• Brasil sofre apagão de dados públicos, mas laboratórios veem alta de covid

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  • 29/12/2021 17:02
    Por Priscila Mengue e Renata Okumura, com colaboração de Emílio Sant Anna / Estadão

    Em meio ao apagão de dados do Ministério da Saúde, que sofreu ataque hacker neste mês, farmácias e laboratórios têm identificado alta de casos de covid-19 e de gripe nos últimos dias. Com o avanço da variante Ômicron do coronavírus, mais contagiosa, a falta de monitoramento mais preciso preocupa especialistas.

    Nas redes sociais e entre pessoas públicas – como os cantores Caetano Veloso e Chico César e o vereador paulistano Eduardo Suplicy (PT) -, também aparece uma sequência de relatos.

    No Grupo Fleury, a procura por testes dobrou, mas o alerta vem da taxa de casos confirmados: perto de 20%. “Estava com positividade de 3% a 2%, a nossa maior baixa. De repente começou a subir o número de pedidos e de positividade”, diz o infectologista Celso Granato, diretor clínico do grupo, um dos principais de medicina diagnóstica.

    “Gostaria de falar que estão fazendo mais testes por precaução, para se encontrar com a família, mas, se fosse isso, não estaria dando tanto positivo.” Segundo ele, a demanda intensificada aqui e no exterior fez com que até outros laboratórios tenham procurado o grupo para terceirizar testes, diante da dificuldade de obter insumos no mercado. Sobre a influenza (gripe), a situação também é atípica: mais de 27 mil testes só em dezembro (48% de positivos).

    Situação similar é relatada pela rede Dasa, que reúne mais de 900 unidades ambulatoriais no País: a taxa de positividade da covid passou de 1,38% no dia 4 para 11,4% no último domingo. Virologista da Dasa, José Eduardo Levi diz que o índice de positividade era o mais baixo da pandemia no início do mês. São Paulo e Rio são os principais responsáveis por elevar a média. No caso da influenza, a positividade na Dasa subiu de 7% (dia 1º) para 24%, no sábado.

    Para Levi, as festas de fim de ano podem ser uma das explicações, assim como o avanço da Ômicron. No exterior, essa combinação já tem resultado em recordes de casos – embora sem registros de explosões de hospitalizados e mortes, como em outras fases da crise sanitária.

    Dados levantados pela rede indicavam cerca de 20% de predominância da nova cepa na 1.ª quinzena do mês, média que estima chegar perto da metade até sexta.

    O Grupo Pardini teve 14% de alta na realização de testes e mais positividade na última semana ante a anterior – chegou a 6,2%. No Grupo Drogarias Pacheco e São Paulo, a positividade foi de 5%, na 1.ª semana de dezembro, para 15% na última semana, e o total de testes praticamente dobrou.

    Já a média móvel (dos sete dias anteriores) de exames confirmados de covid relatados pelas secretarias estaduais da Saúde segue tendência distinta. Caiu de cerca de 8,7 mil no início do mês para perto de 4 mil ontem. No fim do ano, tradicionalmente, as redes têm mais dificuldade de atualizar as bases de dados e é comum que registros fiquem represados.

    Em nota, o ministério informou que as plataformas para registros de dados de infectados e vacinados – como e-SUS Notifica, SI-PNI e ConecteSUS – já foram restabelecidas na última semana. “A pasta trabalha para restabelecer as demais plataformas afetadas o mais rápido possível”, disse.

    VOO CEGO

    Para Alexandre Naime Barbosa, chefe do setor de Infectologia da Unesp em Botucatu (SP), o País lida com o surto de gripe em meio à pandemia sem saber os rumos a tomar. “Estamos em voo cego”, critica. Ele destaca que o manejo dos pacientes infectados com o vírus causador da covid e com o da gripe é diferente, logo não ter as confirmações pode causar ainda mais complicações. “Hoje, não temos noção de qual é a gravidade do problema”, diz.

    Jesem Orellana, epidemiologista da Fiocruz Amazônia, destaca que os dados já tinham problemas, diante da baixa testagem e vigilância genômica – o que permite dizer por onde andam as cepas, como a Ômicron. “Dezoito meses após o início da pandemia, os sistemas deveriam estar aperfeiçoados, com erros que não deveria ter nessa altura do campeonato. Mas não ter o básico é o fundo do poço.”

    TESTES

    Para quem apresenta coriza e dor de cabeça, os sinais confundem: covid ou gripe? Nesta semana, o designer George Eduardo Teixeira Júnior, de 35 anos, teve esses sintomas. Com laboratórios cheios, foi à farmácia atrás do teste da covid – deu positivo. “Passei por consulta médica para saber como proceder, caso tenha sintomas agravados. Por enquanto, são leves”, conta Júnior, que já tomou a 3,ª dose e se recupera em casa. A vacina não barra a infecção, mas evita hospitalizações. “Depois que fui testado, tive conhecimento de outros que tiveram a doença no trabalho.”

    O receio com os vírus motiva a busca por testes assim que o corpo alerta. A empresária Valdirene Moraes, de 53 anos, estava em Maragogi (AL) semana passada e teve dor de garganta e coriza. “Cheguei ainda indisposta e fui a um hospital particular de referência”, diz. Por sorte, os exames de covid e influenza deram negativo. Nas unidades básicas de saúde (UBSs) de São Paulo, já houve filas na busca pela vacina da gripe. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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