Dirigido por Camilo Cavalcante, ‘King Kong em Asunción’ é narrado em guarani

05/set 07:00
Por Luiz Carlos Merten, especial para AE / Estadão

Mesmo sem nenhum filme novo de Kleber Mendonça Filho, o cinema pernambucano não cessa de surpreender, e maravilhar, neste 2021. Acqua Movie, de Lírio Ferreira, Piedade, de Cláudio Assis, e agora King Kong en Asunción, de Camilo Cavalcanti. O filme de Camilo começou a nascer em 2007, cerca de sete anos antes de História da Eternidade, que lhe deu projeção. Tente ler as críticas de História – não há uma que não faça referência à dança do gay interpretado por Irandhir Santos. É a chave com que muita gente entra na obra.

Comparativamente, você vai ler que Camilo frustra expectativas com seu novo personagem. King Kong, que estreou na quinta, 2, é sobre um matador de aluguel, mas Andrade Júnior, que faz o papel, está longe de seguir o modelo hollywoodiano. É idoso, obeso, o Velho. É isso que frustra? Depende do olhar – o Velho é a própria razão de ser do filme. Tudo começou com uma performance do ator, num festival de cinema. Camilo viu ali o seu gorila, o seu King Kong. O filme começou a tomar forma. King Kong na estrada. “Para mim era uma coisa periférica, tinha a ver com latinidade.” O Velho carrega a violência no DNA. “Ficou claro para mim que ele deveria carregar a dor e o sangue da colonização.”

De cara, o texto em guarani informa que a vida é percurso, e o Velho, que executa uma missão na Bolívia, ruma ao Paraguai, onde espera encontrar a filha, que nunca conheceu e vive com a mulher que ele talvez mais tenha amado. Reencontra o amigo, o Barbeiro, interpretado por Fernando Teixeira, de Aquarius. A narração entrega – “Essa também é uma história de ruína”. A ruína humana que é o próprio Velho. Uma vida inteira pautada pelo ódio, numa trajetória que começa como história de vingança na Zona da Mata, em Pernambuco. Mas o ódio não é o objetivo final. Existem resquícios de amizade, de afeto.

Nascido em 2007, viabilizado em 2015, filmado em 2017 e estreado em 2019. Em nenhum momento, Camilo pensava que o filme poderia vir a público num período como a era Bolsonaro, “com todo esse ódio”. Foi um filme feito com pouquíssimo dinheiro – como História da Eternidade. “Não me queixo. Tenho independência e a falta de dinheiro me estimula a usar a criatividade para compensar limitações.” Filmar em três países foi um desafio. “Foi preciso um trabalho logístico para cruzar fronteiras e integrar artistas e técnicos de diferentes nacionalidades. Sofremos todos os mesmos males, a mesma opressão política. O Brasil tem a mania de olhar para a Europa, os EUA. Precisamos olhar mais para dentro, para nossos vizinhos. O que precisamos é de mais integração continental.”

Desde o início, o roteiro previa uma narrativa em off que seria feita por Andrade Júnior. “Esses offs ajudaram no tom dramático, mas, antes mesmo de terminar a filmagem, eu já sabia que não ia usar a voz dele. Uma voz simbólica, falando em guarani, daria mais potência ao relato e ainda seria mais poética, como se fosse a morte falando.” Camilo encomendou esse texto à escritora gaúcha Natália Borges Polesso. Verteu-o para o guarani e quem lê é a atriz Ana Ivanova, de Las Herederas. De Assunção, ela conta que foi uma de suas experiências mais intensas como atriz de teatro e cinema.

“O texto é muito bonito, muito forte, mas há uma diferença entre o português, o espanhol e o guarani. Vivemos no século da imagem e as próprias palavras estão conectadas com imagens no nosso inconsciente. Os povos originários não fazem essas construções linguísticas, tudo é muito mais simples e direto, a conexão com o mundo, a natureza. Discutimos muito como seria a narração, e finalmente, quando fui ao Recife para gravar, já sabia como seria.” Ana reflete – “Existem camadas, a literária é muito forte, mas tem também a sonora, a imagética e até a política, que fazem dessa narração algo muito especial”. Ana promove oficinas – talleres de narración – com o objetivo de integrar pessoas, principalmente jovens, que são periféricos na sociedade paraguaia. Tudo a ver com a intenção de Camilo.

O Velho não virou esse monstro assassino por acaso. Um episódio da infância ajuda a explicar tudo o que se passou na vida dele. A infância e a velhice se ligam, duas pontas da mesma linha representando o que está por vir e o que foi alcançado, ou perdido. Em 2019, Camilo havia acabado a montagem quando veio o choque – seu ator morreu. “Andrade não conseguiu ver o filme pronto, mas sua dedicação está presente em cada cena.” Em Gramado, no ano passado, o longa venceu os prêmios de melhor filme do júri oficial e do popular. Venceu também, postumamente, o Kikito de melhor ator e dividiu o prêmio de trilha com Todos os Mortos, de Caetano Gotardo. Na trilha tem Mercedes Sosa, Volver a los 17. Em História da Eternidade, Mercedes já cantava Alfonsina y El Mar. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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