Cine Muda: A Sorridente Madame Beudet, Germaine Dulac

26/fev 18:20
Por Maitêus *

Se na semana passada analisei um filme que flertava precocemente com o surgimento do cinema experimental, desta vez proponho um filme que faz o mesmo, antecipando características de um movimento que viria a surgir pouco depois do próprio filme dentro do cinema, o surrealismo. Trata-se do filme La Souriante Madame Beudet, de Germaine Dulac, uma diretora francesa que costuma ser incluída no rol da vanguarda Impressionista cinematográfica de seu país, mas que dirigiu filmes que dialogam abertamente com o surrealismo. Não é o caso desse, pois o surrealismo no cinema ainda não tinha ganhado corpo. Mas poderíamos, graças a alguns elementos antecipatórios no filme em questão, chamar esta mulher de predecessora do movimento surrealista no cinema? Eu arriscaria que sim.

Traduzindo livremente para o português o filme se chamaria A Sorridente Madame Beudet, um título bastante apropriado para este filme que conta a história de uma mulher submissa as chantagens emocionais do marido e que mantém uma postura agradável mesmo nesta condição, até que começa a sofrer alucinações como consequência das violências psicológicas que sofre e resolve tomar uma atitude. O filme é certamente Impressionista, nessas alucinações mesmo e em outras representações do que se passa dentro da mente dos personagens podemos perceber isso na utilização da técnica de sobreposição de imagens. Reconhecendo isto, furto-me de aprofundar uma análise mais detalhada desta característica do filme e rumo em outra direção.

Analisar a obra de uma mulher tão transgressora é de uma honra inestimável mas também é de uma raridade sem precedentes já que o cinema é e sempre foi majoritariamente dominado por homens, brancos, europeus ou estadunidenses provenientes das classes mais abastadas da sociedade, são poucas as oportunidades de ver na telona a perspectiva artística de sujeitos que estão a margem desse padrão, isso por si só já confere a Germaine Dulac, uma diretora de cinema, divorciada e bissexual em pleno início século XX, todas as justificativas possíveis para estar presente na história do cinema como uma das mais relevantes personalidades da sétima arte, no entanto, para além disso, os filmes que Germaine produziu e que tive a oportunidade de assistir são também desafiadores, bem feitos e muito interessantes.

Será a primeira vez nesta coluna que analiso um filme que não é um longa-metragem, já que a duração deste é um pouco reduzida em relação ao que estamos acostumadas no cinema comercial e também em comparação com outros que já analisei aqui. Essa característica traz consigo uma informação muito relevante sobre a história do cinema: de que o cinema poderia ter seguido qualquer outro caminho diferente desse que seguiu e que conhecemos. Nesse filme de Dulac percebemos indícios de que as potencialidades do cinema não se esgotam necessariamente no formato que “deu certo”, que se reproduziu comercialmente ao redor do mundo e que é portanto o formato que nós consumimos com mais frequência nas salas de cinema ou em outros dispositivos. Além do tamanho, há um outro elemento estilístico e narrativo que marca este filme em específico e que poderia ser lido como um erro de montagem, se olhado anacronicamente, mas que indica muito mais a pluralidade do cinema e reforça a ideia de que não existe apenas um cinema, mas sim cinemas, no plural, que poderiam ser explorados e as vezes realmente acabam sendo, mas que geralmente caem no esquecimento e se tornam pouco usuais. Me refiro a utilização de vinhetas ao longo do filme, de modo que uma parte da tela que naturalmente teria elementos visuais fique preta ao ter a película encoberta, deixando visível apenas aquilo que é do interesse da diretora nos mostrar, fazendo recortes em um plano que normalmente, no cinema contemporâneo, são feitos com a introdução de dois planos diferentes um após o outro. Isso não significa que a diretora deixa de utilizar a montagem mais tradicional ou que não saiba fazê-lo, ela sabe e também a utiliza com frequência neste mesmo filme, o que reforça a ideia da utilização das vinhetas com sentido estilístico.

É justamente em um momento de utilização da vinheta que o filme parece antecipar características surrealistas no cinema. Logo no início do filme, quando Monsieur Beudet, marido da protagonista, está em pé, mexendo em documentos sobre sua mesa, o filme nos mostra o personagem apenas do pescoço para baixo, promovendo visualmente uma decapitação, prática muito usual na arte surrealista e analisada com mais detalhe pelo artista surrealista Bataille em sua revista Acéphale, no final dos anos 1930. O interessante aqui é que, no filme, a decapitação se dá ao inverso, já que logo em seguida a vinheta é removida e podemos ver o quadro por completo, de modo que a cabeça do personagem se torna visível para o público. Além de propor uma estética surrealista, esta cena dialoga ainda de forma holística com o filme, como se conseguisse resumir toda a trama em uma brincadeira imagética, já que o filme vai desembocar numa redenção deste personagem, numa retomada da sanidade após episódios de loucura, ou seja, numa recuperação da sua cabeça, da sua racionalidade.

Mas o simbolismo desta decapitação me parece que se expande ainda para um outro lugar, o da crítica social. É importante lembrar que esse filme foi exibido pela primeira vez em 1923, três anos após a diretora se divorciar de seu marido, logo, essa cena pode ter também um simbolismo bastante pessoal. Trazendo uma referência bíblica, vemos que o apóstolo Paulo, em suas cartas, orienta o cristianismo à uma política de subordinação hierárquica que se reproduziria na vida privada dos critãos, ao dizer que Cristo é o cabeça da igreja e o homem é o cabeça da mulher, já Germaine, numa postura revolucionária, faz questão de promover essa decapitação simbólica dentro do filme e subordinar o marido a condição de dependência em relação à sua esposa, propondo uma inversão e consequentemente a destruição da estrutura heteropatriarcal. Essa submissão do marido o levaria, teoricamente, a mudar sua postura abusiva e chantageadora, porém, não sabemos se essa mudança realmente ocorre, pois o filme se encerra enquanto o homem ainda se arrepende. Mas se assumirmos a hipótese de que o filme traz personagens arquetípicos, basta olharmos para a sociedade e novamente para a vida da diretora para tentar desvendar o que ocorreria com a história depois que o filme acaba, e então perceberemos que talvez o filme nos conte muito mais uma história cíclica do que necessariamente uma história de redenção da família tradicional burguesa, onde a estrutura patriarcal se restabelece após um momento de redenção e novas violências são reproduzidas. Não deixa de ser curioso que em sua vida pessoal Germaine tenha rompido com esse tradicionalismo ao se casar com uma mulher e na arte, onde teoricamente ela seria mais livre para propor esse rompimento, acabou por reproduzir a estrutura patriarcal hierárquica ao reatar os laços do casal principal.

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*Maitêus é petropolitana, formada em História pela Universidade Católica de Petrópolis (UCP) e aluna do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Maitêus explica que a coluna ‘Cine Muda’ surge como uma forma de popularização da “sétima arte”, inserindo o leitor/internauta na história do cinema.

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