• Grupos criam cursos para formar candidatas negras

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  • 07/06/2021 13:10
    Por Bianca Gomes e Luiz Henrique Gomes / Estadão

    Mulheres negras como Erika Hilton, Karen Santos e Dani Portela figuraram entre os nomes mais votados nas capitais brasileiras nas eleições do ano passado. Mas apesar de o número de candidatas ter aumentado em 24,5%, o porcentual de eleitas continuou praticamente o mesmo de 2016 para 2020, de acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Das 98,8 mil que concorreram no último pleito, apenas 3,8 mil se elegeram – uma “taxa de sucesso” de 4,19%.

    Organizações da sociedade civil esperam que esse porcentual suba no ano que vem. Já a partir deste ano, entidades têm apostado em cursos de formação para alavancar essas candidaturas em 2022. Um deles é o Lab Ativista, criado por seis ativistas, entre eles Keit Lima, de 30 anos, que no ano passado concorreu à Câmara Municipal de São Paulo, mas não se elegeu.

    Mulher, preta e periférica, ela sabe bem as dificuldades de conseguir uma vaga no legislativo paulista. Os 11.355 mil votos foram conquistados a partir de uma campanha com pouca estrutura. Ao Estadão, ela contou que recebeu apenas R$ 9 mil do partido, enquanto candidatos homens brancos garantiram uma verba próxima a R$ 100 mil. “Ninguém vota em quem não conhece. Você precisa de estrutura para conseguir alcançar as pessoas”, disse Keit, que contou com a ajuda de voluntários para a sua candidatura. “É inconcebível dizer que um candidato com uma verba onze vezes maior está em pé de igualdade na hora da disputa.”

    Assim como outras mulheres negras que saíram candidatas, Keit construiu sua trajetória dentro dos movimentos sociais. Nascida em Recife, mas moradora da Brasilândia desde os oito anos, ela foi a primeira da família a fazer o ensino superior. Desde os 13, a ativista atua dentro das periferias, levando as demandas da base para a política institucional.

    Dentro do Lab Ativista, Keit quer preparar principalmente mulheres negras de base para disputar espaços na política e em outros cargos de decisão. “As poucas mulheres negras que temos é graças aos movimentos sociais, que dão formação e ensinam a fazer campanha.”

    Pesquisadora e integrante do Instituto Alziras, Roberta Eugênio disse que as eleições de 2020 não foram um sucesso quantitativo para as mulheres negras, mas com certeza houve um ganho qualitativo. “Nós temos, sim, o que comemorar. Tivemos eleitas em cidades que até então não tinham nenhuma vereadora negra. Outros lugares em que mulheres negras foram as mais votadas. Existem muitos significados nisso, sobretudo em uma sociedade como o Brasil, em que estruturas se organizam com mulheres fora desses espaços de poder”, afirmou ao Estadão.

    A falta de estrutura também impactou a candidatura da cientista social Simony dos Anjos, de 34 anos. Única mulher e única pessoa negra a disputar a prefeitura de Osasco (SP), ela teve uma receita de R$ 43,9 mil, enquanto o candidato vencedor arrecadou R$ 2,7 milhões. Simony também conta que sua campanha sofreu ataques racistas e sexistas – situação que se repete com outras candidatas negras.

    No mês passado, Simony participou da Jornada das Pretas, um evento da Oxfam Brasil que reuniu mulheres negras não eleitas no ano passado. A coordenadora de Juventude, Raça e Gênero da organização, Tauá Pires, disse que o espaço foi criado para dar suporte a essas mulheres que pretendem voltar às urnas no ano que vem. “Queremos fornecer informações básicas e fazer com que essas mulheres troquem experiências para formar candidaturas mais fortes em 2022 e com novas formas de fazer política”, disse ela.

    A produtora cultural no Amazonas, Michelle Andrews, de 36 anos, também participou do ciclo de encontros. Ela decidiu entrar para a política para melhorar a condição de seu setor, mas também sentia falta de mulheres negras na política, como ela, que pudessem pautar a desigualdade racial e de gênero na política.

    Na tentativa de abrir mais espaço de representação, Michelle se filiou ao PSOL em 2017 e decidiu disputar a eleição do ano seguinte. Na primeira disputa, conseguiu 3,1 mil votos para deputada federal. Dois anos depois, se candidatou a vereadora em Manaus em uma chapa coletiva, com outras quatro mulheres, e recebeu 6 mil votos, alcançando a quinta maior votação, mas não se elegeu por falta de quociente partidário.

    Na legislatura atual, a Câmara Municipal de Manaus tem apenas 4 mulheres entre 41 vereadores. Significa menos de 10% da Câmara. Entre elas, três se declaram pardas, e uma, branca. “Mas não existe uma representatividade negra em termos de pauta. O debate racial só surge em datas comemorativas e sob uma ótica do sofrimento, que não cria políticas transformadoras”, declarou Michelle.

    A atuação política de Michelle é um exemplo do aumento da participação de mulheres negras na política, apesar do número baixo de candidatas eleitas. Na campanha do ano passado, ela utilizou das chapas coletivas e do foco em redes sociais, duas novidades das disputas eleitorais.

    No Congresso Nacional, um dos debates em torno da reforma política é a criação de cotas para mulheres no parlamento. O Observatório de Candidaturas Femininas da OAB-SP vai encaminhar para a comissão que discute as mudanças eleitorais uma série de propostas de alterações legislativas, entre elas a reserva de 50% de cadeiras legislativas para mulheres, sendo metade para mulheres brancas e metade para mulheres negras, ideia proposta inicialmente pelo movimento Mais Mulheres na Política e que terá o apoio da instituição.

    A relatora da reforma, deputada federal Renata Abreu (PL-SP), acredita que a ideia não será incluída na reforma agora “por uma questão estratégica”. “Existe uma resistência no Congresso muito grande com relação à criação de cotas, e neste momento deve haver a criação de cotas apenas para mulheres. Depois, desmembrá-la é mais fácil”, afirmou a relatora. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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