Crônica do Ataualpa: A Ciência e a fé

10/jan 21:53
Por Ataualpa Filho

Hoje desejo compartilhar algumas situações que me levaram a refletir sobre Ciência e fé, pois, neste período pandêmico, pude testemunhar casos em que, ao lado dos esforços de equipes médicas, havia grupos de orações nas intenções da recuperação da saúde de familiares e amigos. Com certeza, um número grande de pessoas esteve em situação semelhante: implorando a Deus pela saúde de um ente querido. Não nego, fiz isso várias vezes.

Precisamos admitir que a concepção do homem como um ser biopsicossocioespiritual requer uma análise minuciosa para que se possa ter uma visão mais ampla da natureza humana. Em todas as civilizações, identifica-se uma ritualização de caráter místico. É raro encontrar um povo sem um culto de essência metafísica. Fato este que nos leva a concluir que o ser humano é portador de uma espiritualidade que o leva à adoração e, até mesmo, à criação de deuses para ter uma prática religiosa. Até hoje se cria “bezerro de ouro”.

Quando falo de fé, quero destacar uma conduta individualizada. Ao fazer referência à espiritualidade, quero evidenciar uma característica inerente ao ser humano. E, quanto à religião, eu a vejo diante de um comportamento coletivo, pois subentende a existência de templos e ritos, uma vez que não há uma religião praticada por uma só pessoa, que tenha um deus só para si, exclusivo. Portanto, temos que reconhecer a necessidade de abordar esse assunto dentro de um raciocínio coerente.

A Ciência carrega consigo um legado de experiência que consolida, comprobatoriamente, conceitos que a razão humana domina, pois são fundamentados em estudos que proporcionaram um processo evolutivo capaz de oferecer uma maior expectativa de vida e melhor qualificada. Mas há momentos em que os recursos medicinais deparam-se com as suas limitações. Quando se esgotam os recursos que estão ao alcance da Medicina, a esperança, alimentada pela fé, segue à espera de um milagre. Nessas ocasiões em que ficam evidentes os nossos limites, os joelhos se dobram pela força da fé que exige humildade e confiança em um Ser Onipotente. Os joelhos também se dobram em agradecimentos.

Vale ressaltar a existência de pesquisas que constataram a evolução de pacientes desenganados que obtiveram a cura, quando a equipe médica já havia esgotado todos os recursos disponíveis. Em tais casos, a fé e a espiritualidade sempre são citadas como forças intercessoras na recuperação da saúde.

Não vejo incompatibilidade entre a fé e a Ciência. A crença em Deus não impede o reconhecimento do desenvolvimento científico. A incredulidade do negacionismo não se sustenta diante do óbvio. Nesta pandemia, a Ciência nos deu uma vacina em tempo recorde. E, com isso, salvou milhões de vidas. Estamos saindo desse caos pela dedicação de cientistas que se desdobraram em benefício da humanidade. Não reconhecer o trabalho dos profissionais de saúde é uma cegueira de consciência, uma insanidade. E, pela Ciência, é possível também constatar a perfeição da criação do universo. Somente um Ser Onisciente é capaz de criar algo que está além da compreensão humana.

A fé não é exclusividade de nenhuma religião, nem é uma mercadoria a ser comercializada. Quem a explora comercialmente comete um crime. O charlatanismo deve ser punido severamente. Querer se pautar na religião para negar a evolução da Ciência, para rejeitar os procedimentos de combate à proliferação de doenças é outra insanidade. A fé e a Ciência nos permitem enxergar a dimensão de um Criador Onipotente e Onisciente.

Até por questões humanitárias, pessoas sem prática religiosa, consideradas agnósticas, tiveram a oportunidade de expressar desejos, expectativas positivas em função da recuperação da saúde de parentes e amigos. Essa energia emanada positivamente exerce uma influência que tem sido matéria de estudos. O pensamento positivo é também inerente à fé. A verdade é que a Ciência ainda tem muito que avançar para compreender a complexidade da natureza humana, pois não se restringe aos aspectos biológicos. Existe uma dimensão espiritual que também precisa ser estudada.

A fé, a espiritualidade ampliam o ser humano, que não pode ser visto apenas como um conjunto de vísceras que perambula neste mundo. Vamos sair desta pandemia com mais oportunidades para reconhecer a nossa efemeridade, as nossas limitações. Teremos também mais oportunidade para agradecer a misericórdia divina na prática da caridade que se revela no amor ao próximo. A fé tem as suas raízes no Amor Supremo.

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