• Crônica do Ataualpa: Além dos danos materiais

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  • 27/02/2022 08:00
    Por Ataualpa Filho

    Para reconstruir uma cidade após uma guerra, ou que tenha sofrido algum terremoto, ou outra tragédia provada por fenômeno da natureza como a que Petrópolis sofreu com as chuvas em 15/02, não basta reparar os danos matérias, nem somente retomar o fluxo econômico que move o comércio, é necessário olhar para o interior dos sobreviventes. Há um estrago emocional e psicológico imensurável, principalmente quando há perdas de entes queridos. Muitos dão graças a Deus pelo fato de não ter perdido a vida, mesmo tendo perdido o meio de sobrevivência.

    Fiquei sensibilizado quando vi uma mãe procurar a secretaria da escola pública em que trabalho para solicitar um cartão de passagem para o filho. Sem que ninguém pedisse explicação, porque é um direito do aluno, ela falou:

    – Quando passei a trabalhar com aplicativo, deixei de pedir cartão de passagem, porque eu trazia e pegava ele aqui pra levar pra casa. Mas perdi o meu carro na enchente, agora ele vai precisar vir de ônibus, até eu arrumar a minha vida de novo…

    Muitos recomeçarão a vida do marco zero. Para esse renascer das cinzas, dos escombros, é fundamental o apoio de parentes e amigos. Vejo com empatia o trabalho voluntário dos profissionais que atuam no âmbito da Psicologia, da Assistência Social. Muitos estão oferecendo ajuda no processo de resgate da autoestima, do fortalecimento da coragem, do ânimo, na reestruturação dos primeiros passos da reconstrução de um patrimônio que, de repente, desceu por água abaixo…

    Pelas ações solidárias, pelo trabalho voluntário, é fácil constatar que “o povo é que acolhe o próprio povo”, ou seja, a partilha do pão entre os menos favorecidos é mais frequente; “onde come um, comem dois.” Fica presente o velho postulado do coração de mãe: “sempre cabe mais um”…

    Quando a ajuda mútua aparece como a “tábua de salvação”, a omissão do Estado é mais visível. Até entre os considerados “lumpemproletariados”, ou seja, os vistos como “escória da sociedade”, há gestos de companheirismo, de partilha…

    Nas horas emergenciais do acolhimento das pessoas que ficaram ilhadas pelo deslizamento de barreiras na enchente de 15/02, o trabalho voluntário dos motociclistas foi de extrema importância. Subiam os morros com água, mantimentos, agasalhos, quentinhas. Com as ruas bloqueadas, somente as motos passavam para levar alimentos aos desabrigados. Era um “delivery” solidário sem aplicativo.

    A conta da omissão do Estado é paga com a vida de pessoas mais necessitadas. A miséria provocada pela desigualdade social se agrava pela ausência de uma política de prestação de serviço que possa capacitar a população carente para o mercado de trabalho, pois há interesse em manter a prática assistencialista como mecanismo de manipulação eleitoreira. Em outras palavras, a miséria é vista como um celeiro de votos, não importa que seja de famintos e/ou desempregados.

    Em época de eleição, as áreas afetadas por enchentes são as mais visitadas por políticos atrás de voto. Depois do pleito eleitoral, não retornam às comunidades. Na teoria do assistencialismo político, é preciso manter as carências para nutrir a demagogia das promessas de campanha.

    Em Petrópolis, tenho conversado com amigos e amigas que, na infância, vivenciaram o final da segunda guerra mundial, que guardam lembranças da enchente de 1945 e de tantas outras que ocorreram na Cidade das Hortênsias. Hoje atravessam uma pandemia, veem pela televisão o prenúncio de uma terceira guerra e lamentam a morte de mais de duzentas pessoas soterradas na cidade que tanto amam. Uma amiga me disse: “olho pro tempo, vejo o passado como uma pintura desbotada pendurada na parede”…

    Um amigo que, por recomendação médica, ainda trabalha pela força interior que carrega, também me fez pensar. Eu o encontrei próximo ao final da rua do Imperador. Em alguns minutos de prosa, lamentando o momento vivido, disse-me:

    “Acho que a chuva de 45 foi maior do que essa que caiu na terça-feira. Vi essa rua muito mais cheia. Naquela época, não morreu tanta gente, porque a população não era tão grande assim. Não havia esses prédios todos, a Catedral ainda estava em construção. Depois que o pessoal começou a fazer casa onde não deve, toda chuva aqui faz estrago…”

    Gosto de conversar com essa geração que tem mais de oitenta. A vivência narrada com a sabedoria assimilada pelo tempo transforma-se em lição de vida…

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