Cine Muda: Por Uns Dólares A Mais, Sergio Leone

09/abr 11:30
Por Maitêus*

No filme Por Uns Dólares A Mais (1965), Clint Eastwood, na primeira cena em que aparece, está ao lado de seu cavalo, fumando um cigarro, utilizando um poncho com desenhos que remetem às culturas indígenas assim como o tabaco e a vestimenta, que são também de origem indígena – mas o personagem que as utiliza é branco. Esse fato pode parecer marginal ou irrisório dependendo de onde está inserido, porém não pode ser ignorado quando todo o filme e neste caso, todo o gênero cinematográfico em que está inserido, utiliza como único cenário as terras indígenas, que foram roubadas pelos estadunidenses, inclusive, todo este gênero cinematográfico se passa também no período histórico em que esse roubo se efetuou, servindo ainda como propaganda para a ideia de que este roubo se deu de forma legítima e desejável, já que os habitantes originais não passariam de violentos selvagens. É esta a história resumida do plano de fundo que permeia os filmes de western ou de velho oeste, uma história violenta não apenas por conta dos duelos, mas também por conta do contexto.

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No entanto, um outro roubo aconteceu. Dessa vez foram os Estados Unidos que foram surrupiados de um de seus bens. Vieram os italianos, ou melhor, ao menos se deram ao trabalho de sair de seu continente, pegaram este gênero cinematográfico legitimamente americano – já que conta a história de um país e das pessoas deste continente – e resolveram reproduzir todo seu estereótipo sem nem ao menos pisarem nos Estados Unidos para esse fim, gravando as cenas em cenários europeus que simulavam os tradicionais desertos do Oeste. Não que alguém nos Estados Unidos já tenha reclamado algum dia, o western por lá estava em decadência quando surgiu a versão europeia, então já não se produziam mais tantos filmes como no apogeu do gênero. A resposta do outro lado do Atlântico foi considerar esses filmes, a priori, como de segunda categoria enquanto se vangloriavam da influência mundial que seu cinema exercia a ponto de serem gravados na Itália e Espanha filmes falados em inglês contando a história dos Estados Unidos. Enquanto não provou seu valor, enquanto não cativou o público mundial, principalmente o público estadunidense, esse gênero não foi visto com bons olhos, como cinema de primeira. Mas quando assistimos aos filmes originais de western, consagrados na figura de John Ford enquanto diretor e depois olhamos para a influência do gênero na cultura pop, percebemos que o que se consagrou mesmo como referência de western foi a versão spaghetti, mais recente, mais parecida com o cinema contemporâneo – e talvez, por isso, mesmo mais familiar. São as músicas, os planos detalhe, os enquadramentos por baixo da perna dos duelistas, as entradas arrogantes no saloon, o silêncio que vez ou outra se estabelece de forma dramática, tudo isso com um plano de fundo árido e um figurino exagerado na roupa de couro, os elementos que reconhecemos de prontidão como sendo característicos do western.

Todavia, uma característica que parece ter ficado um pouco para trás, por conta dessa primazia de influências da versão europeia, foi a representação do indígena em tela, por uma razão bastante simples. Pelo que parece, apesar de estarem acostumados a levar atores estadunidenses para filmar os filmes na Europa, essa logística só fazia sentido com os personagens principais. Filme nenhum carrega consigo seus figurantes para outro continente, muito mais quando se trata de um gênero caracterizado pelo baixo orçamento. Desta feita, sendo o indígena norte americano de um fenótipo específico e restrito a esta região, e também por nunca representaram papel de destaque nos westerns (basta lembramos de Gerônimo no filme No Tempo das Diligências (1939), um personagem sempre citado como muito cruel, mas que em momento algum é visto em tela), achou-se de bom grado simplesmente excluir esta figura das histórias, o que de certa forma acabou por tornar o gênero menos racista do que ele era, já que agora sem falar sobre indígenas, também não se falava deles de forma depreciativa. O que obviamente ainda é muito problemático, já que a marcha para o Oeste – período histórico dominante nos filmes de western – só se deu por conta da presença indígena no território e como forma de expulsá-la e “civilizar” a região.

Entretanto, essa ausência não impede totalmente a versão europeia dos western de ser racista com os indígenas (não dava pra esperar menos dos fundadores do etnocentrismo). Em For a Few Dollars More, clássico da trilogia dos dólares de Sergio Leone, o vilão do filme tem características que indicam uma origem mexicana, um sujeito de enorme crueldade e indiferença pela vida dos outros, traidor dos seus próprios companheiros e por fim um estuprador que leva o apelido de – advinhem – Índio. Evidente que não é à toa, e é de se esperar mesmo que os grandes fãs dos clássicos western fossem reproduzir e serem influenciados pelo pensamento que esses filmes defendiam, até porque para se tornarem fãs do gênero a ponto de quererem reproduzi-lo, mesmo depois do fim de seu apogeu, só sendo mesmo assíduos espectadores destes filmes.

Não afirmo, no entanto, que seja um gênero desprezível por conta dessas características. O racismo presente nos filmes e resultante do período histórico que eles retratam é, sim, desprezível, mas a forma de contar histórias que foi fundada no western clássico e aprimorada no western spaghetti é de uma maestria sem igual. For a Few Dollars More é um filme muito envolvente e de uma construção minuciosa do roteiro que impressiona, é um filme que brinca o tempo todo com a expectativa mais evidente e deturpa as possibilidades, estabelece parâmetros para além do óbvio e joga com as motivações dos personagens: pessoais e coletivas, a curto e a longo prazo, impulsivas e premeditadas.

Um ótimo exemplo desse jogo de expectativas está presente na cena em que o Coronel Douglas Mortimer (Lee Van Cleef) entra no saloon e se depara com o bando de Índio, vai até o integrante corcunda do bando e numa atitude visivelmente suicida, já que está em menor número diante de um bando tão violento, risca um fósforo nas costas do rapaz, de forma a depreciá-lo. O rapaz o encara com muita raiva, estabelece-se uma tensão entre os 4 ou 5 vilões e o mocinho. Estão a ponto de se enfrentarem, mas os homens, depois de encará-lo e conter a vontade de reagir à provocação, avaliam bem a questão e simplesmente deixam o saloon. O protagonista os encara enquanto se retiram, com uma expressão de quem prova um ponto. Os bandidos não reagiram à provocação porque tinham algo maior a fazer logo em seguida: simular o roubo do banco.

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*Maitêus é petropolitana, formada em História pela Universidade Católica de Petrópolis(UCP) e aluna do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Maitêus explica que a coluna ‘Cine Muda’ surge como uma forma de popularização da “sétima arte”, inserindo o leitor/internauta na história do cinema.

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