cofen (Conselho Federal de Enfermagem) e coordenadora da Câmara Técnica de Atenção à Saúde, a pandemia agravou a sobrecarga de trabalho.

Ela destaca que os conselhos regionais de enfermagem, por meio de fiscalização, já detectam há muito tempo esse desgaste dos profissionais e buscam mecanismos junto às instituições, de mudança desse cenário.

Viviane também afirma, que um dos motivos que levam os profissionais de enfermagem à exaustão é a baixa remuneração da classe, motivo que leva grande
parte a buscar outros empregos.

“Os profissionais de enfermagem são profissionais que precisam manter mais de um vínculo de trabalho, por conta do salário. Para que a classe tenha um salário digno, um salário que no final do mês seja compatível com a necessidade que aquele trabalhador tenha, ele precisa ter dois, três empregos, e isso também leva ao esgotamento profissional. A remuneração da enfermagem é incompatível com a importância que temos na saúde”, disse.

O conselho se mostra preocupado com os profissionais no atual momento, mas também no período pós-pandemia, devido às possíveis consequências que
o cenário pandêmico pode causar aos trabalhadores da classe, e por isso, o Cofen criou um canal para atendimento via chat ou contato telefônico, que
conta com profissionais de enfermagem especialistas em saúde mental. O serviço funciona 24h, todos os dias e pode ser acessado através do site www.cofen.gov.br.

“Recebemos relatos de enfermeiros que conseguiram, após conversar com um dos nossos colaboradores do ‘Enfermagem Solidária’, retornar ao plantão; algo que aquele
profissional não acreditava conseguir, diante do esgotamento físico e mental. Então é um trabalho que está sendo feito neste momento e já é referência, inclusive,
para outros conselhos”, destacou Viviane.

Nossa equipe questionou a Prefeitura de Petrópolis, em duas oportunidades, para saber se a Secretaria de Saúde faz um acompanhamento com os profissionais da
pasta sobre o tema. Perguntamos se o município tem dados sobre o número de profissionais que apresentaram sinais da síndrome, além de quantos teriam sido afastados por conta do excesso de trabalho e de que forma o governo interino tem auxiliado esses profissionais. Até o fechamento desta matéria, a Prefeitura não havia respondido aos questionamentos.

Também entramos em contato com a Câmara Municipal, e perguntamos se através da Comissão de Saúde, o legislativo vem fiscalizando a sobrecarga de trabalho dos profissionais da saúde e de que forma a comissão tem atuado sobre o tema. A Câmara também não respondeu aos questionamentos da Tribuna.

Como manter a saúde mental?

A psicóloga Aline Saramago destaca que para manter a saúde mental, é importante os profissionais buscarem momentos de lazer e hobbies; atividades que os tirem da rotina de estresse.

Sobre o esgotamento emocional e físico, a psicóloga ressalta que profissionais especializados podem ajudar no trabalho de mudanças de pensamentos, assim como na reflexão do comportamento e a ativação de novos hábitos, que são importantes nas mudanças das emoções.

“Para evitar o Burnout é importante cuidar do estresse, desde o princípio. Nesse momento, a ajuda profissional já pode auxiliar, na medida em que se é apresentado
um contraponto, um outro ponto de vista para aquela pessoa, inclusive científico.

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