Crônica do Ataualpa: Em busca da paz

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  • 06/mar 10:55
    Por Ataualpa Filho

    Quando o tempo pesa sobre os ombros, temos a oportunidade de enxergar melhor o nosso lado interior. Fato que possibilita uma mudança nos critérios usados na escolha dos valores que norteiam o viver. O processo contínuo imposto pela vida mantém o questionamento dialético que exige posicionamento diante da realidade no ambiente em que vivemos. Não é por demais lembrar que “homem algum é uma ilha”. As relações humanas são inerentes ao convívio social. E, para que esse convívio seja harmonioso, a paz é imprescindível (conditio sine qua non).

    A paz mundial não se dissocia, nem se distância da manutenção da paz que deve existir no interior de cada um de nós. Os conflitos sempre nascem quando alguém tenta violar o espaço do outro. O desrespeito ao outro está nos primeiros passos da guerra, seja em dimensões mundiais, seja em ambiente familiar ou de trabalho.

    A cegueira produzida pela obsessão do poder tende a construir uma consciência egocêntrica de superioridade, na qual o outro só é visto como um ser inferior. E, por esse egocentrismo, quem se sente superior passa a querer julgar os outros a partir de si, tendo como referência os valores próprios.

    Em uma guerra não há neutralidade; mas omissão, principalmente quando os adversários não lutam com as mesmas armas. As ideologias não podem servir de cortinas de fumaça para encobrir a covardia.

    A demarcação de território é motivo de briga até entre os animais. É triste ver os homens que se consideram senhores do poder com um comportamento pior do que os irracionais. Não abrem espaço para a sensatez do diálogo, não demonstram compaixão diante dos inocentes, não se preocupam com a desestruturação das famílias que fogem dos bombardeios. Aprimora-se o poder letal das armas sem evoluir diplomaticamente em busca de soluções para os conflitos que emergem em todos os continentes. Ainda prevalece a prepotência irracional movida pela ganância.

    A tirania é patologicamente obsessiva, por isso sempre procura exercer o domínio sobre aquilo que não lhe pertence, ou seja, quer para si o que pertence a outros. O desejo de querer exercer o domínio sobre tudo e todos é reflexo da insegurança. E, por essa razão, sente-se ameaçado pela democracia. E aqui cabe mais uma ressalva: a guerra não se manifesta somente por conflito bélico. É preciso enxergar os outros campos de batalha em que a morte também se faz presente. A fome é tão letal quanto um fuzil, só que ela mata de uma forma lenta e silenciosa. A ausência de liberdade também é mortífera, atrofia o ser, a criativa, a expressão dos sentimentos. O homem sem liberdade é um pássaro sem asa, não alça voo algum. Roubam-lhe até o direito de sonhar e de ter esperança…

    O Velho Mundo mais uma vez é banhado em sangue. É longa a peregrinação dos refugiados com o destino naufragado na fome, no frio em busca de um canto de paz. Há um padecimento que se estende por uma vida inteira. O poder armado do ódio sempre leva vantagem sobre a resistência dos famintos. Por isso que o trabalho de humanizar a humanidade deve ser permanente. O amor tem que ser eternamente vigilante. A ternura precisa ser cultivada continuamente. Veja o coração dos homens que não conhecem o amor!

    No livro “Os Irmãos Karamázov” de Fiódor Dostoiévski, encontramos a seguinte passagem:

    “No realista, a fé não nasce do milagre, mas o milagre da fé. Se o realista adquire a fé, deve necessariamente, em virtude de seu realismo, admitir também o milagre. O apóstolo Tomé declarou que não acreditaria enquanto não visse; em seguida, diz: ‘Meu Senhor e meu Deus!’ Fora o milagre que o obrigara a crer? Muito provavelmente não, mas ele acreditava unicamente porque desejava crer; talvez tivesse já a fé inteira nas dobras ocultas de seu coração, mesmo quando declarava: ‘só acreditarei depois que tiver visto’”.

    Ainda acredito no ser humano, apesar de tudo. Ainda acredito na revolução permanente que expõe o amor como a força capaz de sedimentar a paz. Ainda acredito nesta marcha em direção aos menos favorecidos. Tenho fé no que vi em Petrópolis: ações solidárias para ajudar a quem precisa sem distinção de etnia ou classe social. A solidariedade na corrente do Bem.

    Na Cidade Imperial, houve um estrago provocado por uma enchente que não difere muito de uma guerra: 232 pessoas foram mortas, 5 ainda estão desaparecidas e 1.117 pessoas desabrigadas. No livro “Amor à Maneira de Deus”, o Padre Júlio Lancelloti nos fala:

    “O que as tragédias nos revelam não é a ausência de Deus, e sim nossa negação de sua presença histórica. Quem permite que coisas ruins aconteçam somos nós mesmos.”

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