Cine Muda: O Desafio, Paulo César Saraceni

30/jul 08:00
Por Maitêus

O Desafio é um filme brasileiro, lançado em 1965 e dirigido por Paulo César Saraceni e que está inserido no contexto do cinema novo brasileiro. Seu argumento e roteiro, escritos também por Saraceni são assustadoramente contemporâneos aos acontecimentos de seu lançamento, já que não havia nem um ano de instauração da vergonhosa ditadura militar no Brasil e mesmo assim o filme não só tem este momento político simultaneamente como tema e plano de fundo, além de tecer reflexões a respeito dos impactos que a ruptura democrática e a imposição de um golpe conservador burguês teve sobre o país e sobre seus agentes políticos.

Marcelo, o protagonista desta história é um jornalista que se pretende escritor. É também e sobretudo amante de Ada, uma mulher casada com um burguês dono de uma fábrica tecelã que se vê dividida entre este paralelo romance caloroso e sua estável e confortável vida burguesa. O protagonista, por outro lado, além de convicto de suas causas revolucionárias é também pertencente a classe oposto a de Ada, não tendo por sua vez a opção de transitar de forma apaixonada para um outro mundo, atitude que parecia interessar a sua amada, mas que no momento de acirramento da conjuntura política apagou-se o brilho de encanto pela classe proletária. Essa virtuosidade com que se relacionava politicamente Ada reflete-se também nas suas relações amorosas, relações que parecem ser parte de um tabuleiro de interesses, onde ela negocia seus sentimentos, suas motivações e seus medos. O desfecho e a decisão tomada pela mulher em relação aos seus amores ocorre numa belíssima cena dentro da fábrica do marido, em que temporariamente abandonada por ele a mulher se encontra num lugar barulhento, desagradável e tumultuado que se opõe ao seu confortável habitat natural burguês, solitário e calmo. Numa fuga desesperada e simbólica vemos pela última vez uma cena de Ada no filme, já que havia escolhido finalmente de que lado estaria e não era o lado do protagonista.

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Enquanto Ada passava por seus dramas internos e pequenos, Marcelo era consumido pelos megalomaníacos dramas nacionais e de classe. Não via sentido em discutir as questões que a amante apresentava, seu grande incômodo está no fato de Ada achar sem sentido a preocupação do rapaz com coisas tão distantes para ela, coisas que parecem imutáveis e que funcionam independentemente das vontades de sujeitos comuns como eles dois.

Por fim, como num sonho, o filme se desenrola através da enigmática conversa entre Marcelo e seu amigo que também se pretende escritor. De uma mesa de bar, conversando sobre filosofia, desenvolvem o papo falando sobre astrologia, política, até que chegam a casa deste amigo, onde tudo passa acontecer como que fora da realidade. O final não podia ser mais belo, simbólico e bem construído, o protagonista descendo as escadas de algum bairro do Rio de Janeiro, como quem desce de uma ilusão, abandonando de vez uma paixão impossível e também os delírios fugidios daqueles que pretende não se comprometer com as lutas da classe que pertence, ele volta ao patamar da realidade, ali onde nada está resolvido porque tudo está atravessado pelas complexidades do real.

O filme se caracteriza também por sua forma e conteúdo coerentes e comunicantes. Ao começar a assisti-lo, a sensação que se tem é de que a produção do filme além de amadora é também precária, que o diretor é inexperiente, e que os erros de continuidade e os tropeços na montagem não passam disso. Mas tudo isso, além de denunciar um estado de coisas não só da produção cinematográfica mas também do Brasil a época, é ainda enunciativo e proposital, é parte integrante daquilo que se pretende discutir. Não é por acaso que logo após uma das cenas mais imersivas do filme, em que canta-se Carcará em uma performance teatral, com palco e público, cena esta de aparente deslocamento, é que o filme se revela como manifesto, nesta cena os personagens com suas falas e cantos inseridas na peça de teatro fazem um raio-x da realidade social brasileira. Apesar de talvez ter um posicionamento óbvio desde o início mediante as discussões apresentadas pelos personagens em seus extensos diálogos, é neste momento que o filme toma lado, o lado da miséria, o lado da precariedade que é tão natural e inevitável para grande parte dos nacionais desse país, o que consequentemente também caracteriza o Brasil como miserável, não de uma miséria essencial e imutável, mas de uma miséria decidida, uma miséria que é resultante, que é construída e lapidada, assim como um filme que é montado perfeitamente de acordo com os moldes do cinema burguês hollywoodiano, que insere o espectador e o faz esquecer que o que se passa é um filme. Em O Desafio essa tarefa de se esquecer que está a assistir um filme é impossível já que o filme nos lembra o tempo todo deste fato.

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* Maitêus é petropolitana, formada em História pela Universidade Católica de Petrópolis (UCP) e aluna do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Maitêus explica que a coluna ‘Cine Muda’ surge como uma forma de popularização da “sétima arte”, inserindo o leitor/internauta na história do cinema.

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