EUA bloqueiam parte da fronteira e colocam haitianos em voos para seu país

19/set 20:05
Por Redação O Estado de S. Paulo / Estadão

Os Estados Unidos bloquearam neste domingo, 19, parte da fronteira mexicana na cidade de Ciudad Acuña para conter o fluxo de imigrantes do Haiti, que montaram um acampamento na região. O fechamento da passagem ocorreu ao mesmo tempo em que autoridades americanas começaram a deter alguns haitianos para devolvê-los ao seu país.

Pelo menos 10 carros do Departamento de Segurança Pública do Texas se alinharam perto de uma ponte e do rio por onde os haitianos têm entrado em território norte-americano, na cidade texana de Del Rio, há pelo menos três semanas.

Um policial mexicano de Ciudad Acuña que não quis se identificar disse que os haitianos não terão mais permissão para cruzar a fronteira. No entanto, a reportagem da Associated Press viu imigrantes cruzando o rio a cerca de 2,4 quilômetros a leste do local alvo do bloqueio norte-americano.

Centenas de pessoas estavam sentadas ao longo da margem do rio enquanto de 50 a 60 de cada vez faziam a travessia com água na altura da cintura. Oficiais norte-americanos observaram as travessias, mas não intervieram. Muitos retornam à Ciudad Acuña para comprar mantimentos e retornar ao acampamento do lado americano.

Não são só haitianos que estão ali. Muitos saíram de outros países da América Latina, do Brasil inclusive, mas agora tentam asilo nos Estados Unidos na medida que a crise econômica em decorrência da pandemia se agrava na região.

Voos

Ainda neste domingo, o governo dos EUA enviou três voos de haitianos que estavam em Del Rio de volta para sua terra natal – o número de aviões diários deve chegar até sete em breve, afirmam autoridades norte-americanas.

Os aviões deixaram San Antonio rumo a Porto Príncipe, capital do Haiti. O primeiro voo chegou à tarde ao destino. Muitos deportados estavam com crianças e encobriam os rostos.

O governo norte-americano também enviou no sábado à região de Del Rio um grande número de ônibus para transferir os haitianos para os voos de volta ao seu país, centros de detenção de imigrantes dos EUA e instalações de detenção da Patrulha de Fronteira.

O bloqueio e as deportações foram uma resposta à chegada repentina de haitianos a Del Rio, cidade com cerca de 35 mil habitantes a 230 quilômetros a oeste de San Antonio. O município fica em um trecho relativamente remoto da fronteira, o que facilitaria a entrada de imigrantes ilegais.

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Ao chegar em Porto Príncipe, os haitianos foram recebidos por funcionários do governo do país. Policiais faziam a segurança dos deportados.

Uma van da Organização Internacional de Migração também foi estacionada no aeroporto lotada de sacolas com produtos de higiene pessoal, incluindo álcool em gel. Todos foram submetidos a teste de covid-19 e as autoridades não planejam colocá-los em quarentena, disse Marie-Lourde Jean-Charles do Escritório de Migração Nacional.

O primeiro-ministro haitiano, Ariel Henry, escreveu no Twitter que está preocupado com as condições na fronteira mexicana com os Estados Unidos e que os imigrantes seriam bem-vindos de volta. “Queremos tranquilizá-los de que já foram tomadas medidas para melhor recebê-los no retorno ao país e que não serão deixados para trás”, tuitou. Henry não deu mais detalhes sobre as medidas.

A opinião do líder, porém, não é unânime. “Temos a situação no sul com o terremoto. A economia está um desastre e não há empregos”, disse o ministro eleitoral, Mathias Pierre, acrescentando que a maioria dos haitianos não consegue suprir nem suas necessidades básicas. “O primeiro-ministro deve negociar com o governo dos Estados Unidos para impedir essas deportações neste momento de crise”, disse.

“No Haiti não há segurança”, disse Fabricio Jean, um haitiano de 38 anos que chegou ao Texas com a mulher e duas filhas. “O país está em crise política”, afirmou, ao lembrar do assassinato do presidente Jovenel Moïse, em julho.

Já Jean Agenord, sua mulher chilena Makarena Vines e seu filho de 17 meses foram impedidos de cruzar a fronteira. “Não posso cruzar aqui, não posso cruzar ali”, disse ele. “O que eu vou fazer?” COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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