• Ela quer o saquê no restaurante e no boteco

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  • 27/fev 07:01
    Por Fernanda Meneguetti / Estadão

    Fique tranquilo, não foi você quem nunca escutou. Sakelière está longe de ser um verbete de dicionário. Ainda assim, o termo cai bem. Yasmin Yonashiro é alguém cujo trabalho é oferecer, aconselhar e devotar-se ao saquê. Uma sakelière.

    Durante metade cravada de seus 36 anos, Yasmin serviu, investigou, tomou e se apaixonou pela bebida. Do falecido Shaya, no Itaim, ao impecável Goya Zushi, nos Jardins, desenvolveu mais de 80 cartas personalizadas para restaurantes.

    Entre uma e outra, desencanou de ser pedagoga e até virou embaixadora de marcas, como as Next Generation da japonesa Suntory (a vodca Haku, o gim Roku e o uísque Toki, que ela deve trazer para terras tupiniquins).

    “Desde o início, tudo o que se falava de shari, de peixe, de shoyu, de vinagre, de umami eu estudava, porque queria entender o que estava vendendo. Aí eu descobri o saquê”, conta a sommelière. Ou foi mesmo o saquê que descobriu Ya?

    O fermentado alcoólico de arroz a hipnotizou nos tatames do Kinoshita: “Eu atendia vestida de quimono, fazendo uma coisa que as pessoas veem como serviçal. Sendo mulher, é uma coisa complicada, então assumi um personagem”.

    Com seus 20 anos, a jovem acatou o conselho de Susana San, esposa do chef da época, Tsuyoshi Murakami: “Fui aprender odori, a dança tradicional japonesa. Aí as coisas se uniram, porque o serviço é uma dança, você tem de saber lidar com as pessoas, criar uma energia e uma experiência memorável para elas, e o salão é o palco”.

    FURACÃO

    Primeira aluna de Alexandre Tatsuya, sake samurai e dono da loja Adega de Sake, e “filha postiça” de dona Margarida Haraguchi, a mulher à frente do primeiro izakaya famoso de São Paulo, ela se formou pelo Sake Service Institute, com sede em Tóquio, foi cortejada pela Playboy e é divorciada para não ser “pescoço de homem” nenhum.

    Yasmin é um furacão que passou por dezenas de produtores de saquê, serviu incontáveis doses e segue ensaiando seu próprio balé. “O odori é coisa de outra vida”, ela gosta de repetir. A bebida, por sua vez, foi a resposta a um anseio – o de trabalhar com a cultura japonesa. “Desde criança, fiz aula de japonês numa associação de bairro, via filme, mangá, anime. A gente não tinha tanto acesso e meus pais nem entendiam”, relembra.

    Agora, Ya está a caminho do Japão pela sétima vez. Pela primeira, convicta de ser nipo-brasileira, de ter a missão de aproximar a cultura de lá das pessoas no Brasil: “O lámen hoje faz essa ponte junto ao saquê” – uma ponte que ela atravessa diariamente no Jojo Ramen, do qual é sócia.

    Na unidade de Santa Cecília, aliás, o Hakutsuru Junmai seco sai até de torneira: “Por causa do odori, fico vidrada no gestual das mãos. Via o pessoal tirando chope e pensava: dá para tirar bem bonito. Imagine tirar um saquê on tap?”, conta.

    Ao devaneio, somou-se o fato de que provar chopes diferentes era mais barato do que pedir garrafas. “Quis fazer a mesma coisa para mostrar que saquê não é só refinado e para quem tem dinheiro”, complementa.

    Do discurso, a especialista vai à prática: “Só peço que a pessoa não beba no massu, porque ele não valoriza o saquê, a borda é larga, o negócio é de plástico ou de madeira, que interfere no paladar e no aroma. Fora isso, nenhum preconceito. Até porque, se não fosse a saquerinha, o saquê não teria o tamanho que tem hoje”.

    Heresias descartadas, Yasmin já preparou muita caipilé como embaixadora do Jun Daiti: “Tenho vergonha disso? Zero. Sempre tive a intenção de desenvolver o saquê no Brasil, seja no boteco, seja no restaurante japonês mais chique que tiver”.

    As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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