Cinebiografia explora obra de Fassbinder com o frenesi do diretor

05/set 07:15
Por Luiz Zanin Oricchio / Estadão

O cineasta alemão Rainer Werner Fassbinder (1946-1982) dizia que seu dia tinha 26 horas. Quando alguém lhe recomendou descansar um pouco mais, respondeu que teria muito tempo para dormir depois de morto. Não demorou muito. Fassbinder se foi com 37 anos, vítima de uma overdose, e deixou atrás de si uma obra imensa, mesmo em termos numéricos: 43 filmes, além de 24 peças de teatro e duas séries de TV. Uma delas, Berlin Alexanderplatz, adaptada do romance de Alfred Döblin, com duração de 16 horas. Não surpreende que vida tão intensa seja retratada de modo frenético na cinebiografia Fassbinder: Ascensão e Queda de um Gênio, disponível na plataforma Cinema Virtual.

No filme, dirigido por Oskar Roehler, Fassbinder é interpretado por Oliver Masucci. Tem problemas. O ator parece muito velho para o personagem assim que a história começa, quando Fassbinder é diretor de teatro e ainda não havia descoberto a potencialidade do cinema. Mesmo assim, o ator se assemelha muito ao personagem, em especial na intensidade doentia e na relação trágica mantida com o mundo.

Ao abraçar o cinema, com O Amor É Mais Frio que a Morte, em 1969, Fassbinder, vindo do teatro, descobre a arte ideal para se tornar o grande retratista da Alemanha do pós-guerra, o que fez em obras como O Casamento de Maria Braun, Lili Marlene e Lola. Ia do retrato social, como em Berlin Alexanderplatz, ao melodrama de Lágrimas Amargas de Petra von Kant. É artificial separar essas vertentes – a política estava no melodrama e vice-versa. Não se trata de confusão. Apenas admissão de que a experiência humana não cabe em rótulos, categorias ou gêneros cinematográficos. Fassbinder era caótico o suficiente para atravessar fronteiras sem qualquer dificuldade.

No entanto, o filme não se preocupa tanto com questões estéticas. Procura retratar a trajetória pessoal de um criador atormentado e nada romântico. Desde o teatro, Fassbinder mantinha atrás de si um grupo, uma corte de amigos e amigas, atores e atrizes, agentes, agregados e aproveitadores que viviam quase em comunidade. O consumo de álcool do grupo só poderia ser medido em hectolitros. Depois entrou em cena a cocaína que, consumida em doses industriais, precipitou o fim do artista.

De raspão, o filme passa pelo período efervescente da política europeia, com grupos extremistas como o Baader-Meinhoff, na Alemanha, sendo dizimados e seus líderes “suicidados” na prisão. Esse contexto tem repercussões na vida e obra do cineasta. Mas as tensões maiores de Fassbinder são vividas no interior do seu grupo fechado, com brigas por papéis em novos filmes, favores sexuais e atribuição de cotações aos atores, o que aumentava a rivalidade além do suportável. A disputa pela atenção de um artista transformado em guru de seita esfacela relacionamentos e cobra seu preço em vidas. O próprio Fassbinder era autodestrutivo e semeava o caos ao seu redor. Era algoz e vítima ao mesmo tempo.

Numa existência transformada em panela de pressão permanente, a centelha de gênio que o habitava o fazia trabalhar muito e rapidamente, com excepcional qualidade. Vivia a pensar, escrever e filmar, enquanto passava de um amante a outro. Funcionava turbinado por cocaína em tempo integral. O filme procura mimetizar, em sua estrutura, esse modo de vida lisérgico, destinado a ser muito breve, e trágico em seu limite. Em conformidade, a estética tende ao kitsch, é veloz, teatral, mas de teatro de cabaré.

Na composição desse impulso rumo ao abismo, não se pode esquecer o inconformismo do artista com a Alemanha, seu país, derrotado na guerra que provocou e causou a morte de milhões de pessoas. A ambição de Fassbinder – que não chegou a realizar – era retratar integralmente sua pátria, do passado ao seu tempo atual, por etapas e em filmes separados. Não foi possível completar o quadro, mas o que deixou é bem significativo.

Querelle, adaptado de Jean Genet, foi seu último trabalho e testamento – e não por acaso é a referência maior de Oskar Roehler, tanto visualmente quanto em citações de cenas. Não por acaso, também, é nesta obra que Jeanne Moreau interpreta a canção de Peer Raben, cujas palavras – “Todo homem mata aquilo que ama” – soam como epitáfio de Rainer Werner Fassbinder. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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