Crônica do Ataualpa: Saudades…

  • 23/jan 09:19
    Por Ataualpa Filho

    Quando nos deparamos com o irreversível, a palavra resignação salta com o anteparo da fé. A morte de um ente querido abre um vazio em nosso peito que a dor da ausência se apodera. O tempo tem a função de suturá-lo. E, pelo sopro da saudade, as cinzas se desprendem e as lembranças acendem em revivências…

    A memória carrega o passado para tornar o presente apascentado nas limitações humanas. Somos limitados para entender as obras do destino, que não se subalterna às nossas vontades.

    Como criaturas, temos que admitir, pelo menos, a existência do Criador, uma vez que o acaso não é capaz de criar um universo com dimensões infinitas. Dentro da nossa lógica, priorizando os nossos anseios, jamais exerceremos domínio sobre a morte.

    Pelas concepções metafísicas, a dor da ausência encontra bálsamos mais confortantes. É mais fácil alicerçar a fé do que questionar o imponderável por razões pessoais.

    A selva de porquês que atravessei na juventude tem me ajudado a aceitar o que está fora do domínio dos homens…

    O dia 18 de janeiro já estava gravado na minha memória, porque perdemos a presença física, no ano de 2013, do querido Padre Quinha.

    Ao sair da Igreja Matriz São José de Itaipava, após participar da missa em memória desse Servo de Deus, li uma triste mensagem: “Acabo de receber a desagradável notícia do falecimento do amigo Izaías”.

    O inesperado pode nos desestabilizar emocionalmente, principalmente quando se trata da morte de alguém do nosso convívio. A dimensão do choque depende do grau de afetividade que se tem com a part-ida.

    O falecimento do desembargador Antônio Izaías da Costa Abreu, na terça-feira passada, veio de uma forma inesperada. Partiu em um sono profundo. No instante da leitura da mensagem, a minha voz sumiu. Veio um silêncio pela quebra de uma expectativa: ele havia solicitado a sua transferência do Quadro de Membros Titulares da Academia Petropolitana de Letras para o Quadro de Membros Eméritos. Indicamos, portanto, o nome do professor e escritor Leandro Rodrigues para ocupar a cadeira que foi declarada vaga. E, aproveitaríamos a oportunidade para fazer uma homenagem pelos seus 90 anos que seriam completados em 2022, pois nascera em 5 de março de 1932, no Município de Bom Jesus do Itabapoana. Mas escolheu Petrópolis como berço da sua eternidade. Repousa agora ao lado da sua esposa, a senhora Maria da Penha.

    Ele foi um dos membros fundadores da Academia Petropolitana de Educação, Membro do Instituto Histórico de Petrópolis. Concluiu o curso de Direito, em 1964, na Universidade Católica de Petrópolis, na qual exerceu o magistério entre 1974 e 1991, lecionando Direito Penal e Direito Civil. Ingressou na magistratura em 1972. Presidiu a Fundação Miguel de Cervantes, era Sócio Titular do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Membro da Comissão de Preservação da Memória Judiciária – COMEMO, do Museu da Justiça e Centro Cultural do Poder Judiciário do Estado do Rio de Janeiro.

    A simplicidade do Dr. Izaías tinha algo peculiar, sabia unir os amigos em torno de uma boa prosa. Aos domingos, sempre lhe enviava a crônica da semana com o pretexto de um diálogo no final da noite. Sempre dávamos boas risadas. Algumas histórias que ele me contou estão no livro de sua autoria “O que vi e ouvi, crônicas anedotizadas”.

    Eu admirava a forma como ele conduzia as narrativas tanto na linguagem oral, quanto escrita. O humor vinha pela sutileza da inteligência. No livro “O Humor e o Riso”, ele afirmou: “para revelar os meus sentimentos, alegrias, mágoas e o mais que trago na alma adoçando o meu espírito, percebi que a melhor forma seria valendo-me de humor, porque humor é doçura, misericórdia e amor.”

    A condução de um raciocínio lógico a favor da justiça revela o senso de humanidade no qual o direito é imprescindível. No livro citado, o humor e o riso são desprovidos do deboche e da ridicularização do outro, exploram as contradições do cotidiano que nos servem de lições de vida. Na referida obra, o poder de síntese do mestre Izaías se evidencia em forma de trovas. Com o título “Honradez”, ele escreveu: “Nasci em berço humilde/ de pais pobres e honrados,/ lutei com destemor e bravura,/ para honrar os antepassados”.

    No livro mencionado, ele abordou a dor da ausência: “não há céu sem tempestade,/ nem luz sem calor./ A ausência de quem se ama,/ deixa em nós rastro de dor.”

    Sobre a efemeridade da vida, ele nos levou a refletir com os seguintes versos: “o suave perfume da rosa,/ colhida no seu jardim,/ que bom seria se durasse/ e não tivesse mais fim.”

    Se a vida se resumisse somente no conjunto de vísceras que chamamos de matéria, talvez a morte fosse a consumação de tudo. Mas há uma natureza impalpável que se eterniza pela espiritualidade e pelas atitudes que refletem o amor a Deus e ao próximo…

    Mestre Izaías, obrigado pelas lições de vida! Serei eternamente grato…

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