Crônica do Ataualpa: A opção pela maçã

  • 16/jan 08:32
    Por Ataualpa Filho

    Em pleno século XXI, ainda estamos optando pela maçã, trocando o paraíso pelo caos. E continuamos colocando a culpa na sedução da serpente, sem assumir os nossos próprios atos.

    Temos que admitir que a vida na Terra torna-se cada vez mais difícil em função das ações humanas. Hoje o grau de esclarecimento sobre os princípios éticos são suficientes para que o discernimento entre o bem e o mal seja feito com nítida clareza. O avanço do conhecimento científico também expõe claramente a deterioração do planeta pelas mãos do homem.

    A opção de viver o paraíso na Terra deixa de existir à medida que a vaidade e a ganância passam a mover as atitudes dos seres humanos no ambiente em que vivem. Enquanto existir a exploração do homem pelo próprio homem, a possibilidade de haver paz na Terra será nula. Em uma estrutura escravista, não há democracia. A desigualdade social está na raiz dos entraves de todos os sistemas governamentais. A fome é corrosiva. Como sobreviver sem o alimento?…

    A hipocrisia que emana das falácias políticas é desvelada quando não se constata, na realidade, o que é proferido em discursos usados para ludibriar a boa fé da população.

    A sinceridade que corre pelo fio da verdade torna-se um espelho que reflete o comportamento de uma sociedade que ainda vive na relação entre Caim e Abel, irmão matando irmão por motivos fúteis. Quantos homicídios já foram praticados por causa das drogas? Quantos feminicídios foram executados por ciúmes? Quantas guerras e brigas entre vizinhos ocorreram por demarcação de terras?…

    Outro fato de visível constatação está relacionado à organização do crime que demarca território, estabelece hierarquia e já exerce ingerência política para obter influência na gestão pública, visando à impunidade. Reafirmo: hoje a opção pela maçã é calculada e estrategicamente organizada. O caos nosso de cada dia se avoluma por uma rivalidade radicalmente polarizada que inviabiliza a opção pelo bom senso, pelo equilíbrio, pelo diálogo sem a acidez do ódio. Lamentavelmente nos deparamos com os frequentes fracassos das ações diplomáticas nas tentativas de estabelecer acordos de paz. É uma lástima ver a vitória da intransigência. Como são pequenos os homens que não conseguem se desprender do orgulho!

    Desde o período de jovem universitário que me coloco contra a ideia de que “o inferno são os outros”. Se eu mudar, “o outro” muda; porque sou “o outro” do outro. Por isso sigo dizendo: se não há paz dentro de nós, não haverá paz entre nós.

    A utopia é a outra margem da realidade. Não posso abdicar dos meus sonhos, uma vez que a realização deles depende da quebra dos paradigmas que seguem na linha do “olho por olho dente por dente”. Por essa razão, é que o amar é um ato revolucionário. O paraíso perdido consiste no instante em que o homem deixa de ser humano. Por isso, o éden começa na paz interior. E somente pela consolidação do bem comum, é que teremos o paraíso na Terra. Nenhum anjo caiu, nós é que somos ingratos. E continuamos assim por meio das ações que ferem a natureza, que escravizam os menos favorecidos.

    Nenhum animal foi criado para viver em cativeiro. A liberdade plena envolve todos os seres. O paraíso é para todos, mas depende da paridade dos direitos e deveres para existir. Estão nos corações as algemas que prendem os homens aos bens materiais. Tive que concordar com uma frase que li em um aplicativo: “os problemas sociais estão na baixa humanidade.”

    Não vou desistir da ternura. Não vou desistir da poesia. Parei de lamentar os meus fracassos, pois eles só existiram, porque não desisti de tentar. Continuarei expondo o que penso, seja em prosa, ou em verso, embora saiba que a convicção ideológica maior se constata nos atos. O Cristianismo é fundamentado no Amor e na prática da caridade. É um equívoco querer usar a prática cristã com o propósito de ascender socialmente. Qualquer enriquecimento pela exploração da fé será ilícito.

    Para evoluir e revoluir são necessários movimentos interiores: despir-se das vaidades, abrir o peito em respeito à vida, deixar o Amor Caritas transbordar dentro de si em atos solidários para servir incondicionalmente a quem mais necessita. “Amar e ser amado” é a maior revolução. É uma pretensão infundada querer mudar o mundo sem conseguir mudar a si mesmo. A trava está nos nossos olhos.

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