Cine Muda: O Estrangeiro, Orson Welles

04/jun 08:00
Por Maitêus *

É absolutamente gratificante assistir a um filme que mesmo funcionando de forma dependente em relação ao seu roteiro também é capaz de ser técnica e estilisticamente bem executado. Esse é O Estrangeiro de Orson Welles, um filme que se aproveita dos dramas históricos mais latentes do ano de 1945, ou seja, aqueles refratários da Segunda Guerra Mundial, sem com isso ser muito inovador, mas que faz com esses ingredientes bastante ordinários um grande filme.

A história de um ex-nazista ainda convicto escondido em qualquer parte do mundo depois que a Alemanha nazista foi derrota não é nenhuma grande invenção narrativa, essa ideia permeou muitos filmes nos anos que se seguiram ao maior conflito bélico da humanidade até que fosse substituida, principalmente em hollywood, pelos comunistas infiltrados provenientes do clima de tensão da Guerra Fria. A verdade é que havia um medo e um senso de heroísmo do lado vencedor da guerra. Mesmo os estadunidenses tendo participado muito pouco e contribuído de forma nada decisiva para o fim da guerra, exaltava-se em sua indústria cinematográfica as glórias militares de uma ofensiva aos 45 do segundo tempo que na prática servia mais para conter o avanço soviétivo do que necessariamente dar cabo à guerra.

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Vinha com esse heroísmo, por outro lado, um medo da insanidade incompreensível dos nazistas, que agora estavam escondidos ao redor do mundo (os que sobraram). O Estados Unidos, que até aquele momento tinha orgulho do seu histórico de imigrações, as europeias em especial, agora sentia uma angústia ao perceber que seus similares eram na verdade os grandes inimigos. Depois de anos combatendo a imigração chinesa e as populações nativas, taxando-os de selvagens, teve de assistir e foi obrigado a combater a maldade daqueles que julgava de igual valor. O racismo professado pelos nazistas não era tão diferente daquele praticado nos Estados Unidos, a diferença fundamental foi que um projeto de extermínio acelerado foi levado adiante na Europa. Encontra-se nesse espelho moral a chave pra entender o medo do infiltramento nazista na sociedade estadunidense, já que não era tão dificil para um nazista se passar por um homem de classe média daquela época, suas opiniões precisavam ser ligeiramente modificadas para que fosse plenamente aceito como um cidadão respeitável e Orson Welles explora bem essa possibilidade em uma cena específica de seu filme. Sentado à mesa de jantar, o grande vilão do filme faz um discurso ambíguo e cheio de mensagens subentendidas quando emite sua opinião sobre a situação alemã daquele momento, alguns meses após a derrota. Sua postura camuflada e ao mesmo tempo convicta nos ideais nazistas via a possibilidade de promover aos poucos um discurso de superioridade racial no espaço em que vivia, uma pequena cidade da costa leste americana.

Sr Wilson, o investigador de crimes de guerra do governo estadunidense, é o herói de hollywood. Dotado de uma frieza investigativa e de uma capacidade dedutiva quase que sobrenatural, este personagem serve sobretudo para tornar a história menos complexa, ao adiantar pensamentos e intuitos do seu rival que demorariam um pouco mais para se esclarecerem para o público, chegando a demonstrar essa habilidade de forma absurdo em uma cena em especial:ao olhar vagamente pela janela vai descrevendo os objetos que são tirados de uma maleta pelo escrivão da cidade sem os precisar olhar diretamente. Toda essa pureza moral, questionada em apenas um momento de todo o filme, torna este personagem bidimensional, de modo que seu carisma está concentrado no fato de ele servir de guia para o público, é ele quem dá respostas definitivas e nos alivia das incertezas, ao longo do filme vamos confiando e nos afeiçoando a ele, mas sua presença certamente torna o filme menos complexo.

Aliás, também são escolhidos para compor a personalidade do vilão elementos extremamente óbvios e marcados, mas que se faziam necessários naquele momento histórico. Ninguém em sã consciência desejava tratar o nazismo como algo complexo que deveria ser estudado em suas diversas características, estavam todos preocupados em combatê-lo e marginalizá-lo, preocupação que não deveria se perder com o passar do tempo. Mas talvez as abordagens sobre esse e outros temas complexos sejam mais relevantes se tratadas com menos maniqueísmo. De qualquer forma, tal qual em Jojo Rabbit, Bastardos Inglórios ou em Notorious, ver um nazista sendo humilhado e morto ao final de um filme sempre será gratificante.

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* Maitêus é petropolitana, formada em História pela Universidade Católica de Petrópolis (UCP) e aluna do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Maitêus explica que a coluna ‘Cine Muda’ surge como uma forma de popularização da “sétima arte”, inserindo o leitor/internauta na história do cinema.

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