Cine Muda: Gold Rush, Charles Chaplin

14/maio 08:00
Por Maitêus *

Quando falamos de Charlie Chaplin estamos muito provavelmente tratando do indivíduo que mais encarna a ideia de cinema, isso porque Chaplin fazia de tudo em suas produções cinematográficas. Concebia ideias, as roteirizava, dirigia os filmes, encenava ele mesmo seus protagonistas, editava o conteúdo gravado e ainda se encarregava da produção de suas próprias obras. Todas essas funções contrastam hilariamente com seu porte físico e é justamente seu corpo destoante do padrão de virilidade masculina que Chaplin utiliza como matéria prima, transformando situações de desvantagem física em comédia.

Lembro-me de ler certa vez um relato de Salvador Dali dizendo que recordava de momentos durante a infância em assistia filmes ou escutava músicas em casa nas vitrolas e projetores particulares da família, quando recorrentemente esses aparelhos davam algum defeito, de modo a arranhar o disco ou queimar o filme e no meio daquela história ou música que fazia sentido e havia sido completamente bem amarrada por seus produtores, se metiam as imprevisíveis e inesperadas intempéries da vida, transformando  aquela obra em algo completamente diferente e sem sentido. A reação de Dalí? O riso. Ele achava uma graça tremenda daquela mini tragédia, como se risse da pretensa ordem que os humanos insistem em impor ao universo. Este relato pode muito bem ser um mito, mas encontramos nele características de uma visão de mundo compartilhada tanto por Dali como aparentemente também por Chaplin.

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É esse diálogo bastante prematuro com o surrealismo (parecido com aquele da Germaine Dulac, com a diferença de que ela enveredou de forma muito mais afirmativa nessa direção com o passar dos anos) que abre espaço para Chaplin transformar em comédia situações que são por si só desgraçadas, e em Gold Rush, seu filme mudo de 1925, o cineasta dança uma valsa hilária entre desespero e riso.

Neste magnífico filme, Chaplin demonstra dominar com facilidade as técnicas cinematográficas. Tirando uma regra ou outra que ele deixou de seguir, o filme vai muito bem na sua missão de contar a história através das imagens, inclusive incluindo alguns letreiros completamente desnecessários, já que as atuações quase sempre dão conta do recado. A utilização de diferentes planos, as antecipações que a câmera faz conduzindo o olhar do espectador para o personagem que realmente importa na cena é de uma maestria sem tamanho, mas se torna incomparável quando nos apercebemos que o diretor do filme está no set, atuando como protagonista.

Para além desse esplendoroso trabalho de set que Chaplin executou em sua história, com direito a efeitos especiais refinadíssimos para a eṕoca, o roteiro traz consigo um cuidado narrativo respeitoso. Numa das cenas mais famosas de sua carreira, a dança com sapatinhos de pão, Chaplin condensa uma filosofia particular por trás de seus filmes. Quando olhamos para essa cena em perspectiva comparativa com uma anterior, em que Chaplin e seu companheiro faminto fazem o jantar do dia de ação de graças assando uma das botas do protagonista como prato principal, já que não havia nada pra comer, Chaplin encrava o humor no meio de uma piores condições que a humanidade pode enfrentar, a fome. Se na dureza da realidade o cineasta apela para o absurdo ao transformar uma bota em refeição, nas possibilidades infinitas do sonho ele transforma dois pães em sapatos, no entanto, durante a refeição intragável havia ao menos um mínimo de alívio e confraternização, enquanto que em sua ceia onírica com comidas reais o personagem só encontra desilusão. São essa e outras contradiçẽos que atravessam este filme e o tornam engraçado e genial ao mesmo tempo, ainda que se trate de um filme de aventura, um romance e um épico histórico, simultaneamente.

Chaplin encena ele mesmo dentro dos filmes. A facilidade que encontra ao escrever um roteiro pensando em si como ator principal certamente corroborara para elevar a qualidade de sua obra. Um homem que em nada lembra o ideal heróico dos romances e do ainda recente cinema que já caminhava também no sentido da vangloriação do heroísmo masculino. O pequeno desbravador, ao ser comparado com outros figurões da história que conta, é realmente um sujeito que destoa. Para além do porte físico há também na atuação de Chaplin uma feminilidade que vai na contramão da ideia de homem tradicional daquele momento histórico. Nem mesmo a mulher por quem o protagonista se apaixona consegue entender sua motivações afetivas e tira sarro dele ao longo de todo o filme, os enfrentamentos que tem de fazer contra os vilões da história são todos vencidos a base da sorte, e até mesmo sua conquista final se dá completamente ao acaso.

Chaplin se comporta como quem faz escárnio do herói, como quem se orgulha de sentir medo e só age corajosamente quando as emoções falam mais alto. O protagonista de Chaplin é um contra-herói, não tem o interesse de eternizar-se por seus feitos gloriosos, está preocupado em sobreviver, se proteger e se apaixonar. Chaplin transforma em chacota o que mal tinha se estabelecido, ao dar ao seu personagem desastrado o status de conquistador e aos figurões da trama um fim esquecível, Chaplin postula um lugar para si na história da humanidade, um lugar que pode ser alcançado sem confrontos, guerras, batalhas sangrentas ou galanteios irresistíveis, Chaplin ganha o mundo assim como seu protagonista em Gold Rush, enquanto faz o público rir dele mesmo, tornando-se um herói real e palpável.

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* Maitêus é petropolitana, formada em História pela Universidade Católica de Petrópolis (UCP) e aluna do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Maitêus explica que a coluna ‘Cine Muda’ surge como uma forma de popularização da “sétima arte”, inserindo o leitor/internauta na história do cinema.

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