Cine Muda: Persona, Ingmar Bergman

02/abr 08:00
Por Maitêus *

Conheci Persona – filme de 1966 dirigido pelo sueco Ingmar Bergman – através de uma aula de roteiro na faculdade, enquanto o professor descrevia o filme falando sobre a personagem Alma, me veio à mente a imagem de uma enfermeira idosa, mesmo o professor tendo dito que achava as duas protagonistas parecidas, e eu ter imaginado Elizabeth, a outra protagonista, como uma mulher jovem. Enquanto não as avistei pela primeira vez na tela, ainda achava que uma delas era idosa. O que me faz começar a análise deste filme arrebatador e cheio de imagens potentes através deste relato pessoal anedótico é o fato de a própria Alma enunciar, logo no início do filme, que ela deveria ser uma enfermeira mais velha pois não acreditava estar preparada para enfrentar a personalidade de Elizabeth Vogler. E a autoimagem que Alma desvela e desenvolve ao longo da história é sem dúvidas um elemento central nesta trama.

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Neste filme nos encontramos dentro de uma peça de teatro metafórica, ambiente familiar para Elizabeth, onde ela exerce pleno domínio já que passou grande parte da vida atuando. Porém, desta vez, diferente do que estava acostumada, Elizabeth acreditada ser apenas uma espectadora assistindo ao monólogo de sua enfermeira. Elizabeth é uma atriz que não demonstra nenhum carinho pelo próprio filho e que entrou em colapso enquanto atuava, decidindo voluntariamente parar de falar. Parece ser por conta de sua experiência representando diversos personagens que ela resolveu se exilar das interações humanas, talvez por acreditar que nada do que faça seja sincero, que não passe de uma atuação mas, mesmo com esse esforço radical de se livrar das encenações em busca da verdadeira Elizabeth, ainda assim ela não conseguiu sair do teatro, tão pouco do palco. Ao se colocar na condição de eterna ouvinte, a mulher cria um cenário perfeito e tentador para que sua enfermeira fale sem parar e, como Alma mesmo admite, sempre foi boa ouvinte mas nunca teve este espaço privilegiado de escuta. O assunto que mais tinha a dizer, provavelmente como qualquer pessoa, era sobre ela mesma, passando então a confessar seus mais profundos segredos que acabam por revelar suas incoerências, de modo que suas revelações servem para que o público conheça a enfermeira, servem a enfermeira para reconhecer abertamente a personagem que encena em seu dia-a-dia e servem também para Elizabeth perceber que talvez não exista um sujeito sequer que não seja um personagem de teatro em tempo integral.  

O colapso vivenciado pela enfermeira daí em diante talvez signifique para Elizabeth uma espécie de catarse, que a leva a enxergar outra pessoa na mesma condição que a sua, de modo que ela poderia investigá-la. Mas Elizabeth já enfrentou a sua queda e ao longo do filme vivencia um lugar de conforto desesperançado. Quem tem que lidar com o drama da

dificuldade de definir a própria identidade é a enfermeira, e o filme sugere o tempo todo uma fusão entre as duas personalidades, um encontro violento, onde uma se depara com a outra como se olhassem para um espelho. A enfermeira parece não ter escolha, assim como a escolha de Elizabeth foi não escolher mais, não opinar, não reagir, não existir. Visualmente o filme sugere essa incapacidade decisória de Alma na cena em que ela acorda de noite para passar creme no rosto e enquanto fala em direção a câmera, ajoelhada na cama, temos a impressão de que ela não tem pernas, não pode mais andar para onde quiser, só pode ser conduzida. Elizabeth, mesmo sem falar nada, a conduz muito bem. Ou será que ela mesma se conduziu enquanto projetava todos os seus medos naquela mulher calada e observadora?

O onírico é muito bem representado no filme já que grande parte dele é um delírio de Alma. Em uma cena específica o ambiente de sonho é muito bem representado, quando Elizabeth surge de uma neblina que ocupa o quarto da enfermeira, caminha até Alma que está de costas e figurativamente se funde a ela, fazendo um movimento de cabeça de forma a cruzar seus pescoços, simbolizando uma troca de corpos.

É interessante também analisar o desenvolvimento psicológico de Alma ao longo do filme. Poderíamos supor que tendo a maioria das falas ela seria a protagonista natural da história, mas seu protagonismo está muito mais centrado nas transformações que enfrenta do que necessariamente na quantidade de falas, até mesmo porque contraposta a ela temos Elizabeth, tão protagonista quanto e ainda assim sem pronunciar uma palavra ao longo do filme todo. Alma trilha um caminho trágico no convívio rotineiro dos cuidados com sua paciente, encontra nela uma cumplicidade nunca enunciada pela ouvinte, se sente confortável para se expor como se estivesse com uma amiga de longa data. É impressionante como o silêncio da atriz é realmente convidativo, talvez qualquer pessoa se sentisse tentada a continuar contando sobre a própria vida caso a ouvinte não lhe repreendesse independente dos absurdos que viesse a descrever, mesmo que a própria oradora sinta vergonha daquilo que confessa. Alma começa o filme numa postura bastante passiva, é apenas uma profissional cumprindo seu trabalho, em seguida encontra-se envolvata na relação com Elizabeth, mas amargurada após uma situação de quebra de confiança passa por uma tentativa de controlar toda a situação com a outra mulher – seu figurino representa muito bem essa vontade da personagem que, enquanto está numa tentativa de ascender à posição de dominadora da relação, utiliza uma capa de chuva de silicone e um maiô preto, quase encarnando a femme fatale dos filmes noir -, até que finalmente deságua no desespero descontrolado e delirante das próprias inseguranças.

Será que a enfermeira se tornou Elizabeth em definitivo ou foi Elizabeth que encontrou na em Alma as respostas que buscava em sua viagem para seu próprio interior? Se Elizabeth conseguiu seu objetivo foi ao custo do sacrifício de um cordeiro inocente – como o filme sugere com imagens soltas, evocando as influências trazidas da montagem soviética – a fim de expiar seus próprios pecados simbolizados no ódio que sentia do filho.

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* Maitêus é petropolitana, formada em História pela Universidade Católica de Petrópolis(UCP) e aluna do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Rio de Janeiro(UFRJ). Maitêus explica que a coluna ‘Cine Muda’ surge como uma forma de popularização da “sétima arte”, inserindo o leitor/internauta na história do cinema.

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