Caricaturista Lan comemora 91 anos

  • 17/02/2016 16:45

    Carisma, bom humor e muita alegria de viver. Esses são apenas alguns dos segredos da longevidade do maior caricaturista da história, Lan. Amanhã, completa os muito bem vividos 91 anos de idade. Ele já percorreu o mundo, trabalhou em grandes jornais como o El País, Última Hora, Jornal do Brasil e O Globo. Ao chegar da Itália, apaixonou-se pelas cores do Rio de Janeiro, pela babá Zezé, pelas mulheres, pelo Flamengo e pela Portela. Uma vida de encher os olhos de qualquer pessoa. Muitas histórias que são contadas com detalhes. Aliás, a memória é uma das grandes virtudes do caricaturista, que fala da vida com a alegria de ter passado por tantos momentos inesquecíveis. Toda essa história vai virar em breve um grande documentário, que já está sendo produzido. 

    Mesmo aposentado, Lan revelou em primeira mão para a Tribuna de Petrópolis que vai voltar a desenhar. Apesar da limitação da visão (ele teve um problema na mácula ocular), disse que vai usar folhas grandes para fazer os traços da rotina de uma mulher solteira: quando acorda, tomando café, arrumando-se para trabalhar. A produção deve começar em breve. Enquanto isso, ele imagina em sua mente todos os traços. Em casa, no seu ateliê, possui mais de 5 mil caricaturas, das mais variadas, seja do cotidiano do Rio, da Portela, do Flamengo. 

    Há quatro décadas vive em Pedro do Rio com a mulher Olívia Marinho e o cachorro Che – nome dado ao labrador de cor preta, em homenagem ao amigo Che Guevara. Na grande lista de amigos fazem parte o caricaturista do jornal O Globo, Chico Caruso, o cantor Paulinho da Viola (apesar de Vascaíno) e também o cantor Chico Buarque. Um dos amigos que se recorda com imenso carinho é do escritor Nelson Rodrigues. 

    Sobre as nove décadas fez um balanço da vida: “Tudo o que eu fiz deu certo, começando pelo casamento com Olívia, apesar de ter sido boêmio e muito mulherengo. Não acreditava no matrimônio, sempre tive um espírito livre”, disse. Ele recorda ainda os ensinamentos dos pais. “Fui educado com muito respeito e aprendi muito com eles. Meu pai, por exemplo, desde cedo me ensinou a sempre defender meus pontos de vista e assim o fiz”, contou. 

    Lan nasceu em Montevarchi, na Itália. Veio para o Brasil pela primeira vez quando o pai foi convidado para participar da Orquestra Sinfônica de São Paulo. Lan tinha 4 anos e o irmão 6. Foi aí que conheceu a Zezé, a babá negra, por quem se encantou: pela cor dela, diferente da dele, e pelo amor que ela demonstrava. “A Zezé tinha um carinho maternal e sempre me dava balas de coco, que eu adorava. Foi com ela que aprendi que o preconceito é uma estupidez”, afirmou. 


    Vida política 

    A crítica é a alma do negócio. A frase, uma paródia de “a propaganda é a alma do negócio”, no caso do caricaturista, é a mais pura verdade. “A charge é uma crítica. E esse era o meu trabalho”, declarou. Durante o período que trabalhou em jornais, foi muito atuante no que diz respeito à política de uma forma geral. Começando pelo emprego na Editora Haynes, de Eva Péron (a Evita), líder política na Argentina. Aliás, foi ela que o incentivou a desenhar mulheres. Lan contou que trabalhava na editoria de Esportes, fazendo caricaturas de jogadores, atletas, mas quando Evita viu pela primeira vez um desenho feito por ele de uma mulher, elogiou o traço delicado e passou a dar a ele uma lista de mulheres para ele desenhar.

    Já no Brasil, em 1964, precisou embarcar para o autoexílio durante o Regime Militar. Naquela época, lembrou que o Cônsul Italiano o chamou e sugeriu que saísse do país. “Lan, os militares estão pesquisando o seu passado e o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) está atrás de você”, lembrou as palavras do cônsul. Foi assim que morou dois anos em Roma e um em Paris, retornando ao Brasil apenas em 1967. Um dos motivos que o levou ao autoexílio foi ter participado da Prensa Latina, uma agência informativa latino-americana fundada por Guevara. Em Roma também trabalhou em uma empresa jornalista. 

    Nos dias atuais, o que o desanima é a conjuntura política atual do país. “Esse momento que o Brasil enfrenta me dá uma saudade de fazer charge. Até porque nunca livrei a cara de ninguém, nem do presidente Arthur da Costa e Silva”, disse, acrescentando que teria 14 anos a serem criticados (período em que o Partido dos Trabalhadores está no poder). “A crise que estamos vivendo, eu que moro no Brasil há 60 anos, nunca vi”, observou. 

    Para ele, tudo começou com o escândalo do Mensalão, que acabou desencadeando a Operação Lava-Jato. Lan não concorda com muitos pontos do atual governo, um deles é o fato de o Lula (Luís Inácio Lula da Silva) ter indicado e apoiado Dilma Roussef para a presidência da República. “Penso que existiam figuras mais fortes dentro do partido para ocupar o cargo. Queria saber baseado em quê ele a escolheu. Além do mais, revolto-me quando dizem que ela foi guerrilheira no período do regime. Vivi aquela época e conheci os verdadeiros guerrilheiros”, salientou. Para ele, a Petrobras virou um balcão de negócios e o PT está criando uma dinastia com a perpetuação do poder. 


    Mais de 15 mil pessoas prestigiaram a exposição Lan, 90 anos, no Hotel Quitandinha

    Em novembro do ano passado, o Sesc Quitandinha lançou uma exposição em homenagem aos 90 anos de Lan. Ela fica em cartaz até o próximo dia 28 e já recebeu mais de 15 mil pessoas. A mostra foi baseada nas vertentes que inspiraram o caricaturista ao longo da vida: “A alma feminina nas curvas de Lan”, com ilustrações das belas mulheres cariocas;  “Cenas cariocas na irreverência de Lan”, retratando o cotidiano da Cidade Maravilhosa; “O traço musical do mestre Lan”, com ilustrações de personalidades da música;  “Lan, um apaixonado pelo futebol”, retratando o universo do esporte preferido dos brasileiros, além da seleção de obras que “Marcaram época”. 

    Em casa, ele mostrou à equipe da Tribuna uma das caricaturas onde retrata com humor uma situação que viveu. Na ocasião, encontrou com um menininho, próximo ao rio, com um anzol todo enferrujado. O garoto pescou um peixe grande. Enquanto ele, com equipamento importado, só conseguiu um mísero peixinho, que não teve nem a oportunidade de levar para casa porque foi carregado por um cachorro. 


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