Brazilianistas, nossa outra história e o dia do fico

  • 08/jan 08:00
    Por Gastão Reis

    Tive um orientador na Wharton Econometrics, uma consultoria de previsão macroeconômica, ligada à Universidade da Pensilvânia, onde eu fazia uma pesquisa para uma futura tese. Em nossas reuniões, ele sempre me cobrava: “Eu quero números!”. Refletia uma tradição do mundo acadêmico anglo-americano para o qual conhecimento bom é aquele baseado em dados confiáveis. Narrativas engenhosas, sem base quantitativa, eram – e são – vistas com os dois pés atrás.

    Alberto Dines, famoso jornalista do saudoso JB (Jornal do Brasil), nos fala dos acadêmicos americanos, os brazilianistas, que desembarcam no Brasil no período pós-1964 e da seriedade de suas pesquisas bem embasadas sobre temas de nossa história e economia. Cita nomes como Albert Fishlow, Alfred Stepan, Thomas Skidmore, cujos trabalhos se tornaram referência para quem quisesse conhecer o Brasil.

    Dines faz também uma crítica a uma leva posterior deles, peso-leve, cujos trabalhos estavam longe de ter o mesmo nível de qualidade dos supracitados. Menciona o caso de Ane-Marie Smith, autora de “Um acordo forçado – O consentimento da imprensa à censura no Brasil”, publicado pela Editora FGV, 262 pp. O subtítulo nos diz que houve uma aceitação tácita das exigências do regime militar na filtragem de notícias a serem aprovadas para impressão. Fato negado por Dines. Os trechos de “Os Lusíadas”, de Camões, publicados pelo Estadão onde as matérias foram censuradas, eram símbolos dessa resistência.

    Houve, entretanto, uma outra leva, depois do ano 2000, de brazilianistas que souberam manter a tradição de qualidade dos primeiros. Citaria dois americanos: a pesquisadora Rae Jean Dell Flory e William Summerhill. Abordarei ainda o trabalho de dois brasileiros, Guilherme A. Tombolo e Armando V. Sampaio, que apresentam um novo cálculo do desempenho do PIB brasileiro, com metodologia tecnicamente sólida, ao longo dos séculos XIX e XX.

    Jorge Caldeira, em “História da Riqueza no Brasil”, nos fala de novos estudos e levantamentos estatísticos mais recentes sobre o Brasil Colônia. Ele recorre ao estudo que melhor cobre o período colonial intermediário, o da pesquisadora americana Rae Jean Dell Flory, Sociedade baiana in: Período colonial médio: os plantadores de açúcar, tabaco, comerciantes e artesãos de Salvador e Recôncavo, 1680-1725. A autora vai fundo nas relações vigentes entre pequenos e grandes proprietários agrícolas, abrangendo as relações desses últimos com comerciantes e artesãos. Ela se valeu de informações oriundas dos livros das igrejas e de inventários nos cartórios no período.

    O quadro que emerge, com base em informações fidedignas de pesquisas avançadas, não confirma as análises sem base quantitativa, tanto a de Oliveira Vianna como a de Caio Prado Jr. Estes vão na direção tradicional de metrópole rica e colônia pobre e explorada. Caldeira diz mais: “Atualmente é consenso que a economia colonial era, no final do século XVIII, muito maior que a da metrópole”. Pode-se se acrescentar: é revelador o fato de que de cada 100 cruzados arrecadados nos municípios da colônia, eles retinham 70 e apenas 30 iam para a Coroa portuguesa. Situação bem diferente da de hoje: os municípios mal retêm 20% do que arrecadam. Patético!

    William Summerhill nos brindou com artigos e livro sobre instituições políticas, débito soberano e histórico das finanças do Brasil Império. Em artigo sobre o desempenho dos dois partidos do Império, o Conservador e o Liberal, na década de 1880, ele nos revela, e comprova, que ambos tinham programas e votavam de acordo com eles, o que revela admirável evolução político-partidária. (Teste em que os atuais partidos não passariam com exceção do Novo.) Derruba a visão tradicional de Oliveira Vianna e vários outros autores nossos de que eram farinha do mesmo saco.

    Em seu livro, resenhado por Leonardo Monastério, do IPEA, este último nos informa o seguinte: “Ao contrário do que retrataram Caio Prado Júnior e Celso Furtado, a situação fiscal do Império não era precária. Prova disto, tanto o crédito externo quanto o interno foram usados profusamente”.

    Essas novas pesquisas não só realizadas por acadêmicos americanos nos indicam que partes substanciais de nossa História Colonial e do Império precisam ser revisadas em respeito aos fatos e à verdade histórica. Os equívocos de nossos intérpretes clássicos, e de peso, podem ser explicados, em parte, por não terem tido acesso a informações só levantadas bem depois. Mas também por se fiarem em narrativas históricas como a do marxista Caio Prado Júnior, baseadas na luta de classes, sem espaço para a colaboração entre as classes sociais, que é o caminho percorrido pelas sociedades bem sucedidas.

    Entre nossos pesquisadores, em dia com novas ferramentas de investigação de nosso passado, merecem registros as conclusões dos dois supracitados. Em O PIB brasileiro nos séculos XIX e XX, eles nos informam que de 1820 a 1875, o PIB real per capita cresceu 1,21% a.a., ou seja, praticamente dobrou no período. E ainda que, no acumulado da última década do Império, houve um aumento real do PIB per capita de 17% e do PIB em 42%. Levando em conta que nas cinco décadas anteriores a 1889, o orçamento do Império decuplicou, fica sem substância a tese de que o País parou no tempo. E ainda o lado político em que o andar de cima era monitorado pelo poder moderador, que não temos mais, pois a Chefia de Estado é também exercida pelo presidente.

    É bem provável que essa repaginação de nossa História, aquela que foi escrita com H maiúsculo, tenha chegado ao conhecimento do Elio Gaspari, articulista do Globo. Em 29.12.2021, publicou o artigo “O ano em que o Brasil nasceu”, em que ele se refere ao Dia do Fico, e faz um belo elogio as atitudes tomadas por Dom Pedro I e José Bonifácio naquela época. Criticando a mediocridade do presente, nos convida a uma viagem no tempo a 1822 e nos diz que voltaremos a “um tempo em que o Brasil olhou para o futuro”.

    A boa notícia é que muita gente está antenada nessa direção promissora.

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