De Gastão Reis para Elio Gaspari

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  • 06/ago 08:00
    Por Gastão Reis

    Elio Gaspari, vez por outra, nos surpreende, ao abordar temas políticos atuais, com um enfoque à la Machado de Assis, em “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. No título, imito apenas o formato do título, pois não me apresso em ser um defunto falante. Muito pelo contrário.

    Em sua coluna de 3/8/2022, em O Globo, intitulada “De Eduardo Gomes para Bolsonaro”, Elio nos faz um relato interessante de uma carta que o falecido brigadeiro Eduardo Gomes teria escrito do além-túmulo para o presidente sobre a confiabilidade das urnas eletrônicas nas quais acredita mais do que naquelas que coletavam cédulas. (E poderia ter dito mais: se fossem fraudáveis, Haddad teria vencido em 2018, e não Bolsonaro.) A “voz” do brigadeiro faz um retrospecto de sua participação política em nossa desastrada república. E nos abre as portas, por assim dizer, para uma análise crítica da presença militar na política, que os povos latino-americanos, nós entre eles, conhecemos bem no que acabou dando.

    Inicialmente, Elio, aproveito seu subtítulo: “A indisciplina militar produz ditadura e anarquia”. Um triste, mas fiel, resumo de nossas agruras com a presença militar na política. E isso vem de longe, daquela data fatídica de 15 de novembro de 1889 que deu início à nossa confusão político-institucional. Sem dúvida, a causa geradora das seguidas desordens militares de nosso século XX.

    O brigadeiro Eduardo Gomes confessa que participou de rebeliões em 1922, 1924, 1930, 1932, 1945 e 1954. Diz mais: “Derrubei três governos: 1930, 1954 e 1964. Menciona que Bolsonaro teve breve carreira militar e tomou cadeia uma vez. E que ele tomou três, todas elas longas.

    O brigadeiro, Elio, tinha como pano de fundo de suas revoltas a luta contra as oligarquias. Aquelas que, após a queda da monarquia, transformaram o país num condomínio fechado em que os estados de SP, MG e RJ davam as cartas. O resto do país foi esquecido. Resultou na Revolução de 1930, que partiu dos excluídos localizados no Nordeste e no Sul, com destaque para o RS.

    E aqui me permito voltar no tempo, Elio, pedindo ajuda à sabedoria de Joaquim Nabuco na carta que escreveu para o Alte. Jaceguay, em 1895. Com precisão de neurocirurgião, afirmou: “A razão aconselhava que a dinastia e a força armada se entendessem (…), animadas como eram do mesmo espírito de abnegação e patriotismo. Em vez disso, o exército preferiu destruir sua aliada natural e começar sua própria evolução, perigosa sempre para instituições militares”. E democráticas, caberia acrescentar.

    Quando Nabuco se refere à monarquia como aliada natural do exército, ele certamente estava se referindo àquelas forças políticas comprometidas apenas com o próprio umbigo e bem distantes da promoção do bem comum, entre elas as oligarquias regionais. É mais que reveladora a habilidade da Coroa ter conseguido passar todas as leis abolicionistas por meio de gabinetes conservadores. Logrou se sobrepor a interesses menores das oligarquias defensoras da manutenção da escravidão.

    E foi assim que perdemos um tempo histórico valioso na luta perdida de combater as oligarquias ao longo do século XX por não dispormos mais do poder moderador no combate aos desmandos do andar de cima. É difícil saber se o brigadeiro, em seu patriotismo, se deu conta da perda da aliada natural, a monarquia. (Cabe registrar, a favor do brigadeiro, um fato relatado por meu pai. Como ministro da Aeronáutica, recebeu o enviado da empresa que havia conseguido um contrato com o ministério, entregando-lhe as chaves de um carro novo. Aceitou, recomendando que as levasse à Divisão de Patrimônio da Aeronáutica para registro como bem móvel do ministério).

    A ironia da História foi colocar as Forças Armadas no papel espúrio de poder moderador, um papel para o qual não estão preparadas por formação. E daí tantos arbítrios e decisões equivocadas, típicas do caminho para o inferno.

    No episódio dos 18 do Forte de Copacabana, o brigadeiro nos informa que eram 13, mas que diziam sermos entre 11 e 23. Tinha, na época, a patente de tenente, e 23 anos de idade. Ele e seu grupo foram metralhados na altura da Rua Siqueira Campos com Avenida Atlântica. Só ele e o tenente Siqueira Campos sobreviveram. Os registros na internet informam que com a instalação da república, o papel dos militares tornou-se central no modo de fazer política no Brasil. E a deformidade continua até hoje mal resolvida. Não é papel dos militares fiscalizar urnas eletrônicas, como diz o próprio Bolsonaro, alegando como atenuante que teriam sido convidados a prestar tal serviço.

    O brigadeiro continua relatando sua ativa participação em muitas revoltas. E diz a Bolsonaro que nunca contestou a legitimidade de suas duas derrotas à presidência, em 1945, para Dutra e, em 1950, para Vargas. A insubordinação dos tenentes na década de 1920, que se propagou na década de 1930, mereceu dos historiadores a denominação de tenentismo. Mais uma vez, cabe registrar o lado maquiavélico de Vargas. Perguntado sobre o que faria com os tenentes, resposta foi curta e grossa: “Nomeando-os capitães.”

    O brigadeiro, aparentemente sem se dar conta dos estragos causados pela participação política dos militares, nos diz que: “Quando falei em política, sempre foi em defesa da democracia e da liberdade”. Nas grandes democracias europeias, nos EUA e no Canadá, soaria estranha essa afirmação, pois lá, no passado e no presente, os militares se comportam em política como os grandes mudos, como a Missão Militar Francesa, de 1920 a 1940, tentou ensinar aos nossos militares. Essa evidente distorção foi percebida por Geisel ao declarar: “Militar cujo nome jornalista não sabe é certamente um bom oficial”. Um ato falho que põe em questão um militar como ele e vários outros metidos em política até o pescoço.

    Por fim, Elio, notei sua preocupação em enquadrar uma situação atual num quadro histórico mais amplo, embora me pareceu faltar retroceder no tempo um pouco mais para denunciar nosso descaminho político-institucional desde 1889.

    Nota (*): Links para 2 vídeos meus, “Militares na Política”, parte 1:

    https://www.youtube.com/watch?v=5TJFbTodP5I&t=3s

    e parte 2: https://www.youtube.com/watch?v=ogRIzNZGsLs

    gravados no programa DOIS MINUTOS COM GASTÃO REIS

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