Cine Muda: À Flor do Mar, João César Monteiro

02/jul 08:00
Por Maitêus

No início de À Flor do Mar nos encontramos à deriva, na superfície de um oceano nada familiar. Irracional como as águas que passam por baixo do barco do marinheiro inexperiente, somos lançadas de um lado a outro e, por vezes, temos nossas teorias a respeito do filme reviradas, até que finalmente começamos a juntar os pontos do que se passa e então tardiamente passamos a compreendê-lo. O mar, no final, é o mesmo, o que mudou foi a nossa percepção de seus estados, o mesmo vale para o filme.

Uma, duas, três, quatro mulheres vivendo suas rotinas. Na mesma casa? Começa a parecer que sim. Qual a relação entre elas? São irmãs, filhas, mães? Surge um par de crianças, essas sim devem ser filhas de alguém, mas de qual das mulheres? Essas são algumas das questões e possíveis respostas que vão surgindo logo no início dessa película portuguesa – que apesar disso exige legendas para quem não domina simultaneamente o italiano, o inglês e o português de Portugal.

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Diante desse cenário parece que o filme nos ignora, ignora que tenha sido feito para ser exibido para um público, ignora que quem tá sentada na poltrona não faz parte daquele cosmos compartilhado das personagens, e dessa forma não se preocupa em explicar quem é quem e o que está acontecendo. Essa experiência é rica pois facilmente comparada com a experiência do real, de ser lançada ao mundo. Apesar dos esforços da escola, da igreja e da família, a verdade é que nos interessamos mesmo é pelas histórias que estão debaixo dos panos, aquelas menos óbvias. Ninguém se contenta com as respostas superficiais que nos são dadas ao longo do nosso processo de crescimento. A cegonha, o papel noel e o coelhinho da páscoa logo dão lugar à histórias mais complexas e às vezes incompreensíveis. Ocorre que em À Flor do Mar pula-se este processo mitológico, em que nos são adiantadas histórias infantilizadas para que possamos digerir o mundo real. Neste filme o espectador já nasce adulto, e tem que no meio do caminho, enquanto aprecia os belos planos do filme, tentar entender quem está vivo e quem está morto, quem matou e quem morreu.

Não que seja um filme de ação, mas é que o plano de fundo com recorrência atravessa o filme, um cenário secundário que de fato nunca se materializa em tela, ficando apenas nas histórias contadas pelas personagens, nas notícias do rádio e nas especulações que somos obrigadas a fazer para tentarmos nos localizar.

Um sujeito em um bote, desacordado, é encontrado pela protagonista em uma praia deserta. Na sua testa, uma ferida; no seu bote, uma arma. Simultaneamente sabemos que um assassinato acaba de ocorrer e o assassino está foragido. A correlação de eventos é óbvia, a arma, o sujeito em estado precário, tudo indica um caminho que tampouco se confirma como tal. O filme estabelece recorrentemente essa relação de espelhos, em que um acontecimento ou pessoa reflete uma outra possibilidade, semelhante mas diferente, e assim brinca com nossas expectativas. O homem no barco, a princípio, se encaixa bem no papel do assassino que ele não é, depois, como hóspede, se assemelha e até mesmo se veste como o marido falecido que nunca vemos o rosto. Essas possibilidades sugeridas e depois frustradas tem mesmo algo de realista, é como o sol que durante nossa infância certamente gira em torno da terra, ou a lua que com toda certeza tem o mesmo tamanho do sol, essas ilusões inquestionáveis que em certo momento desmoronam e ganham uma nova aura nas ruínas do desencanto.

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* Maitêus é petropolitana, formada em História pela Universidade Católica de Petrópolis (UCP) e aluna do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Maitêus explica que a coluna ‘Cine Muda’ surge como uma forma de popularização da “sétima arte”, inserindo o leitor/internauta na história do cinema.

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