Ciranda de lágrimas

  • 03/02/2016 11:50

    Brinquei com sentimentos (e deles fiz poemas). Ironizei a dor e desfiei rosários – e de conta em conta eu fiz de conta que tudo era fantasia; engano temerário.  Manchei os meus escritos (choro indisciplinado) após luta acirrada, se esvaiu sem fim…  E ao cometer o cúmulo de ser anjo alado desprendi-me do corpo quintessenciado em piruetas mil no céu da pátria amada. Meu leito eram nuvens bordadas de luz. Eternizei o amor e dele fiz auroras, cascateei meus vales em imensidão. Flori meus prados, várzeas e colinas densas e em cada borboleta cor de violeta raiava liberdade perfeita harmonia, por entre as cigarras e as andorinhas bela sinfonia em clima de igualdade, sempre solidárias – puras em irmandade levando néctar e flores para o pavilhão. Por vezes em combate sob mãos armadas, cirroses ambulantes outras pelo chão eu descerrei fileiras baionetas mil, arremessando rosas (cicatriz, feridas) e explodindo paz aos corações sangrados. Fui mago e pajé ao mesmo tempo enfeitiçando a tudo que podia imaginando a doce convivência até do sofrimento brotou poesia. Perdoe povo faminto – de sede e de justiça não o condeno por mal soletrar falta-se tudo na terra adorada como um livro poderá comprar? Se se recorre à espiritualidade dizem que tu (a plebe rude) és cultura menor.  Crer é preciso, nem que seja estímulo, sei bem ser ousadia ou tímida saída, pois, lá se vão mais de quinhentos anos e o rincão sagrado é humilhado, e mais que isso: é loteado, saqueado, dissecado e discriminado. Tristes rimas sem propósito. Fiz poesias em sã consciência mesmo sabendo sermos campeões analfabetos do Terceiro Mundo à bancarrota graças à inflação. E peço e clamo em meus vãos poemas e me redimo ante o povo aflito e eu me curvo e peço e suplico, aos céus, aos homens, a quem de direito; misericórdia antes que tardia, já não suporto este nó no peito, mas, a mim permitam, se possível for, pintar meus dias, escrever poemas em meio ao sangue e falta de amor.

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