As pedras de meu caminho

16/jun 08:00
Por Fernando Costa

Dizem que em certa etapa da vida nos deparamos com a memória regressiva.  Parece-me estar incluído nesse grupo porque ela permanece viva em minha reminiscência e vez por outra a transporto ao papel ou recorro aos alfarrábios que se empilham nos escrínios da labuta diária. Na infância, sobretudo, quem conviveu no meio rural as trilhas, caminhos cavados na rocha, terra batida e poeira, em geral, avermelhada lhe são comuns. E eles foram repletos de cascalhos e pedras agudas de todas as dimensões. Eram raras as exceções, pois, os guris preferiam a liberdade dos pés descalços a que subissem em árvores, mergulhassem nos poços de água cristalina ou colhessem frutas no pomar. Por isso, uma topada ali, outra acolá sem contar àquelas pontiagudas que os feriam. No entanto, corria de lá para cá, deslizava morro abaixo em canoinhas caídas dos coqueiros. Espinhos e galhos secos eram comuns. Havia o Rio Piabanha, próximo à Fazenda Boca do Fogo. Ali existe uma ponte, e dela se podiam admirar as palmeiras, mangueiras, cajueiros, dentre outros, que compunham o cenário. Enquanto isso as carroças e os carros de bois emitiam seu canto estridente anunciando sua passagem e cumprindo a missão diária. Desde o curso primário se conviveu com a língua portuguesa, principalmente a literatura. As professoras  apresentavam poesias de Casemiro de Abreu, Cecília Meireles, Castro Alves, Adélia Prado, Clarice Lispector, Cora Coralina, Manuel Bandeira, Vinicius de Moraes e, de Carlos Drummond de Andrade. Chamou-me a atenção uma delas, publicada em 1928, cujo estilo encantou o sonhador contumaz. Não obstante as laúzas e matinadas infantis, esse mesmo infante se entretinha com o pintor Samuel Salvado que pintava ângulos de sua casa, os mulungus e flamboyants floridos e, também, não faltava aos compromissos religiosos na igreja e as aulas com Anne Pfeninger desde a música, histórias de viagens e artes. O menino estava apenas ensaiando os primeiros passos. Não o esqueceu. “No meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho.” E as pedras construídas pela natureza ganharam observação especial a exemplo do “Pão de Açúcar” por ser uma formação rochosa em gnaisse e complexo geológico de rara beleza. Lembram os anos sessenta, época ginasial do Colégio Ruy Barbosa, de Três Rios. Fomos à excursão organizada pelo professor Delfino da Silva Monteiro ao Rio de Janeiro. A primeira longa viagem. No trajeto me extasiara com as colinas petropolitanas. Verde e flores em vários matizes. Fizemos uma escala no Belvedere para um lanche. Vista esplêndida. Chegamos à cidade maravilhosa. Visitamos o outeiro próximo ao aterro da glória. Estava em construção e inaugurado em 1965. O ônibus da excursão nos levou a Ipanema, Leblon, Botafogo e na Urca vestimos os trajes de banho e ali se permaneceu boa parte do dia. Visitamos o Corcovado e nos detivemos ante o Cristo Redentor. Durante o passeio de bondinho ao Pão de Açúcar me senti criança em confeitaria, não sabia para onde olhar tal era o deslumbramento. E as pedras de meu caminho seguem seu destino nas construções, calçadas e inúmeras utilidades. Elas estão nas coroas imperiais, lápides, casarios, esfinges, pirâmides e catedrais. Reavivam minha lembrança. As mestras Geny, Alice Maria e Sebastiana eram contadoras de histórias que  resultavam em cunho moral e didático. Numa sabatina realizada na última sexta-feira de cada mês, a mestra Alice Maria Zillig Gac nos apresentou um cachepot. Ele me parecia ter 20cm por 30cm. Havia sobre a mesa quatro pacotes. Um com pedras maiores, o segundo com pedrinhas, o terceiro trazia areia e o quarto uma garrafa d’água. Entregara as pedras maiores, aos alunos Jaci, Rachel, Giovana, Paulo e Roberto e os pediu depositassem naquele recipiente. Assim o fizeram, a seguir chamou Miguel, Lucas, Adriano, Lara, Vitória, Hayssa e Gabriel e os pediu que colocassem as pedrinhas menores. Perguntou, “parece cheio não?” Responderam, “sim professora.” Ela replicou, “mas não está.” Pediu a Breno Lúcio, Elizabeth, Ana Luzia, Carla e Célio colocassem a areia com cuidado. Assim procederam. “Está cheio?” Disse Ana Luzia, “para mim está.” Mas, a mestra contestou; “ainda não está.” Pediu às alunas Rose Heleni, Rosemary, Marly, Madalena, Diva, Teresinha, Marta e Ilma que despejassem os copos d’água que lhes foi entregue. Assim elas atuaram. Pronto, agora estava repleto, sentenciou a docente. Por que a professora interagiu com seus pupilos dessa forma? Disse ela: “O desejo foi o de mostrar a vocês petizes que nossa vida precisa seguir um planejamento. Estar em ordem.” Onde pareciam caber apenas as grandes pedras, cedeu lugar aos cascalhos, areia e água. O tempo e o espaço devem ser organizados. Às vezes fazemos uma tempestade em um copo d’água ou damos ao fato que nos ocorre dimensão maior do que realmente possui como se fosse pedra ou areia. Fez perceber que em nossa vida se divide em trabalho, oração, lazer, estudo, amor, descanso e, sobretudo gratidão pelo dom da vida.

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