Confissões de um vacinado

02/maio 08:00
Por Ataualpa Filho

Embora tenha tomado somente a primeira dose, já foi o suficiente para sentir um certo alívio por diminuir a probabilidade de ter as severas consequências da Covid-19. Mas essa sensação de alívio não inibe a profunda tristeza ao ver o número de óbitos causados pelo novo coronavírus. Mais de 400 mil brasileiros mortos. A tristeza aumenta, porque temos a certeza de que grande parte dessas mortes poderiam ser evitadas se o país tivesse um sistema de saúde livre das ações ilícitas, lesivas. A corrupção é responsável por grande parte desses óbitos.

O gif (GraphicsInterchangeFormat) do jacaré dançando, que viralizou nas redes sociais, temrepresentado a alegria de várias pessoas que ironicamente fazem alusão a uma reação negativa contra a campanha de vacinação. Se, no início, tivesse ocorrido uma mobilização maior para aquisição de vacina, o número de morte também seria menor.

O trágico se consolidou pelo acúmulo de erros e pela incredulidade na eficiência dos procedimentos orientados pela Ciência. Lamentamos muito essa resistência, essa sabotagem oficial diante das orientações dos profissionais de saúde. Há um grande número de pessoas que se negam a tomar a vacina.

A minha convicção sobre a eficácia da vacina está fundamentada também em caso que pude testemunhar de perto: um casal de amigos, por quem tenho um grande carinho, contraíram o vírus e só ficaram assintomáticos, porque tinham sido vacinados. Ambos apresentam comorbidades que, certamente, não resistiriam às consequências da Covid-19. O número de mortes por essa doença, entre idosos com mais de 90 anos, vem caindo significantemente, porque muitos já estão imunizados.

A politização da pandemia é responsável por grande parte dessa rejeição à vacina. Cresceu o negacionismo. Lideranças políticas menosprezam medidas preventivas, contrariam orientações médicas. Entre os lamentáveis números estatísticos dos óbitos, encontram-se também aqueles que faleceram por não seguir as orientações preventivas. Mas, nem todas as causas podem ser atribuídas à classe política. Parte da população também tem ignorado as evidências da importância do uso de máscara, do álcool em gel, em síntese, não levam a sério as precauções para evitar o contágio.

Em Petrópolis, já contabiliza mais de 955 óbitos em decorrência da Covid-19. Já são mais 31.806 infectados. Contudo, 11.559 pessoas conseguiram superar essa doença. Não há como banalizar a morte e olhar para esses números apenas como dados estatísticos. São vidas perdidas, são famílias desestruturadas, são perdas irreversíveis…

Espera-se que, após esta pandemia, o homem esteja mais humano. Não podemos deixar de esperançar. Esse exercício da fé é antidepressivo, fortalece a resiliência, aumenta a resignação sem levar ao comodismo, nem ao desânimo. Quem carrega dentro de si um pouco de consciência social sabe que até as plantas seguem o caminho da luz.

A defesa da vida se coloca em primeiro lugar, porque é o bem maior que nós temos. Basta ter um pouco mais de sensibilidade humana para entender que a indignação é inevitável. Não é possível aceitar pacificamente tanta indiferença diante do clamor de um povo que não quer morrer à míngua.

A Covid-19 levou a humanidade a refletir sobre a nossa insignificância. O achatamento da curva epidemiológica depende de cada um de nós. Devemos usar corretamente os equipamentos de proteção individual (EPI). O surto da ignorância é tão nocivo quanto o vírus.

Não há espaço para o xiitismo de direita nem de esquerda. A teoria do “quanto pior melhor” não ajuda em nada, apenas revela uma insensibilidade social, pois quem mais sofre neste caos é a população menos favorecida.O sentir-se feliz com a desgraça dos outros é uma perversidade. Por isso, é preciso distanciar o partidarismo político neste combate à pandemia. O povo deve andar de mãos dadas pela paz e contra o ódio. É o momento em que a poesia surge para alimentar a esperança e a arte ecoa os gritos de liberdade. Ainda vale o que disse o Profeta: “Gentileza gera gentileza”.

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