• Centenário do Monsenhor Cirillo Calaon

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  • 26/mar 08:00
    Por Cleber Francisco Alves

    No dia 26 de março de 2025 transcorre o centenário do nascimento de um notável sacerdote católico italiano que por mais de duas décadas morou no Brasil e prestou relevantes serviços à Diocese de Petrópolis. Trata-se do Monsenhor CIRILLO CALAON. Ele nasceu na localidade de Boccon (região do Veneto), no dia 26 de março de 1925, no seio de numerosa família de sólidos princípios cristãos. Ingressou no Seminário da Diocese de Pádua durante o período em que ocorria a II Guerra Mundial, e veio a ser ordenado presbítero pelo bispo Dom Girolamo Bortignon, OFMCap no ano de 1950.

    Logo após sua ordenação, o Pe. Cirillo foi designado para trabalhar no Seminário Menor de Padova. Depois, atuou como cooperador nas Paróquias de Dolo, Busiago e Urbana. Naquela época, devido à carência de sacerdotes na recém criada Diocese de Petrópolis, nosso bispo Dom Manoel Cintra pediu ajuda ao bispo de Pádua para envio de padres daquela diocese a fim de atender as muitas necessidades pastorais de nossa região. O jovem Padre Cirillo foi um dos primeiros paduanos a se oferecer para vir como missionário para o Brasil: em novembro de 1954, a bordo do navio “Anna C”, ele desembarcou no Rio de Janeiro e veio então para Petrópolis. Foi logo nomeado Pároco de Areal, na época distrito de Três Rios. Encontrou a velha igreja matriz paroquial em péssimas condições, chegando mesmo a ser interditada devido ao risco de desabar. Coube então ao Pe. Cirillo mobilizar a comunidade para construir um novo templo. Foi projetada e edificada uma ampla e moderníssima igreja que é exatamente a atual Matriz de Nossa Senhora das Dores de Areal, símbolo da religiosidade local e verdadeiro cartão postal do município vizinho. Além das atividades pastorais e da celebração dos sacramentos, Pe. Cirillo também atuava como professor no Ginásio local e se fazia presente nas mais diversas dimensões da vida social, política e comunitária arealense.

    No dia 20/05/1965, o bispo Dom Manoel Cintra transferiu o Pe. Cirillo de Areal para a Paróquia de Sant´Ana e São Joaquim, no Distrito de Cascatinha, em Petrópolis. Ele tomou posse no dia 23/05/1965, em Missa concelebrada por diversos sacerdotes, dentre os quais o antigo pároco, Cônego José Jovita Monteiro Luiz, o Monsenhor Gilberto Ferreira de Souza, na época Pároco da Catedral, o então Padre José Fernandes Veloso (futuro Bispo Diocesano) e o Cônego Luiz Brasil Cerqueira. No ano de 1975, quando completou 25 anos de ordenação, em reconhecimento aos serviços prestados à Igreja, o Papa São Paulo VI concedeu a Pe. Cirillo o título de Monsenhor. Porém esse título em nada alterou seu modo simples e totalmente despojado de exercer o ministério sacerdotal.

    A atuação de Monsenhor Cirillo Calaon em Cascatinha foi muito fecunda e marcante. Sensibilizado com as necessidades não apenas espirituais mas também materiais de seu povo, ele traçou um plano de ação pastoral e humanista que tinha como base a implantação de “comunidades” cuja finalidade era não apenas promover a evangelização, mas também motivar as pessoas para se organizarem a fim de – coletivamente – conseguir melhorias para suas condições de vida. Suas preocupações não se limitavam a atender as necessidades da população católica. Nesse sentido, num jornalzinho mimeografado por ele editado, no ano de 1971, falando sobre os trabalhos das comunidades, ele escreveu o seguinte: “Nós, católicos, espíritas e crentes, estamos trabalhando em nome de Cristo para aplicar o Seu programa à comunidade do bairro”. Antes, em 1968, havia escrito uma carta aos “cristãos da comunidade” onde dizia: “O padre veio animar a criação da comunidade; continua a dar assistência religiosa aos católicos e incentiva-os a trabalhar com os vizinhos de outras crenças, dentro do mútuo respeito cristão. O padre coordena também um bairro com o outro, para coisas que dizem respeito e beneficiam a todos. Mas a comunidade não é dele; é dos moradores!”

    Dentre todas as necessidades das comunidades, uma se destacava nas suas preocupações: prover a educação básica para os filhos dos trabalhadores pobres, e assim contribuir para melhorar sua condição social. Essas iniciativas eram parte de um amplo programa paroquial, que se implementava nos diversos bairros da Paróquia de Cascatinha, tanto no Carangola (Escola Paroquial São Geraldo), quanto no Alcobaça (Rua Humberto Rovigatti) e nos bairros do Roseiral e Jardim Salvador (antiga Volta do Lixo). Neste último, foi dele a iniciativa de construir um prédio para instalar uma escola primária, então denominada Escola Paroquial São Salvador. Nessa escola o autor destas linhas aprendeu as primeiras letras e iniciou seu percurso estudantil nos anos de 1974 a 1977. Para perpetuar o legado e a memória desse dedicado homem de Deus, tão preocupado em garantir o direito à educação básica para todos, no ano de 2003, quando foi inaugurada a nova Escola Municipal que veio substituir a antiga Escola São Salvador, atendendo a apelo da comunidade local, a municipalidade atribuiu à nova unidade o nome de Escola Municipal Monsenhor Cirillo Calaon.

    Ele permaneceu em Petrópolis, na Paróquia de Cascatinha, até 26/12/1977 quando decidiu retornar para sua terra natal. Porém, acabou ficando mais uma temporada no Brasil, vindo a aceitar a difícil missão de assumir a coordenação pastoral da Diocese de Paracatu (MG) que estava com a Sé vacante devido à renúncia do bispo.  Monsenhor Cirillo tinha uma personalidade forte, muito determinado, aberto à Igreja e ao mundo. Pode-se dizer que em muitos aspectos de sua personalidade e de sua obra pastoral ele antecipou na prática as diretrizes de renovação da Igreja que vieram a ser consagradas no Concílio Vaticano II. Era um homem completo, um pouco rude às vezes, mas com uma sensibilidade apurada e uma capacidade instintiva de se relacionar com o próximo. Um cristão apaixonado por Jesus Cristo, o Salvador da humanidade que ele quis homenagear designando-O como padroeiro de uma das comunidades de base que criou: a Comunidade São Salvador. Monsenhor Cirillo Calaon faleceu em 28 de fevereiro de 2015, na Itália e foi sepultado na Igreja Paroquial de Boccon. Neste seu centenário de nascimento, prestamos-lhe as devidas e justas homenagens, rogando ao Cristo Salvador que lhe seja concedida no céu a Vida Plena que sempre foi sua meta na sua marcante jornada terrena.

    **Cleber Francisco Alves é membro das Academias Petropolitana de Letras e de Educação.

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