A odisseia de um aposentado

  • 02/05/2016 12:00

    Às vezes, somos levados a pensar sobre a vida, movidos por fatos inesperados.  Na segunda-feira passada, tive uma manhã lotada de trabalho. Entrei pela tarde sem intervalo para almoço. Antes de pegar no terceiro turno, passei em uma padaria para fazer um lanche. Procurei sentar próximo a um amigo que não percebeu a minha chegada, pois estava com o olhar fixo dentro de uma xícara de café:

    – E aí, tudo bem?! Você está tão pensativo que nem notou a minha presença.

    – É…! Estou aqui matutando! Às vezes, as coisas parecem conspirar contra a gente, como se acordássemos com o pé esquerdo. Tudo dá errado.

    – Será que o dia se torna melhor ou pior em função do pé que colocamos no chão ao descer da cama?

    – Claro que não. Isso é força de expressão pra dizer que tivemos um dia azarado.

    – Você sempre fala que as coisas acontecem dentro de um critério de probabilidade. Qual a chance de tudo dá errado? O que é o azar?

    Esse amigo é questionador. Por isso, sempre que posso, coloco-o diante de indagações. Dou-me o direito de fazer isso, pela amizade que temos. Ele também não perde a oportunidade de me provocar. Embora tenhamos posicionamentos diferentes, há um respeito mútuo. Ele se diz materialista, mas escorrega pelo esoterismo. Fala de uma energia que não consegue explicar sem passar pela metafísica. 

    – Mas o que houve pra você ficar assim tão introspectivo?

    – Estou me sentindo herói. Consegui pagar uma conta de água. Você não imagina a luta! A do mês anterior veio com um valor absurdo. Fui reclamar na companhia.  Me mandaram verificar se havia vazamento em casa. Não vi vazamento algum e não paguei. Chegou a segunda, também absurda; não paguei. Na semana passada, recebi o aviso de corte. E não tinha dinheiro pra pagar nenhuma. Comentei o caso com um amigo que se prontificou a me emprestar o dinheiro para quitar a primeira e assim evitar o corte. Ele me deu um cheque inteiro, não colocou os quebrados. Eram só trinta reias e uns centavos. Como temos conta no mesmo banco, não me preocupei: sacaria, completaria e pagaria a conta.  O caixa que me atendeu disse que não poderia sacar, porque o cheque não era daquela agência. Se depositasse, levaria uns dois dias para compensar.  Saí, fui até a companhia pra pagar. Entrei em outra fila. Quando chegou a minha vez, o caixa me disse que não recebe parte em dinheiro e a outra parte em cheque. Ou tudo em cheque, ou tudo em dinheiro. Liguei para a casa do meu amigo. Já tinha saído. Liguei para o celular dele. Falou que não poderia trocar, pois o talão tinha ficado em casa. O jeito foi fazer uma transferência eletrônica. O dinheiro caiu logo na conta. Voltei ao banco. Novamente, o caixa disse que não poderia receber, pois a minha agência estava fora do ar. Eu disse pra ele que não sairia dali se a conta não fosse paga. Foram chamar o gerente. Este me levou pra mesa dele. Não sei o que fizeram. Só sei que receberam o pagamento. Na quarta-feira, antes do feriado, foi pior. Um amigo foi ao banco depositar um dinheiro na minha conta. O caixa digitou o número errado, caiu em outra conta. Como esta estava com o saldo estourado, o depósito foi resgatado pelo próprio banco. Até agora não vi esse dinheiro.

    – Estou passando por isso, porque não recebi o pagamento da aposentadoria. Me diz aí onde está a sorte?

    – Nas amizades que você cultivou… 

    – Agora vai querer levantar o meu astral?

    – Você acredita em astral? – Não ouvi a resposta. Paguei a nossa conta e fomos à luta.





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